O objeto humano mais distante da Terra, a sonda Voyager 1, está enviando sinais incorretos de seu sistema AACS, graças a um bug que nós estamos, vamos dizer…apanhando um pouco para corrigir.

O “AACS” corresponde, basicamente, à navegação, orientação, inclinação e direcionamento da sonda. Essencialmente, todos os seus movimentos. Quando ele funciona corretamente, seu papel é o de enviar dados de trajeto aos seus controladores da NASA, que marcam suas coordenadas e usam a informação para diversas e variadas finalidades.

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Apesar de ainda estar em pleno funcionamento mesmo depois de 40 anos, a sonda Voyager 1 apresenta um bug que vem preocupando seus controladores
Apesar de ainda estar em pleno funcionamento mesmo depois de 40 anos, a sonda Voyager 1 apresenta um bug que vem preocupando seus controladores (Imagem: NASA/Reprodução)

O problema é que, desde maio, a Voyager 1 parece ter um bug que a faz mandar informações que não correspondem aos seus movimentos, segundo o que engenheiros do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL-Caltech) da NASA informaram. No intuito de corrigir o problema, eles agora estão buscando informações em registros físicos – manuais de usuário, essencialmente – de mais de 40 anos.

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Junto de sua irmã gêmea (Voyager 2), a sonda Voyager 1 foi lançada (sem nenhum bug) em 1977, com a missão de estudar os planetas do anel exterior do sistema solar – respectivamente, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, que ficam depois de um cinturão de asteroides que separa Júpiter de Marte.

A missão foi cumprida com louvor, mas as sondas continuaram seu trajeto, eventualmente deixando o nosso sistema solar, respectivamente, em agosto de 2012 e novembro de 2018. Hoje, a Voyager 1 se encontra a mais de 23 bilhões de quilômetros (km) de distância, e ainda está enviando dados de suas andanças pelo espaço.

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“Ninguém imaginava que ela ia durar tanto quanto vem durando”, disse Suzanne Dodd, gerente de projetos da missão Voyager, ao Business Insider. “E ainda assim, cá estamos”.

O problema: ambas as sondas foram desenvolvidas com o que havia de melhor na tecnologia…na década de 1970. Lembra das fitas K7? Daí para trás. E isso complica um pouco os esforços de manutenção, uma vez que a documentação técnica das sondas também é mais ou menos dessa mesma época.

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Isso porque, ao longo de toda a sua extensão, literalmente milhares de engenheiros e especialistas trabalharam e documentaram procedimentos. Muito disso provavelmente se perdeu com o tempo.

“Conforme essas pessoas iam se aposentando nos anos 1970 e 1980, não havia um esforço muito grande para termos uma biblioteca de documentos de projetos: as pessoas pegavam suas caixas e levariam até suas próprias garagens”, disse Dodd. “Nas missões mais modernas, a NASA mantém um registro de documentação bem mais robusto”.

E mesmo a documentação que eles já identificaram não necessariamente é das mais acessíveis: muitos dos arquivos estão armazenados em uma área fora da estrutura do JPL, e os processos burocráticos de requisição levam mais tempo no caso de documentos mais velhos.

“Ter essa informação exige que você ‘descubra’ quem trabalha aonde. No caso da Voyager 1, para resolvermos esse bug, temos que procurar por caixas em nome de engenheiros que ajudaram a desenhar o sistema de navegação. É um processo que leva bastante tempo”.

O time comandado por Dodd não sabe, ainda, a origem do problema: basicamente, o sistema AACS envia dados por telemetria, assegurando que uma antena da Voyager sempre esteja apontada para a Terra. Só que os dados mais atuais estão bem bagunçados, o que sugere que o sistema em si não está funcionando como deveria.

Dodd afirma que uma hipótese para a causa é a localização da Voyager 1: antes do bug, dados recebidos da sonda sugeriam que, fora do sistema solar, há uma grande incidência de partículas supercarregadas. Dodd argumenta que essas partículas provavelmente não baterão na sonda, mas caso isso acontecesse, poderia causar danos sérios a vários sistemas do nosso artefato.

Entretanto, se isso tivesse acontecido, nós saberíamos: a especialista afirma que um choque desse tipo reduziria a força do sinal da sonda, o que não aconteceu.

Corrigir esse problema é de extrema importância para Dodd e a NASA. Segundo informações recentes, a missão Voyager foi estendida para além de 2030, período no qual ambas as sondas devem perder a capacidade de se comunicar.

“Queremos que a missão dure o máximo possível, porque os dados científicos são muito valiosos”, disse. “É incrível que ambas as sondas ainda estejam não só operando, mas operando bem – pequenos bugs, mas ainda extremamente bem e ainda mandando de volta dados de alto valor. Elas ainda estão falando com a gente”.

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