A procura pelo 'novo'

O novo pode estar em um filme considerado antigo

Sergio Alpendre, editado por Liliane Nakagawa 03/04/2020 22h04
Pierrot le Fou
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Este texto é uma evidente provocação. Mas com um fundo e uma base que me parecem verdadeiras e pertinentes. Na verdade, é uma provocação para levar o leitor pensar em suas práticas e escolhas.


Acontece agora, na Netflix, principalmente, mas em outros lugares também, do usuário ir atrás das novidades, mesmo que não tenha visto a maior parte do catálogo e tenha perdido até mesmo os grandes filmes presentes por lá.

A febre do novo lembra os tempos de locadora, em que o associado ficava um ano sem dar as caras e quando aparecia perguntava logo das novidades. Em um ano, tudo para ele deveria ser novidade. Mas o garimpo de filmes parece exclusividade de cinéfilos e doentes por cinema, daí a impressão de que a Netflix tem tudo, ou de que as melhores coisas estão nessa plataforma.

Na prática está contida também a ideia de que o novo é o fresco, o melhor porque mais moderno, mais atual, que responde melhor aos nossos dias. Um filme lançado em 2020 responderia melhor aos problemas que vivemos hoje, mesmo tendo passado por uma mudança radical em nossas vidas e modos de produção por causa do Covid-19.

Não consigo pensar em nada mais equivocado do que esse pensamento. Se é verdade que alguns assuntos urgentes só podem ser representados num filme atual, as pessoas se esquecem de quanto demora para se produzir um filme, desde a pré-produção, até sua finalização. Um tema urgente fica logo defasado porque os acontecimentos reais superam em velocidade suas representações cinematográficas.

Há ainda o problema do filtro. Em todas as épocas, sem exceção, o número de filmes ruins supera em muito o número de filmes bons. Quem quiser se arriscar a ver um filme com mais de vinte anos de idade tem como verificar, num punhado de críticas, se o filme vale ou não ser visto. Ele já passou, bem ou mal, pelo crivo da passagem do tempo. Um filme recente, não. Ele pode até ser muito elogiado. Mas como já aconteceu com inúmeros filmes no passado, o que é elogiado ontem torna-se esquecido com facilidade meses depois, porque se revela frágil numa revisão, ou mesmo em nossa memória.

Logo, um filme dos anos 1960 que foi muito visto e debatido tende a ser muito mais novo do que uma estreia de hoje. Primeiramente porque ele já desbravou gerações e continua sendo visto e debatido. Segundo porque foi realizado num período em que predominava o moderno no cinema, a tentativa de invenção e desbravamento da linguagem estabelecida.

Portanto, pense bem na hora que quiser ver algo realmente novo. Você pode comprar (tanto no sentido real quanto no figurado) gato por lebre.

* Sérgio Alpendre é crítico e professor de cinema

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