O ano era 1948, nas primeiras horas de uma ensolarada manhã de 1° de novembro daquele ano, moradores de uma estreita faixa  que passava pelo leste africano esperavam ansiosos para apreciar um fenômeno astronômico raro: um eclipse total do Sol. Mas quando a Lua encobriu o disco solar, escurecendo o céu por alguns instantes, algo ainda mais espetacular surpreendeu a todos: um brilhante cometa pode ser visto ao lado do Sol eclipsado. Era a primeira visão do Grande Cometa do Eclipse de 1948, um dos mais marcantes cometas descobertos durante um eclipse. Mas não foi o primeiro, nem será o último.

Um eclipse Total do Sol é certamente um dos fenômenos astronômicos mais espetaculares que se pode ver. O problema é que apesar deles ocorrerem com certa frequência, são fenômenos raros de se presenciar porque só podem ser observados a partir de uma estreita faixa do globo. Igualmente raros e belos, são os cometas brilhantes. Mas ao contrário dos eclipses, cuja ocorrência pode ser facilmente calculada, a aparição de um grande cometa geralmente é imprevisível. 

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[ Cometa 1P/Halley – Créditos: NASA/W. Liller – NSSDC’s Photo Gallery (NASA) ]

Fogem a essa regra os grandes cometas periódicos, como o Halley, que aparece a cada 76 anos e o Swift-Tuttle, que leva cerca de 133 anos para completar uma órbita ao redor do Sol. Como é muito difícil esperar por tantos anos, nos resta torcer pela aparição dos imprevisíveis cometas de longo período. E quando eles aparecem durante um eclipse total do Sol, aí temos o melhor dos mundos. Os dois fenômenos astronômicos mais raros e espetaculares ao mesmo tempo, é capaz de deixar qualquer astrônomo ou aficionado completamente extasiado.

O primeiro registro que se tem conhecimento de um cometa avistado durante um eclipse é do  filósofo grego Posidônio, que viveu nos séculos I e II a.C.. Ele  relata que um cometa apareceu durante um eclipse solar, mas infelizmente os registros são muito vagos. Não se sabe ao certo quando teria ocorrido tal eclipse e nem mesmo se ele próprio testemunhou o fato, ou se é um relato de terceiros.

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Séculos depois, o historiador romano Filostórgio escreveu que durante a totalidade do eclipse solar de 19 de julho de 418 d.C., visível de Roma, um objeto semelhante a um cometa foi observado no céu escurecido pelo eclipse. No mesmo período, um grande cometa foi relatado na Europa e na China, chegando a produzir uma cauda que se estendia por cerca de 100° no céu. 

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Com todas as superstições que cercavam tanto eclipses quanto cometas naqueles tempos, dá pra imaginar o quão apreensivas ficaram as pessoas ao presenciar os dois fenômenos ao mesmo tempo. Agora o primeiro cometa de eclipse amplamente e cientificamente documentado, só veio a aparecer em 1882.

Chamado de X/1882 K1, ou simplesmente Cometa do Eclipse de 1882, ele foi percebido no Egito assim que o céu escureceu com o Eclipse Solar de 17 de maio daquele ano. Ele também ficou conhecido por Cometa Tewfik, não em homenagem ao seu descobridor, e sim, em honra a Tewfik Paxá, governante do Egito na época. A rápida movimentação do objeto durante o eclipse indica que ele era um membro da família de cometas Kreutz, que são rasantes do Sol e que, muitas vezes, são desintegrados durante a aproximação. Provavelmente esse foi o destino do Cometa Tewfik, porque depois de aparecer durante 1 minuto e 50 segundos durante aquele eclipse, ele nunca mais foi visto.

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[ Cometa Tewfik, o Cometa do Eclipse de 1882 – Créditos: Arthur Schuster ]

Na década que se seguiu, um tênue cometa foi detectado nas fotografias feitas do Eclipse Total do Sol de 16 de abril de 1893. Este eclipse cortou a América do Sul, o Oceano Atlântico e foi visto também no norte da África. Expedições do mundo inteiro se instalaram ao longo da faixa de visibilidade com a intenção de estudar a coroa solar. Uma delas, da Royal Astronomical Society, veio até Paracuru, no Ceará. 

