Dois cientistas -um da Universidade de Edimburgo, na Escócia; e outro da Universidade Estadual de Portland, nos EUA – levantaram a possibilidade de que os humanos recorreriam ao canibalismo caso decidissem explorar o espaço sem as devidas precauções.

Os doutores e professores das instituições, Charles Cockell e Cameron Smith, usaram de seus estudos para sugerir que, antes de nos empolgarmos demais com a possibilidade de irmos a áreas nunca antes exploradas, nós comecemos devagar, estabelecendo colônias na Lua ou Marte, onde o envio de suprimentos da Terra ainda seriam possíveis – ou arriscar que nós acabemos matando nossos companheiros por comida.

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Imagem mostra dois humanos no espaço, em uma colônia em Marte
Colônias humanas no espaço devem começar em Marte ou na Lua, a fim de garantir que o envio de suprimentos da Terra ainda seja viável e nossos exploradores não precisem apelar a métodos menos civilizados (Imagem: e71lena/Shutterstock)

É válido ressaltar que o cenário que o par de estudiosos estabelece é bastante específico: os dois excluíram a maioria dos planetas do nosso sistema solar da possibilidade de habitações viáveis (sob o argumento de que eles não têm superfície ou a superfície deles é inóspita demais para nós), posicionando as luas Calisto (Júpiter) e Titã (Saturno) como “possíveis novas casas” para a humanidade.

Antes de tudo, Cockell afirmou que a estratégia de deixar o nosso planeta em razão da falência climática trazida pelo aquecimento global seria algo “catastroficamente ruim”, segundo suas próprias palavras ao jornal britânico Metro. Ao invés disso, a melhor ideia seria a de espalhar a raça humana, como se fosse uma “apólice de seguros” contra a extinção. Ou seja, se uma parte falhar e morrer, a outra pode seguir em frente.

“Os sistemas posicionados devem ser muito confiáveis e é por isso que precisaremos fazer testes antes”, disse Cockell. “Isso é baseado em dados históricos – a expedição de John Franklin tentou encontrar uma passagem direta entre o norte e o oeste do Ártico em barcos ao final do século XIX – eles tinham as tecnologias mais sofisticadas da época. Eles tinham comida enlatada, que também era uma nova tecnologia – e mesmo assim, eles se perderam, ficaram à deriva e degeneraram ao canibalismo”.

Cockell refere-se à chamada “Expedição Perdida de Franklin”, que deixou o Reino Unido em 1845 em busca de explorar a região ártica. Dotada de dois navios – o HMS Erebus e o HMS Terror -, a viagem acabou em desastre quando ambas as embarcações ficaram presas no gelo do Estreito de Victoria, no norte do Canadá. Depois de um ano sobrevivendo com os recursos que tinham (e que acabaram nesse período), em abril de 1848, o capitão John Franklin e outros 24 marinheiros já haviam morrido, e a ordem de abandono dos navios foi dada pelo segundo em comando, Francis Crozier.

De acordo com os registros históricos, quando encontrados, os restos mortais de Franklin e das duas dúzias de homens foram cientificamente analisados, concluindo que ninguém ali morreu rapidamente: sinais de hipotermia, envenenamento por chumbo, deficiência de zinco, subnutrição e até doenças como o escorbuto (a ausência de vitamina C no corpo, hoje bastante raro) foram identificados. Em alguns ossos, marcas parecidas com dentes davam suporte às alegações de prática de canibalismo, conforme relatado por John Rae, um explorador enviado anos mais tarde para terminar a missão original – e que encontrou os restos da expedição de Franklin.

O Dr. Cockell seguiu o exemplo: “por isso, mesmo com a melhor tecnologia à mão, comunidades humanas isoladas podem se degenerar rapidamente. Se você coloca um grupo de pessoas em Calisto, e as coisas começam a dar errado – como o cultivo de plantações falhando, essas pessoas vão devorar umas às outras se acharem que não há outra forma de sobreviverem”.

O Dr. Smith concorda com essa percepção, afirmando que, a fim de contornar essa possibilidade, antes de qualquer expedição de humanos a uma longa distância no espaço, seria necessário um imenso armazenamento de suprimentos e comida, além de um sistema de agricultura já testado e comprovadamente forte.

Doenças são um outro ponto levantado por Smith, que indica que o envio de um grupo amplo de pessoas, dividido em assentamentos sustentáveis, poderia oferecer capacidades de quarentena caso uma doença acometa um membro ou mais.

Economicamente, falando, as primeiras colônias deveriam – obrigatoriamente – reverter o modelo de comércio para um sistema de troca (vulgarmente conhecido como “escambo”), já que “estabelecer sistemas como o capitalismo ou comunismo seria algo impossível”.

“Quando as pessoas começaram a agricultura, elas se fixaram em pequenas vilas de algumas centenas de pessoas”, disse o especialista. “Essas vilas tinham um contato mínimo com outros assentamentos. Elas plantavam tudo o que comiam, costuravam o que vestiam e tudo era baseado em um sistema operado pelos membros, em favor daqueles membros. Não haviam reis, nem exércitos. Não é bem uma utopia, mas de alguma forma, eles se mantiveram assim por milhares de anos. Teoricamente, nós podemos funcionar da mesma forma”.

Questionado se a tecnologia de impressão 3D não seria um ponto de confluência na vida de uma colônia de humanos no espaço, Smith considerou a possibilidade, mas ainda assim, ressaltou que precisaríamos de materiais – do tipo que não pode necessariamente ser cultivado a curto prazo para se criar objetos que necessitamos no dia a dia.

Smith, contudo, vê a humanidade tentar outras saídas antes de reverter ao canibalismo – incluindo, ironicamente, o próprio canibalismo: ele cita o exemplo do “Milagre dos Andes” de 1972, onde um time de rugby do Uruguai ficou preso na famosa cordilheira após seu avião bater contra uma montanha. Com pouquíssima comida disponível (precisamente, oito barras de chocolate, uma lata de mexilhões, duas jarras de geleia, uma lata de amêndoas, algumas ameixas secas e várias garrafas de vinho), eles entraram em um consenso de comer a carne daqueles que não sobreviveram à queda do avião. Precisamente 16 pessoas – de mais de 40 a bordo – sobreviveram.

Os dois fazem suas afirmações em meio a um imenso crescimento da corrida espacial, com agências governamentais e empresas privadas desenvolvendo tecnologias que estão, cada vez mais, facilitando voos de humanos ao espaço, mas ainda há pouco recurso tangível no estabelecimento de uma colônia. Cockell crê que uma colônia só se tornaria auto sustentável após cerca de 100 anos de seu estabelecimento.

Por outro lado, a tecnologia para os recursos mais essenciais delas já está entre nós: “desenvolver um sistema de fornecimento contínuo de oxigênio não é muito difícil, e soluções de comida e água estão, hoje, bem desenvolvidas. A diferença é que, para um ambiente espacial, tudo deveria ser testado por uns 10 ou 20 anos, antes do uso definitivo”.

Apesar do cenário apocalíptico que estabelecem, ambos os especialistas acreditam que a exploração espacial é essencial para a sobrevivência humana, e que os possíveis benefícios compensam os riscos.

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