Desde que começamos a explorar o espaço, em 1957, nunca encontramos nenhuma evidência da existência de vida extraterrestre. Mas isso não quer dizer que ela não exista, escondida debaixo de uma rocha em Titã ou nadando nos oceanos de Europa. Preocupado com um primeiro contato, um grupo de cientistas está soando o alarme, afirmando que, para nosso próprio bem, é melhor nos prepararmos para uma “invasão” alienígena.

Esta invasão não ocorreria com discos voadores e armas laser, mas sim com microorganismos, trazidos à Terra por espaçonaves em busca de amostras de outros mundos.

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“O que eu diria é que, dado que agora existem planos concretos para explorar novas áreas que poderiam ter vida, eles representam um novo conjunto de riscos que não estavam em jogo antes”, disse Anthony Ricciardi, professor de ecologia de invasão e ecossistemas aquáticos na McGill University, no Canadá, ao site Gizmodo.

Europa, uma das luas de Júpiter, é um local do sistema solar que pode abrigar vida, e que pretendemos explorar
Europa, uma das luas de Júpiter, é um local do sistema solar que pode abrigar vida, e que pretendemos explorar
Imagem: NASA/JPL-Caltech/SETI Institute

Ricciardi e seus colegas expressaram suas preocupações em um artigo chamado “Planetary Biosecurity: Applying Invasion Science to Prevent Biological Contamination from Space Travel” (Biossegurança Planetária: Aplicando a Ciência da Invasão para Prevenir a Contaminação Biológica das Viagens Espaciais), publicado no periódico científico BioScience.

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“A ciência da invasão tem sido aplicada à biossegurança em nível nacional e internacional. Meus colegas e eu acreditamos que isso poderia orientar da mesma forma a biossegurança nas escalas planetárias ou interplanetárias.”

O termo “ciência da invasão” se refere a um conjunto de disciplinas que estuda como um organismo “alienígena” (no sentido de “nativo de outro lugar”) se comporta e afeta um ecossistema isolado após chegar a ele. Por exemplo, como animais se comportam após a introdução de um novo predator, ou os impactos de uma doença numa população que nunca teve contato com ela.

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Locais isolados, como a Antártica, são os mais vulneráveis à introdução de novos organismos. Créditos: Noah Fierer
Locais isolados, como a Antártica, são os mais vulneráveis à introdução de novos organismos. Créditos: Noah Fierer

Uma conclusão é que sistemas “insulares”, lugares como o Havaí, Nova Zelândia, Austrália e Antártica, que evoluíram quase que em completo isolamento, são especialmente sensíveis aos efeitos de uma espécie invasora. E o mesmo se aplicaria a nosso planeta.

O risco, entretanto, é impossível de quantificar, pois “não temos dados sobre contaminação extraterrestre”, diz Ricciadi. “Os riscos de desastres como terremotos maciços ou catástrofes nucleares são tipicamente extremamente baixos”, completa. “Mas sua ocorrência, embora altamente improvável, é inaceitável e, portanto, justifica a existência de medidas de prevenção”. A contaminação microbiana interplanetária deveria ser tratada da mesma forma.

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Também há preocupação com o caminho inverso: que microorganismos da Terra peguem carona em nossos satélites, sondas e rovers e acabem colonizando um local com condições favoráveis, potencialmente destruindo um ecossistema nativo antes que tenhamos a chance de estudá-lo.

Por precaução, astronautas da Apollo 11 ficaram de quarentena após retornar da Lua. Imagem: Nasa
Por precaução, astronautas da Apollo 11 ficaram de quarentena após retornar da Lua. Imagem: Nasa

A Nasa estabeleceu regras para evitar contaminação biológica em missões espaciais desde a década de 60, e elas vêm evoluindo desde então. Entre elas estão exigências como a montagem de todos os equipamentos em salas esterilizadas, um inventário de todo o material orgânico que será usado na missão e limites no nível de microorganismos nas superfícies.

O objetivo é simples: garantir que, caso vida seja encontrada durante alguma missão, possamos ter a certeza de que não fomos nós que levamos ela para lá. E o risco é real: recentemente, uma nova cepa de fungos foi descoberta em uma instalação onde é realizada a montagem de naves espaciais. E o pior: ela é capaz de produzir um “biofilme”, o que significa que pode se agarrar a superfícies e sobreviver aos protocolos de limpeza da linha de montagem de naves espaciais onde foi descoberto. 

“Mesmo que haja uma chance muito pequena de isso acontecer, não podemos arcar com os custos. Porque uma vez que chegarmos a esse ponto, estamos ferrados”, disse Athena Coustenis, presidente do Comitê de Pesquisa Espacial (COSPAR), ao Gizmodo.

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“Portanto, temos que ser muito cuidadosos e cautelosos em qualquer caso”, disse Coustenis. “Nós estabelecemos protocolos, [e] os tornamos muito mais rígidos, para torná-los muito mais eficientes, para que não cheguemos a essa situação”.

Segundo Ricciardi, também deveríamos estar fazendo mais planejamento de cenário e análise de horizonte, duas práticas comuns no campo da ciência de invasão, onde dados sobre as relações entre os membros de um ecossistema são coletados, analisados em supercomputadores e entregues a especialistas, a fim de criar previsões e modelos do futuro.

Tudo isso, claro, seria mais eficaz se especialistas em “ciência da invasão” fossem inclusos nas discussões de defesa planetária. Algo que ainda não ocorre.

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