Quem viu a notícia do material radioativo roubado em São Paulo na última sexta-feira (5) deve ter lembrado do famoso episódio do césio-137 em Goiânia, no fim dos anos 1980, considerado o maior acidente nuclear da história do Brasil. O elemento furtado dessa vez foi o germânio e ele pode emitir 200 vezes mais radiação ionizante que o césio. Mas calma, isso não significa que ele é mais perigoso.

Roberto “Pena” Spinelli, físico pela USP, com especialidade em Machine Learning por Stanford e pesquisador na área de Inteligência Artificial, além de colunista do Olhar Digital News, fez uma análise no X (antigo Twitter) sobre a radioatividade do Germânio.

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De acordo com o especialista, apesar do elemento emitir 200 vezes mais radiação que o Césio, existem outros fatores que determinam o quão perigoso para o ser humano um material nuclear é. 

Em comparação com o caso de Goiânia, Pena cita que a forma em que o elemento está dessa vez dificulta a propagação dele no ambiente. “O césio estava na forma de um sal (pó) altamente solúvel em água e que pode se dispersar no ambiente. O germânio está na forma sólida, e por isso não consegue se espalhar pelo ambiente e nem contaminar poços de água”.

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Outro ponto determinante é a vida útil do material. Enquanto o césio pode fazer estrago e manter o local contaminado por 30 anos, a duração do germânio é de apenas 272 dias. Além disso, o césio em forma de sal pode ser ingerido, contaminando diretamente as células. O elemento roubado, em forma sólida, não pode ser ingerido tão facilmente.

O fato mais determinante pode ser ainda a quantidade. Segundo Pena, ao que tudo indica existe uma diferença bem grande. “No acidente de Goiânia, foram expostos 19g de césio 137. O balde de germânio que sumiu, pelas notícias que encontrei, continha apenas 1 gerador de gálio, que costuma ter por volta de miligramas de germânio. Se for isso de fato, é algo como 10 mil vezes menos”, disse o professor.

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Mesmo que o germânio seja 200 vezes mais radioativo que o césio, o fato de ser sólido e a amostra ser 10 mil vezes menor, além da sua vida curta, faz com que o potencial de desastre do balde roubado de germânio seja muito menor do que no acidente de Goiânia

Roberto “Pena” Spinelli

Isso tudo não significa, entretanto, que o germânio roubado em São Paulo seja inofensivo. “Qualquer pessoa que manipular essa amostra diretamente, sem nenhum tipo de proteção, pode sim ter danos sérios de curto e longo prazos e até vir a morrer”, finaliza o especialista.

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Roubo de material radioativo em São Paulo

O alerta já havia sido dado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), que informou em nota que o risco da exposição do material é “muito baixo para a população e o meio ambiente”, mas que o contato humano com o elemento deve ser evitado.

Foram roubadas cinco latas que contém um invólucro com o material radioativo. Até o momento, duas já foram recuperadas, mas estavam abertas e não há detalhes de se o invólucro ainda estava dentro dos baldes.

material radioativo
Parte do material radioativo foi encontrada em São Paulo (Imagem: Divulgação/Corpo de bombeiros)

“Alertamos a população para, caso encontre o material radioativo, mantenha distância segura e contacte imediatamente a CNEN pelos telefones (21) 98368-0734 ou (21) 98368-0763 e também a polícia”, disse a CNEN.

Caso Césio-137 em Goiás

Em setembro de 1987 aconteceu o acidente com o Césio-137 (137Cs) em Goiânia, capital de Goiás. O manuseio indevido de um aparelho de radioterapia abandonado, onde funcionava o Instituto Goiano de Radioterapia, provocou um desastre que atingiu centenas de pessoas, direta e indiretamente.

Com a violação do equipamento, foram espalhados no meio ambiente vários fragmentos de 137Cs, na forma de pó azul brilhante, provocando a contaminação de diversos locais, especificamente naqueles onde houve manipulação do material e para onde foram levadas as várias partes do aparelho de radioterapia.

Imagem de Arquivo da Secretaria de Estado de Saúde de Goiás

Por conter chumbo, material de relativo valor financeiro, a fonte foi vendida para um depósito de ferro-velho, cujo dono a repassou a outros dois depósitos, além de distribuir os fragmentos do material radioativo a parentes e amigos que, por sua vez, os levaram para suas casas. No total, quatro pessoas morreram vítimas do desastre.