Adicionando à lista de coisas que podem nos matar no espaço, agora temos considerar… o próprio espaço, que pode, literalmente, destruir o seu sangue.

Segundo estudo feito pelo Hospital Geral de Ottawa, no Canadá, a exposição prolongada ao vácuo do espaço faz com que o nosso corpo entre em hemólise — isto é, a destruição dos glóbulos vermelhos do sangue — antes do esperado, e de forma mais permanente.

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Ilustração simbolizando os glóbulos vermelhos. No espaço, essas células do sangue são destruídas com maior rapidez, gerando efeito de anemia prolongada
Os glóbulos vermelhos são responsáveis por levar o oxigênio do pulmão para os músculos, resultando na energia que você sente quando dá uma golfada de ar. Pessoas anêmicas tendem a ter problemas com essas células (Imagem: Ezume Images/Shutterstock)

Esse fenômeno tem até um nome — “anemia espacial” — e ele em si não é exatamente uma nova descoberta científica. Na verdade, esse tipo de anemia é parte do que o idioma inglês chama de “RIDGE”, uma sigla que, traduzida, significa“radiação do espaço, isolamento e confinamento, distância da Terra, campos gravitacionais e ambientes fechados hostis”. Ou seja, uma lista das coisas “lá fora” que podem nos matar.

A parte da anemia, no entanto, é que foi pesquisada por Guy Trudel, especialista em reabilitação clínica do hospital e um dos co-autores do estudo, que teve a seguinte pérola de conforto para contar em entrevista ao Ars Technica: “Quando astronautas retornam do espaço, eles se parecem muito com os pacientes que nós admitimos na reabilitação”.

Antigamente, pensava-se que a anemia espacial ocorria devido ao movimento de fluidos no tronco de um astronauta assim que eles chegam ao espaço. É certo que eles perdem rapidamente cerca de 10% do líquido em seus vasos sanguíneos, então era seguro especular que 10% dos glóbulos vermelhos do sangue também fossem destruídos. Esse mesmo pensamento nos fez especular que as coisas seriam normalizadas cerca de 10 dias depois.

Não é bem por aí.

Para conduzir o estudo, Trudel e equipe estudaram 14 astronautas que passaram seis meses na Estação Espacial Internacional (ISS). Cada um dos astronautas expeliu ar em um contêiner especial, durante diversos intervalos durante a estadia na estação: cinco dias, 12 dias, três meses e seis meses, pouco antes de embarcarem de volta.

Com os contêineres de volta à Terra, os cientistas usaram técnicas de cromatografia para analisar o material expelido pelos astronautas, aferindo o volume de monóxido de carbono (CO) que eles despejavam em variados períodos de tempo.

O CO é expelido cada vez que um glóbulo vermelho passa por hemólise. Naturalmente, esse é um processo influenciado por vários fatores – levantamento de peso, por exemplo, pode causar a produção desse gás. Mas Trudel determinou que uma média de 85% dele é produzida exclusivamente por hemólise.

Trocando em números: no espaço, o corpo humano destrói, em média, 3 milhões de células vermelhas do sangue por segundo. Em termos percentuais, são 54% a mais do que o ocorrido conosco na Terra, onde a média é 2 milhões por segundo.

O problema, contudo, não é no espaço, mas sim quando você volta dele: lá em cima, seu corpo perde fluidos, então a média mais alta ainda é biologicamente aceitável, tendo em vista que o volume líquido perdido não dilui suas células, então ainda há equilíbrio.

Voltando do espaço, seu sangue precisará compensar a gravidade de alguma forma – e é aí que a anemia espacial entra em cena: “Você precisa de mais fluidos em seus vasos sanguíneos, e isso vai diluir seus glóbulos vermelhos”, contou o médico.

Mas calma, porque assim como aquela série que já durou tempo demais ou aquela música ruim excepcionalmente longa, nós ainda não acabamos: a anemia espacial, digamos, gosta de “esticar o rolê”. Cinco dos astronautas analisados fizeram exames de sangue e, na extração, concluiu-se que eles ainda estavam anêmicos. E um ano depois, Trudel e equipe fizeram outro exame de sangue e notaram que a destruição dos glóbulos vermelhos ainda estava 30% mais acelerada.

Em outras palavras: quanto mais tempo eles ficassem lá em cima, mais tempo eles seriam anêmicos aqui embaixo.

Trudel disse que ainda não descobrimos o que causa essa aceleração da hemólise, que é um processo natural do corpo, mas ele tem alguns suspeitos: ela pode ocorrer em quatro áreas distintas – os vasos sanguíneos, o baço, o fígado e a medula óssea. Os dois últimos são, respectivamente, a maior concentração de sangue em um único órgão (fígado) e onde as células vermelhas são produzidas (medula).

Dos quatro, o fígado e a medula são, na opinião de Trudel, as áreas mais problemáticas, e eles prometem investigá-las com mais profundidade. Entretanto, eles admitem que não há muito embasamento além de seis meses. “Existe uma lacuna de conhecimento para missões mais longas, como as de um ano ou mais, ou ainda missões para a Lua ou Marte”, disse Trudel.

Traduzindo: se considerarmos uma viagem para a Lua, como as que a NASA quer começar a fazer a partir de 2025, pode até ser que os números sejam ainda maiores.

A pesquisa de Trudel pode servir como um sinal de cautela para quem se interessa em viajar pelo espaço (bom, pelo menos, quem tem dinheiro para pagar por isso ou é um ator de uma renomada série de ficção científica ou ainda é a filha do primeiro norte-americano a sair da Terra, pelo menos). Uma pesquisa rápida no Statista mostra que, em 2020, cerca de 210 mil pessoas conviviam com hemofilia, enquanto outras 80 mil tinham a Doença de von Willebrand.

Ambas são doenças que afetam a capacidade do sangue de coagular apropriadamente. Ambas são hereditárias (herdadas de pais para filhos), mas há raríssimos casos onde você pode “pegar” qualquer uma das duas – e isso, porque estamos citando apenas essas duas.

Ou seja, pode ser que o espaço não seja para você, caso você tenha algum problema no sangue.

O estudo completo pode ser visto na Nature.

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