Veículos e Tecnologia

Preços do níquel disparam por causa da Rússia e isso é má notícia para os carros elétricos

Por Lucas Berredo, editado por Fábio Marton
09/03/22 15h33
Cátodos de níquel produzidos pela Basf

Basf/Divulgação

Uma alta sem precedentes no preço do níquel está acontecendo e é um sinal de alerta para a produção de carros elétricos. Insumo essencial para a bateria dos EVs, o metal chegou a ser negociado em US$ 101.365 por tonelada às 6h da terça-feira (9) na London Metal Exchange — o dobro da alta histórica anterior de US$ 51.800 em maio de 2007.

O níquel, apesar de as pessoas relacionarem a moedas pequenas, por conta dos filmes que retrataram moedas antigas de dólar em níquel, é na verdade um metal semiprecioso, como o cobre ou titânio. Nessa cotação, o níquel está valendo cerca de dez vezes o mesmo peso em titânio e quatro vezes em cobre.

Paradoxo do fim da gasolina

Em tese, a guerra da Rússia contra a Ucrânia deveria favorecer o processo de adoção de veículos elétricos. Isso porque a Rússia é a maior fornecedora de gás e gasolina da Europa, e a Europa não gosta de depender de um país com a política externa da Rússia. A dependência é a razão porque as sanções não podem ser absolutas, e possivelmente o que levou a Putin a acreditar que a guerra não iria custar caro a seu país.

Acontece que a subida no valor do níquel é consequência direta da guerra entre Rússia e Ucrânia. Terceiro maior produtor de níquel no mundo, a Rússia responde por 13% da capacidade global de mineração, o que provoca o temor de que, rodeada por sanções, não consiga exportar a commodity e, consequentemente, haja escassez. “O receio de interrupção no fornecimento de níquel após o conflito entre Rússia e Ucrânia segue agravando e incitando compras extensas [do produto]”, relata a Rystad Energy, empresa norueguesa especializada em pesquisa energética, em recente comunicado aos clientes.

Nos carros elétricos, o níquel geralmente é utilizado para substituir o cobalto no revestimento das células — o bloco de construção básico no componente. Também utilizado na produção de aço inoxidável, ligas para ímãs e (até) cordas de guitarra, um aumento exorbitante no preço do componente levaria a um crescimento no custo da produção de EVs.

“Uma duplicação dos preços do lítio ou do níquel induziria um aumento de 6% nos custos da bateria”, diz relatório da Agência Internacional de Energia, publicado no meio do ano passado. “Se os preços do lítio e do níquel dobrarem ao mesmo tempo, isso compensaria todas as reduções de custo unitárias associadas à duplicação da capacidade de produção das baterias.”

Isso já se dá na prática com a Rivian, que recentemente aumentou o preço de seus carros em 20% por conta da elevação nas commodities.

Em geral, as empresas de carros elétricos substituem o cobalto por níquel, em geral, porque o custo de mineração é menor. A Tesla, por exemplo, produzirá dois tipos de bateria no futuro em que a diferenciação se dará pelo metal utilizado.

Os modelos de entrada terão materiais produzidos a partir de ferro. Já os carros mais sofisticados virão com as aclamadas células cilíndricas 4680 de próxima geração, abrigando um cátodo rico em níquel.

Sanções podem atrapalhar produção de baterias na União Europeia

As sanções econômicas contra a Rússia contribuíram para galopar o custo das matérias-primas. Segundo a Rystad Energy, produtores de cátodos e fabricantes de baterias, cada vez mais, têm enfrentado dificuldades para absorver o aumento de preço nos minerais. Uma das empresas afetadas é a petroquímica alemã Basf, a maior do mundo no segmento.

Como parte de um plano da União Europeia para construir uma cadeia de suprimentos no continente, a Basf planejava começar a produção de matérias-primas na Alemanha. O problema é que, para alavancar o processo, a empresa fechou acordo com o grupo de mineração Norilsk, o que pode ser um enorme gargalo para o avanço na UE para fugir da dependência chinesa nesse segmento.

Uma alternativa para o níquel na produção de carros elétricos seria a adoção de uma química baseada em LFP (fosfato de ferro-lítio). A BYD já utiliza o componente em sua Blade Battery e obteve bons resultados: as baterias de LFP podem ser carregadas em 100% da capacidade e são menos propensas a fugas térmicas. O único ponto negativo é o mau desempenho em climas mais frios.

Crédito da imagem principal: Basf/Divulgação

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