Há duas semanas, o mundo todo foi surpreendido com a notícia de que um estágio errante de um foguete irá colidir com a Lua daqui a pouco mais de uma semana, em 4 de março. Primeiramente, foi noticiado pela mídia especializada que se trata de um Falcon 9 da SpaceX. Em seguida, novos dados levaram à conclusão de que, na verdade, seria um foguete lançado em 2014 na missão Chang’e 5-T1, da China.

Concepção artística representando o momento de um impacto na superfície da Lua. Imagem: NASA

Durante uma coletiva de imprensa concedida na segunda-feira (21), no entanto, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Wang Wenbin, disse que não pode ser o caso, já que o estágio superior do Chang’e 5-T1 teria queimado completamente na atmosfera da Terra logo após a decolagem.

Mas Bill Gray, astrônomo que liderou a descoberta do impacto, não está engolindo a versão da China.

“Não há realmente nenhuma boa razão neste momento para pensar que o objeto é algo além do booster Chang’e 5-T1”, disse Bill Gray, que gerencia o software Projeto Pluto, usado para rastrear objetos próximos à Terra, em entrevista ao site Inside Outer Space. “Qualquer um que afirme o contrário tem uma grande montante de evidências para superar”.

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Trânsito da Lua (exibindo seu lado oculto) em frente à Terra registrado pelo satélite DSCOVR em julho de 2015. Imagem: NASA / EPIC

EUA também descartam hipótese de ser um estágio do foguete chinês Chang’e 5-T1

“Nós temos um pequeno mistério, em que o 18º Esquadrão de Controle Espacial dos EUA (18SPCS) lista este propulsor (o mesmo que estou dizendo que atingirá a Lua) como tendo reentrado a atmosfera da Terra em outubro de 2015, quase um ano após o lançamento”, explicou Gray. “Mas os únicos dados de trajetória que eles fornecem são para pouco depois do lançamento. Se isso é tudo com que eles tiveram que trabalhar, então a data de reentrada é uma previsão de um ano antes do tempo e não é particularmente significativa”.

Gray explica que isso é como tentar prever o tempo com um ano de antecedência. “Mas, o melhor que posso dizer, esse erro em particular não envolveu o rastreamento de dados”, disse ele. “Acho que envolveu confusão sobre duas missões similarmente nomeadas”.

Essas duas missões seriam a Chang’e 5-T1, que enviou uma cápsula de retorno de amostras em uma viagem de teste ao redor da Lua, e Chang’e 5, que realmente coletou e devolveu amostras lunares ao nosso planeta em dezembro de 2020.

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“Basicamente, não acho que o 18SPCS rastreou o objeto muito depois do lançamento”, disse Gray. “Se tivessem, provavelmente teriam postado dados atualizados da trajetória. Se o cálculo de reentrada for baseado apenas nos dados iniciais de rastreamento, sem mais observações levadas em conta, não será suficiente. Você não pode calcular uma órbita para um objeto desse tipo durante um ano e obter qualquer coisa significativa”.

Além disso, durante grande parte desse ano após o lançamento, o estágio superior  do foguete Chang’e 5-T1 teria estado muito além do alcance do radar. “Então, duvido muito que o 18SPCS estivesse realmente rastreando”, disse Gray. “Mas os observadores de asteroides o acompanharam várias vezes durante esse ano, e nos anos seguintes, de tal forma que pude dizer que atingiria a Lua em março”.

Possibilidade de colisão de foguete com a Lua acende alerta sobre rastreamento

Toda essa confusão levanta uma bandeira, na visão de Gray. “Bem, devemos realmente fazer um trabalho melhor de rastreamento desses objetos”, disse ele. “O primeiro passo seria liberar ‘últimas posições e velocidades conhecidas’ para objetos que vão para órbitas altas da Terra ou órbitas solares ou lunares. Isso teria evitado a questão inicial da identificação, em que eu pensei que este era o estágio superior do Falcon 9”.

Segundo a Nasa, o Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO) vai monitorar a exosfera da Lua para quaisquer alterações devido ao impacto esperado em 4 de março, e procurará a cratera nos meses seguintes.

“O LRO não estará em posição de observar como será o impacto. No entanto, a equipe da missão está avaliando se podem ser feitas observações sobre quaisquer alterações no ambiente lunar associadas ao impacto e, posteriormente, identificar a cratera formada pela colisão”, diz um comunicado da agência espacial norte-americana.

De acordo com o mesmo comunicado, esse “evento único” apresenta uma oportunidade de pesquisa “emocionante”. 

“Após a colisão, a missão pode usar suas câmeras para identificar o local do impacto, comparando imagens antigas com imagens tiradas após o evento”, diz a agência. “A busca pela cratera de impacto será desafiadora e pode levar de semanas a meses”.

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