Dados de satélites revelam que as concentrações de gases de efeito estufa – especialmente o metano – na atmosfera terrestre continuaram a aumentar em 2021, apesar das promessas feitas em congressos sobre o clima e da desaceleração econômica provocada pela pandemia de Covid-19.

Concentração de metano na atmosfera da Terra bateu recorde em 2021. Imagem: Jirasak JP – Shutterstock

Segundo o Copérnico, programa europeu de observação da Terra, as concentrações de metano, em particular, mostraram uma tendência preocupante porque subiram para um novo máximo de quase 1,9 mil partes por bilhão (ppb).

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Liberado naturalmente pela matéria em decomposição, mas também pelas indústrias agrícola e energética, o metano é 80 vezes mais potente no aquecimento do clima do que o dióxido de carbono

Emissão de metano é tópico de suma importância para a ONU

Não é à toa que o gás é alvo de um compromisso global de redução de emissões anunciado na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), em Glasgow, em novembro passado.

De acordo com o site Space.com, Copérnico mostrou que o aumento anual das concentrações de metano também estabeleceu um novo recorde, atingindo 16,3 ppb, um pouco mais do que em 2020, mas mais que o dobro do aumento médio anual entre 2005 e 2015.

Segundo Vincent-Henri Peuch, diretor do Serviço de Monitoramento da Atmosfera Copérnico (CAMS), os cientistas ainda não sabem o que impulsiona a tendência. “O metano é um gás de efeito estufa muito potente e é uma preocupação ver a taxa de crescimento da concentração atmosférica dobrar em comparação com a média”, disse Peuch. “Mais ciência é necessária para ver se é algo que faz parte do ciclo de variabilidade natural ou se é algo ligado a tendências mais recentes e aos efeitos antropogênicos das mudanças climáticas”.

Peuch disse que, além de um aumento nas emissões de metano natural e antropogênico, o crescimento da concentração pode refletir uma diminuição na capacidade da atmosfera de quebrar o gás. 

Sabe-se que o metano reage na atmosfera terrestre com oxigênio para formar gradualmente o dióxido de carbono, que é menos potente e mais prevalente. No entanto, os cientistas admitem que ainda não entendem completamente os meandros desses processos.

Especialistas apontam que a redução na emissão de metano pode retardar o aquecimento global. Imagem: Barnaby Chambers – Shutterstock

Redução na emissão do gás poderia retardar aquecimento global

O rápido aumento das concentrações de metano mostra que o mundo não está nem perto de atrasar o curso projetado das mudanças climáticas. Especialistas acreditam que, devido à potência do metano, a redução das emissões do gás poderia retardar significativamente o aquecimento global

Um corte de 30% nas emissões de metano até 2030 poderia reduzir o aumento da temperatura esperado para 2050 em 0,28 graus Celsius, segundo a Comissão Europeia.

Os dados dos satélites do sistema Copérnico também mostraram que 2021 foi um dos sete anos mais quentes registrados globalmente, junto com os seis anos consecutivos anteriores.

Segundo Freja Vamberg, cientista sênior do Copérnico, a Europa, que a longo prazo está aquecendo muito mais rápido do que o resto do mundo, experimentou um ano um pouco mais frio do que outras regiões, com temperaturas médias apenas ligeiramente acima da média de 1991 a 2020 e fora dos 10 anos mais quentes já registrados.

Vamberg revelou que o continente europeu já está, em média, 2,2 ºC mais quente do que era antes da revolução industrial, bem além do limite de 1,5 ºC solicitado no Acordo de Paris, o tratado internacional negociado na Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU) na capital da França em 2015. 

Especialistas afirmam que o aquecimento além desse limiar pode ter consequências imprevistas para o clima da Terra. O mundo está atualmente em média 1,1 ºC a 1,2 ºC mais quente do que durante o período pré-industrial.

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“As temperaturas médias ligeiramente mais frias na Europa em 2021 provavelmente são causadas pela variabilidade natural em vez de um início de uma nova tendência de resfriamento no continente”, disse Vamberg. “O ano passado ainda estava quase acima da média dos últimos 30 anos. Isso é apenas parte da variabilidade climática natural que acontece acima da tendência de aquecimento. Você também terá alguns anos que são ligeiramente mais frios, ou ligeiramente mais quentes do que outros”.

Na verdade, 2021 ainda bateu um recorde para o verão mais quente da Europa: a marca de 48,8 ºC foi estabelecida na ilha italiana da Sicília, em agosto.

Nova constelação de satélites para colaborar com os estudos

Pech declarou que os resultados do Copérnico revelam que as medidas de redução de emissões de gases de efeito estufa existentes ainda não entraram em vigor. “Quando você olha [para os dados] em detalhes, você vê que no ano passado, com todas as medidas relacionadas à Covid, as emissões de dióxido de carbono só diminuíram em talvez 5 a 7%”, disse. “A dificuldade no estado atual é que estamos olhando para as emissões na atmosfera, mas as emissões antropogênicas representam apenas uma pequena fração do ciclo global de carbono”.

A Comissão Europeia, que administra o programa Copérnico, está atualmente cooperando com a Agência Espacial Europeia (ESA) em uma nova constelação de satélites capaz de medir as emissões antropogênicas de dióxido de carbono em tempo real no nível de fábricas e usinas individuais.

Não é de agora que os satélites desempenham um papel importante no monitoramento de vazamentos de metano de instalações de petróleo e gás. Nos últimos anos, essas observações revelaram que muito mais metano está escapando dos estabelecimentos industriais do que se pensava anteriormente.

Uma nova constelação europeia de satélites, chamada CO2M, fornecerá um novo nível de detalhes e cobertura também para o monitoramento do metano. Isso, por sua vez, levará a uma melhor aplicabilidade das promessas de redução de gases de efeito estufa, conforme esperam os especialistas.

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