Mas a grande surpresa ocorreu depois, quando astrônomos americanos analisaram as fotografias feitas no Chile, durante os 4 minutos e 47 segundos do Eclipse. Eles encontraram um cometa, com sua cauda se estendendo para além da coroa solar. Mais tarde, esse mesmo objeto foi encontrado em fotografias feitas no Brasil e no Senegal. Não houve relatos de observação visual. Ao todo, o cometa foi registrado por um período de apenas 2 horas e meia, ao longo da sombra do eclipse. E, ao analisar a sequência das imagens, foi possível perceber que o objeto se afastou rapidamente do Sol, até desaparecer para sempre com o fim do eclipse. Características de um cometa rasante do Sol que foi provavelmente destruído por uma ejeção de massa coronal.

Agora, sem dúvidas, o mais espetacular já registrado foi o Grande Cometa do Eclipse de 1848. O Eclipse de 1° de novembro daquele ano passava pelo leste africano e pelo Oceano Índico. Às 7:24 no horário local, os observadores das proximidades de Nairobi, no Quênia, puderam contemplar menos de um minuto de totalidade. Com a escuridão do eclipse, um grande e brilhante cometa pode ser visto ao lado do Sol eclipsado. O objeto também foi detectado a bordo de um avião da Força Aérea Real da Inglaterra, que sobrevoava pela sombra do eclipse a 4000 metros de altitude. O Grande Cometa do Eclipse de 1948 foi o primeiro cometa co-descoberto a partir de um avião em voo. 

[ O Grande Cometa do Eclipse de 1948 registrado a bordo da aeronave da Royal Air Force sobre o Kênia – Créditos: Daniel Fisher ]

Alguns dias depois, este cometa se tornou visível no final da madrugada em todo o Hemisfério Sul e, posteriormente, também no Hemisfério Norte, com uma cauda de quase 30° de comprimento.

Depois do Grande Cometa do Eclipse de 1948, vários astrônomos tentaram encontrar cometas durante os eclipse solares. Eclipses solares são momentos muito favoráveis para observar os cometas que passam próximos ao Sol. É o momento em que eles se tornam mais brilhantes mas são normalmente ofuscados pelo brilho solar. Entretanto, nunca algo tão espetacular como o Cometa de 1948 foi visto. 

[ O Grande Cometa do Eclipse de 1948 registrado duas semanas depois do eclipse no Observatório de Harvard – Créditos: Observatório da Universidade de Haravrd ]

Até mesmo o famoso Cometa Hale-Bopp fez apenas uma tímida e gelada aparição durante o Eclipse Total do Sol de 9 de março de 1997 na Sibéria. De toda forma, foi uma primeira aparição esperada de um cometa durante um eclipse. E a próxima, está muito perto de acontecer.

Agora está enganado quem acha que estou falando do Cometa Nishimura e do Eclipse Anular de 14 de outubro. Ambos devem dar o seu espetáculo solo. Isso porque um eclipse anular não escurece o céu a ponto de permitir a observação de estrelas e cometas e no dia 14 de outubro, o Nishimura já vai estar mais afastado do Sol.

O próximo cometa de eclipse será provavelmente o Cometa Pons–Brooks. Descoberto em 1812 por Jean Louis Pons e redescoberto em 1883 por William Brooks, O Cometa Pons-Brooks tem um período orbital de 71 anos e a sua próxima passagem pelo periélio deve ocorrer em 21 de abril de 2024. Só que duas semanas antes, em 8 de abril, ocorrerá um Eclipse Total do Sol, que será visível por uma faixa que corta a América do Norte. 

Os felizardos dentro dessa faixa de visibilidade poderão contemplar um cometa, não muito brilhante, mas visível a olho nu durante a totalidade do eclipse. Uma visão provavelmente não tão espetacular quanto o Grande Cometa do Eclipse de 1948, mas que é um belo combo com os dois fenômenos astronômicos mais exuberantes que se pode ver.

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