A guerra entre Rússia e Ucrânia completa dois anos neste sábado (24). O horror vivido em solo ucraniano é difícil de imaginar. Mas dá para ter uma noção do estrago causado pelo conflito ao se observar o território a partir do espaço.

Para quem tem pressa:

  • Pesquisadores utilizaram imagens de satélite para analisar a destruição causada pela guerra na Ucrânia, revelando um panorama devastador através da tecnologia espacial;
  • Por meio de dados do radar Sentinel-1, pesquisadores identificaram áreas danificadas em cidades como Bakhmut, evidenciando destruições significativas e o colapso de edificações devido aos confrontos;
  • Análises indicam um padrão de devastação profunda nas cidades analisadas, com áreas urbanas mostrando destruição longe das linhas de frente;
  • O estudo destaca a importância dos satélites e do sensoriamento remoto como ferramentas imparciais e acessíveis para monitorar os efeitos dos conflitos armados.

É o que os professores Sylvian Barbot, da Universidade do Sul da Califórnia (EUA), e Teng Wang, da Universidade de Pequim (China), fizeram. A dupla, junto ao pós-graduando Hang Xu, analisaram o desenrolar da guerra por meio de dados e imagens capturadas por satélites.

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Barbot publicou um artigo no The Conversation, nesta sexta-feira (23), no qual detalha os trabalhos realizados por ele e sua equipe. “A imagem é clara: a verdadeira história da guerra é destruição”, escreve o professor. Um artigo sobre o estudo também saiu no periódico Natural Hazards Research.

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A destruição vista do espaço

A Agência Espacial Europeia (ESA) disponibiliza dados de radar gratuita e publicamente desde o início dos anos 1990. Duas imagens de radar formadas pelo satélite Sentinel-1, da agência, sobre a mesma área puderam ser usadas para detectar mudanças em estruturas e outras superfícies.

A resolução espacial do radar Sentinel-1 de 20 metros sobre uma faixa de 410 quilômetros combinada com atualizações de 12 dias torna seus dados de radar ideais para monitorar a guerra urbana, segundo Barbot. Esforços de pesquisa anteriores usaram dados de radar do satélite para avaliar danos em Kiev e Mariupol. E os professores usaram os dados para analisar a evolução dos danos às cidades ao longo do tempo durante várias batalhas prolongadas.

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Montagem com mapas mostrando destruição Bahkmut na Ucrânia
Destruição ao longo da batalha de Bakhmut, na Ucrânia (Imagem: Xu et al./The Conversation)

Os professores sinalizaram áreas altamente danificadas comparando a coerência do radar antes e depois da guerra, dentro das áreas classificadas como superfícies artificiais pelo conjunto de dados WorldCover 2021 da ESA. Usando essa abordagem, eles analisaram primeiro a batalha de Bakhmut, uma das mais longas e sangrentas da guerra, que começou em 8 de outubro de 2022 e terminou com uma vitória russa em 20 de maio de 2023.

Quando Hang Xu mostrou a Teng Wang e a mim os dados que ele havia processado, ficamos intrigados. Vimos um padrão de tabuleiro de xadrez por toda a cidade. Rapidamente percebemos o horror da situação. A única coisa que sobreviveu após a batalha de um ano foi a rede de estradas na cidade. Todos os edifícios haviam colapsado parcial ou completamente devido ao bombardeio contínuo.

Sylvian Barbot, professor da Universidade do Sul da Califórnia (EUA), em artigo ao The Conversation
Montagem com mapas mostrando destruição em Rubizhne, Sievierodonetsk e Lysychansk na Ucrânia
Destruição ao longo das batalhas de Rubizhne, Sievierodonetsk e Lysychansk, na Ucrânia (Imagem: Xu et al./The Conversation)

Em seguida, a equipe olhou para as batalhas de Rubizhne, Sievierodonetsk e Lysychansk que começaram em abril de 2022 e terminaram com vitória russa em 2 de julho de 2022. A destruição comparativamente menor de Lysychansk é explicada pelo rápido cerco da cidade pelo sul, em vez de assaltos frontais contínuos, como foi o caso em Bakhmut, segundo Barbot. Os dados de radar revelam destruição longe da linha de frente dentro das cidades, mostrando toda a extensão da devastação.

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‘Olhos’ do espaço

(Imagem: Shutterstock/NicoElNino)

Sensores em satélites registram ondas eletromagnéticas irradiadas ou refletidas da superfície da Terra. Os comprimentos dessas ondas variam de centenas de nanômetros a dezenas de centímetros. Isso possibilita monitoramento semi-contínuo em escala global, sem impedimentos por fronteiras políticas e obstáculos naturais.

Imagens ópticas, equivalentes a fotografias tiradas do espaço, ajudam governos, pesquisadores e jornalistas a monitorar movimentos de tropas na frente e a destruição de equipamentos e instalações. Embora imagens ópticas sejam facilmente interpretadas, elas sofrem com a cobertura de nuvens e operam apenas durante o dia.

Para contornar esses problemas, os professores usaram radares a bordo de satélites. Sistemas de radar espaciais emitem ondas eletromagnéticas de longo comprimento em direção à Terra e depois registram os ecos de retorno. Essas ondas – cerca de um a dez centímetros – podem penetrar nuvens e fumaça. A interferometria por radar já provou ser uma ferramenta inestimável para monitorar danos generalizados causados por desastres naturais, segundo Barbot.

Para o professor, imagens de sensoriamento remoto oferecem meios para monitorar de forma segura o impacto de conflitos armados, particularmente à medida que guerras de alta intensidade em ambientes urbanos proliferam. “Instrumentos de satélite de acesso aberto complementam outras formas de inteligência de fontes abertas, oferecendo acesso desimpedido a informações de alta resolução e imparciais, que podem ajudar as pessoas a compreender o verdadeiro impacto da guerra no terreno.”