O ano começou bastante tenso no Cazaquistão. O país é o 9º maior do mundo em terra e enfrenta uma grave crise após a população começar a protestar por causa do aumento no preço de combustíveis, levando o governo a desativar a internet do país nesta quarta-feira (5). E como o local é um dos maiores mineradores de Bitcoin do mundo, a criptomoeda viu queda na hash rate em mais de 13%.

“O Cazaquistão já minerava relativamente bastante criptomoedas, mas quando a China baniu, houve uma migração forte de mineradores, elevando muito a atividade. Eles procuraram já que o país tem uma estrutura de energia de carvão e gás muito barata, mas o carvão chama mais atenção e vira um bom negócio. Sem a China, o Cazaquistão é uma opção atrativa”, explicou a professora Carolina Moehlecke, da escola de Relações Internacionais da FGV, em entrevista ao Olhar Digital.

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O gigante asiático baniu a atividade em maio do ano passado. Isso levou o Cazaquistão a se tornar o segundo com maior participação na hash rate da rede Bitcoin, respondendo por cerca de 18% do poder computacional da rede. A ex-república soviética só perde para os Estados Unidos.

A hash rate é justamente o que mede o poder computacional da rede. Quanto esforço computacional é utilizado para realizar transações. Ou seja: quanto maior a hash rate, a rede é mais eficiente e segura. Com a internet desativada, a queda foi de mais de 13%, com relação à máxima do dia. De acordo com dados do YCharts, a hash rate caiu cerca de 205.000 petahashes por segundo (PH/s), para 177.330 PH/s.

“Outro fator envolvendo criptomoedas foi a decisão do governo de cortar internet. Sem internet, mineradores não acessam a rede, gerando mais insatisfação. É preciso pensar que esses mineradores são como ‘investidores’ estrangeiros. Existe um problema de relação entre governo, decisões soberanas e como afeta os investidores. Alguns acreditam que o Cazaquistão não vai mais ser um destino atrativo”, emendou Carolina Moehlecke.

bitcoin altos e baixos
Mineradores de criptomoedas deixaram a China e migraram para o Cazaquistão após o gigante asiático proibir a atividade. Imagem: Shutterstock

Mesmo com a mineração das criptomoedas como Bitcoin elevando o preço da energia, não foi a atividade a única a levar aos protestos no Cazaquistão. O país já vinha sofrendo com a instabilidade. De acordo com a professora da FGV, a população já estava bastante frustrada, pois o local tem muita riqueza energética, mas sofre com a desigualdade e a corrupção. A atividade apenas aumentou a pressão.

Os protestos levaram também à renúncia do gabinete presidencial do país. Kassym-Jomart Tokayev foi eleito em 2019, mas Nursultan Nazarbayev, ex-presidente por quase 30 anos, era visto como o verdadeiro poder no Cazaquistão. Tokayev usou a crise para demitir Nazarbayev do cargo no Conselho de Segurança.

Dezenas de pessoas já morreram e mais de mil ficaram feridas nos protestos contra o aumento do preço dos combustíveis. Também, mais de 2 mil pessoas foram detidas. O Banco Central do país suspendeu atividades do sistema financeiro e redes de telefone também estão funcionando mal.

O Cazaquistão fica localizado entre a Rússia e a China, além de fazer fronteira com outros três países. Ele se tornou independente da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1991. O país tem ricos depósitos de hidrocarbonetos e metais, sendo o maior produtor global de urânio e o 9º na exportação de petróleo, e atraiu centenas de bilhões de dólares em investimentos estrangeiros.

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