Ciência e Espaço

Nova câmera pode gravar vídeos do fundo do mar (e seus habitantes) em 4K

Por Rafael Arbulu, editado por Rafael Rigues
27/01/22 20h08, atualizada em 28/01/22 10h02

Imagem: MBARI/Reprodução

O fundo do mar é notoriamente difícil de se registrar, mas uma nova câmera promete vídeos em 4K do isolado ambiente marítimo, graças a uma série de tecnologias pesquisadas pelo Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI), em parceria com a empresa DeepSea Power & Light, especializada em imagens oceânicas.

O trabalho do MBARI é quase que exclusivamente dependente da produção de vídeo, e todo o material usado por eles vem de pequenos veículos de operação remota (ROVs) para exploração marítima que capturam imagens do fundo do mar — mas fatores como a ausência de luminosidade e a pressão, que vai aumentando conforme você se aproxima do fundo, apresentam um desafio para a operação do equipamento e registro das imagens.

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“Vendo a rápida adoção das imagens em 4K e reconhecendo o valor científico que essa resolução mais alta traz para as nossas pesquisas, o MBARI começou a avaliar oportunidades de atualizar as câmeras Full HD de seus ROVs para o 4K em 2018″, disse Mark Chaffey, engenheiro elétrico do instituto. “A nova MxD SeaCam que desenvolvemos com a DeepSea Power & Light captura a vida nas profundezas com um nível de detalhes impressionante”.

“No instituto, nós marcamos todos os vídeos capturados pelos nossos ROVs e permanentemente arquivamos essas descobertas em um sistema exclusivo de referências e anotações (VARS). Conforme vamos acumulando esses detalhes inestimáveis, um panorama maior vai se formando e enriquece a nossa compreensão das diferentes comunidades de animais das profundezas, seus habitats e como as coisas podem estar mudando com o tempo”, disse Nancy Jacobsen Stout, gerente do Laboratório de Vídeo do MBARI. “Além disso, claro, as imagens são simplesmente hipnotizantes e nós gostamos muito de compartilhar essas inspirações com o público”.

O MBARI é um instituto de pesquisa concentrado no fundo do mar — possivelmente a maior autoridade no assunto hoje, no mundo. Em 34 anos de vida, seus cientistas já contam com quase 6 mil mergulhos, sejam humanos ou com ROVs, além de 27,6 mil horas de vídeos capturados. Todo esse material é constantemente compartilhado não só com outras entidades de pesquisa, mas também apresentado em palestras e escolas em todas as idades e níveis de ensino.

A última vez que os veículos do MBARI tiveram suas câmeras atualizadas foi há 20 anos, quando eles migraram do padrão SDTV (quadro 4:3, 576i) para o HD e FullHD (respectivamente, quadro 16:9 e resolução de 720p a 1080p). Na época, a mudança representou um salto de qualidade considerável. Agora, com o mundo padronizando o 4K na maioria dos dispositivos reprodutores de vídeo (e colocando o 8K e além como os padrões futuros), o instituto optou por novamente atualizar sua tecnologia, agora com resolução até quatro vezes superior.

A câmera em questão está em desenvolvimento desde 2019. O maior obstáculo não era atingir a qualidade em si, mas mantê-la estável em condições extremas. Para isso, a durabilidade precisou ser repensada várias vezes.

O resultado final consiste de uma saída óptica protegida por uma espécie de domo que resguarda o equipamento – o material é mais grosso, porém transparente (evidentemente) e, segundo a DeepSea Power & Light, consideravelmente maior que qualquer outro do tipo.

Vários parceiros comerciais ofereceram suas expertises em áreas como a proteção de vidro reforçada da câmera, a capacidade de processamento da imagem em alta qualidade e zero distorção, além do encapsulamento dela para se mover acoplada aos ROVs.

Nos últimos dois anos, o MBARI vinha testando a nova câmera no veículo conhecido como “Ventana”. Conforme ela foi passando nos testes, também acabou incorporada ao ROV mais recente, chamado “Doc Ricketts”. Os resultados podem ser vistos nos vídeos ao longo deste texto. De acordo com Bruce Robinson, chefe dos cientistas do MBARI, a MxD SeaCam é tão avançada que consegue até mesmo fazer seus espectadores identificarem animais mais transparentes, que usam seus corpos translúcidos como camuflagem e seriam impossíveis de serem vistos em resoluções menores, ou mesmo a olho nu.

O especialista também diz que a capacidade de zoom pode melhorar a compreensão do comportamento natural dos animais: “por causa da resolução aprimorada, nós podemos nos posicionar mais longe dos animais se comparado às câmeras HD/FullHD. Isso é importante porque a nossa proximidade do animal pode influenciar em sua resposta comportamental, então quanto mais longe estivermos e ainda pudermos enxergá-lo com clareza, mais naturais serão suas ações”.

Os vídeos capturados pela MxD SeaCam serão incorporados nas exibições públicas do instituto, por todo o seu campus, para os visitantes.

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