A relação da humanidade com a contagem do tempo começou atrelada a fenômenos astronômicos, antes da primeira palavra escrita. E semanas e horas pareciam ser exceções. Porém, hieróglifos do Antigo Egito dão novos insights sobre a origem da hora.

Para quem tem pressa:

  • A princípio, acreditava-se que os conceitos de horas e semanas não surgiram a partir da observação de fenômenos astronômicos;
  • Porém, registros em hieróglifos egípcios mostram que os conceitos estão, sim, atrelados à astronomia;
  • Esses registros, com informações astronômicas, estão no templo Oriseu, em Abidos;
  • De acordo eles (e outros do Antigo Egito), a ideia de hora surgiu no norte da África e no Oriente Médio;
  • Em seguida, foi adotado na Europa – e, de lá, se espalhou pelo mundo na era moderna.

Segundo esta, que é uma das escritas mais antigas do mundo, o conceito está, sim, atrelado à astronomia. Consequentemente, o de semanas também.

publicidade

De acordo com registros no Antigo Egito, a ideia de hora surgiu no norte da África e no Oriente Médio. Depois, foi adotado na Europa – e, de lá, se espalhou pelo mundo na era moderna.

Leia mais:

publicidade

Tempo no Antigo Egito

Pirâmides do Egito em dia ensolarado
(Imagem: Ricardo Liberato/Wikimedia Commons)

Os Textos da Pirâmide, que datam antes de 2.400 a.C, são os primeiros escritos do Egito Antigo. Neles, a palavra wnwt pode ser traduzida como “hora”.

Para entender a palavra wnwt – cujo hieróglifo remete a uma estrela – é preciso voltar à cidade de Asyut, por volta de 2.000 aC.

publicidade

Lá, o interior das tampas de caixões retangulares de madeira às vezes era decorado com uma tabela astronômica.

A tabela tinha colunas que representavam períodos de dez dias no ano. O calendário civil egípcio tinha 12 meses, cada um com três “semanas” de dez dias, todas seguidas por cinco dias de festivais.

publicidade

Em cada coluna, 12 nomes de estrelas eram listados, perfazendo 12 linhas. A tabela inteira representava as mudanças no céu estelar ao longo de um ano inteiro, semelhante a um mapa astral moderno.

Essas 12 estrelas são a primeira divisão sistemática da noite em 12 áreas de tempo, cada uma governada por uma estrela.

No entanto, a palavra wnwt nunca aparecia associada a essas tabelas de estrelas nos caixões.

Porém, por volta de 1.210 a.C, no Novo Império – o período do Antigo Egito entre os séculos 16 e 11 a.C – a ligação entre o número de linhas e a palavra wnwt é explicitada.

Instruções astronômicas

Ruínas de cidade no Egito
Templo Osireu, em Abidos, no Egito (Imagem: Shutterstock)

Um templo – o Osireu, em Abidos – contém uma riqueza de informações astronômicas. Entre elas, estão instruções sobre como fazer um relógio de sol e um texto que descreve os movimentos das estrelas.

Essas informações também traziam uma tabela astronômica – do tipo que decorava os caixões. Mas, de forma única, as 12 linhas eram rotuladas com a palavra wnwt.

No Novo Império, havia 12 wnwt noturnos e também 12 wnwt diurnos. Ambos eram, claramente, medidas de tempo.

Aqui, o conceito de hora está quase em sua forma moderna. Exceto por duas coisas.

Primeiro: embora existam 12 horas diurnas e 12 horas noturnas, elas sempre são expressas separadamente, ao invés de juntas (como um dia de 24 horas).

O tempo do dia foi medido usando sombras projetadas pelo sol, enquanto as horas da noite foram medidas principalmente pelas estrelas.

Isso só poderia ser feito enquanto o sol e as estrelas estivessem visíveis, respectivamente. E havia dois períodos no nascer e do pôr do sol que não continham horas.

Segundo: o wnwt do Novo Império e nossa hora moderna diferem em duração.

Relógios de sol e relógios de água demonstram claramente que a duração do wnwt variava ao longo do ano. Longas horas noturnas em torno do solstício de inverno, longas horas diurnas em torno do solstício de verão.

Para responder à pergunta de onde vem o número 12 ou 24, é preciso descobrir por que 12 estrelas foram escolhidas num período de dez dias. A origem da hora está nesta escolha.

Medindo tempo com estrelas

Hieróglifos do Antigo Egito sobre o tempo
(Imagem: kairoinfo4u/Flickr)

Os antigos egípcios escolheram usar a estrela brilhante Sirius como modelo e selecionaram outras estrelas com base em sua semelhança comportamental com Sirius.

O ponto-chave parece ser que as estrelas usadas para medir o tempo desapareciam por 70 dias a cada ano, assim como Sirius, embora as outras estrelas não fossem tão brilhantes.

A tabela astronômica no templo Osireu fornece datas de modo que a cada dez dias uma estrela semelhante a Sirius desaparece e uma estrela reaparece, durante todo o ano.

Dependendo da época do ano, entre dez e 14 dessas estrelas são visíveis a cada noite. Se registrada em intervalos de dez dias ao longo do ano, surge uma tabela muito parecida com a tabela que decorava os caixões.

Por volta de 2.000 a.C, a tabela tornou-se mais esquemática do que precisa. E uma tabela com 12 linhas surgiu, resultando nas tabelas expostas em museus no Egito e outros lugares.

Portanto, é possível que a escolha de 12 como o número de horas da noite — e eventualmente 24 como o número total de horas do dia — esteja relacionada à escolha de uma semana de dez dias.

Assim, nossa hora moderna se origina de uma confluência de decisões que aconteceram há mais de quatro mil anos.

Com informações de The Conversation

Já assistiu aos novos vídeos no YouTube do Olhar Digital? Inscreva-se no canal!