As áreas habitadas por humanos na Antártida perdem até 23 milímetros (mm) de gelo da superfície a cada verão — uma média consideravelmente maior do que as regiões isoladas. E segundo um novo estudo, parte da culpa por isso é dos turistas que visitam o continente mais isolado do mundo.

As informações são de um novo estudo, publicado na revista Nature Communications por um time de pesquisadores internacionais e que baseou suas conclusões no volume de assentamentos humanos no continente — e o quanto de contaminação por partículas isso traz.

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Atividades turísticas fazem com que o gelo na Antártida derreta de forma acelerada: todo ano, navios que usam combustíveis fósseis levam turistas para visitar o continente isolado, ampliando o problema do degelo na região
Atividades turísticas fazem com que o gelo na Antártida derreta de forma acelerada: todo ano, navios que usam combustíveis fósseis levam turistas para visitar o continente isolado, ampliando o problema do degelo na região (Imagem: Foto 4440/Shutterstock)

Por lei internacional, toda e qualquer iniciativa humana na Antártida deve se livrar do lixo que produz. Quando falamos do lixo comum ou biológico — aquele produzido pelo nosso próprio corpo —, isso é relativamente fácil: navios ou aviões levam essas cargas para regiões mais quentes, deixando-as em locais especialmente designados para incineração.

Mas isso vira um problema quando falamos de partículas específicas pequenas demais para serem coletadas. Na Antártida, isso corresponde ao “carbono preto”, um composto formado por fumaça e fuligem. Em outras regiões, ele é espalhado pelos ventos em escala global: os incêndios florestais na Austrália causaram o aparecimento de fuligem e sujeira na América do Sul, por exemplo.

Na Antártida, porém, isso é mais complicado: o continente é isolado do resto do mundo por ventos polares, o que impede o carbono preto de sair da região e faz com que ele se concentre sobre ela com mais intensidade.

Muito do carbono preto é gerado pela atividade humana: perfuração de gelo, uso de combustíveis fósseis para locomoção ou manutenção de energia em bases — e turismo. Entre 2019 e 2020 cerca de 74 mil turistas visitaram a Antártida, a maior parte viajando em barcos. Isso fora as bases de pesquisas científicas — cerca de 70 espalhadas em várias áreas.

Analisando amostras de solo de uma região de aproximadamente 20 mil km da área mais visitada da Antártida, os cientistas levantaram a quantidade e o tipo de partículas encontradas. O carbono preto altera a forma como a neve reflete a luz, ou seu “albedo”. Quanto mais carbono, menor o albedo, e mais rápido a neve derrete.

O resultado: todas as amostras próximas de assentamentos humanos mostraram teor de carbono preto muito acima da média se comparado com as áreas não habitadas do continente. Falando especificamente de turistas, cada visitante entre 2016 e 2020 foi responsável pela perda de até 83 toneladas de neve e gelo — majoritariamente pelas emissões de navios de cruzeiro.

Isso representa um problema, já que estimativas apontam que, nos próximos anos, as atividades turísticas no continente isolado devem aumentar em volume e frequência, o que ampliará a presença de carbono preto e, consequentemente, levará a mais neve derretida.

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