Doce Entardecer na Toscana

A intolerância é o tema da produção polonesa, estreia desta semana nos cinemas

Sergio Alpendre, editado por Liliane Nakagawa 17/03/2020 00h03
Doce Entardecer na Toscana
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Em 1916, David Wark Griffith fez um dos filmes mais importantes da história do cinema com esse mesmo tema. E o chamou, justamente, "Intolerância". Era um épico de mais de três horas de duração que serviu para várias coisas, entre elas a possibilidade de substituirmos o racista "O Nascimento de uma Nação" em aulas de cinema, para mostrar a importância de Griffith para o desenvolvimento da linguagem cinematográfica.


Mais de 100 anos depois, surge este filme polonês passado na Itália sobre a poetisa polonesa Maria Linde que recebe uma homenagem em sua cidade de residência, onde conheceu seu marido, no momento em que Roma sofre com um recente atentado terrorista. Como o discurso é deveras polêmico, entre outras coisas porque fala do poder artístico da destruição, o que seria um presente do terrorista, e um tanto incompreendido, pois é verdadeiramente (mas não radicalmente) progressista, ou seja, contém algumas verdades que os pequenos burgueses não querem ouvir no meio de suas premiações e homenagens tolas, ela passa a sofrer o linchamento típico de nossos dias, que impede algumas pessoas de ter um pensamento livre e verdadeiramente combativo, bem distante das indignações seletivas e descompromissadas das redes sociais.

Infelizmente, o filme de Jacek Borcuch só começa mesmo com o atentado, que só ouvimos, antes do resultado dele nos céus, a dança fúnebre dos pássaros. Antes, 40 minutos que tem a ver com o título: um bocado de dramas frágeis e encontros água-com-açúcar entre familiares e amigos, com um momento interessante (o encontro de Linde com o amante egípcio) e um tanto de longa preparação para a tempestade que surge depois da calmaria.

Um outro momento interessante é quando ela encontra na noite um funcionário da prefeitura que a informa da viralização de seu discurso na internet e que ela tinha tomado o lugar de Pasolini, o que qualquer artista digno do nome deve aceitar com orgulho (o que ela deve ter feito, mesmo sem demonstrar). Mesmo porque seu discurso tinha mesmo algo da coragem de Pasolini. Mas ele era italiano, ela é polonesa, o que se torna um problema ainda maior para ela.

Claro que o atentado terrorista faz com que os italianos tratem todos os árabes como seres perigosos, dando razão ao discurso de Linde. Mas a intolerância de nossos tempos é cega, e não adianta discutir com intolerantes. Já com o filme adianta discutir. E podemos lamentar que ele não esteja à altura das situações que pretende retratar. Primeiro porque, tirando o discurso de Linde e uma entrevista inacabada mais adiante, não traz nada de novo ao drama de nossos tempos. Segundo porque a filha de Linde é na maior parte do tempo uma personagem que não encontra muito sentido no filme, a não ser o de representar um contraponto meio tolo às maluquices libertárias da mãe.

Temos Linde, que é uma personagem forte e move o filme para frente. Mas não temos muito mais do que isso, a não ser a estupidez das pessoas (o que não é fácil ver refletida no filme) e um plano final de certo impacto.

* Sérgio Alpendre é crítico e professor de cinema

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