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Harriet

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Sergio Alpendre, editado por Liliane Nakagawa 12/02/2020 16h02
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Indicado ao Oscar, longa aborda antirracismo suficientemente para se descuidar da narrativa

É muito difícil fazer um filme sobre a escravidão e não cair na armadilha do tema grandioso que impede que se faça cinema. O tema sempre sobrepuja o estilo, e a mensagem deve ser passada a qualquer custo, mas não se nota que uma mensagem é muito melhor passada quando se pensa na forma de passá-la.


"Harriet", de Kasi Lemmons (ótima atriz em seu quinto longa), que rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz para Cynthia Erivo, cai direitinho na armadilha. Nele, a trama antirracista parece se bastar, e o descuido com a construção da narrativa é evidente.

Em tempos de terraplanismo, argumentações de que o nazismo seria de esquerda e negação do racismo (imagine se vão aceitar a ideia de racismo estrutural, que, no entanto, é evidente), talvez seja necessário falar de maneira bem simplória, para que os mais cegos entendam. Aqueles que justamente consideram o racismo uma abjeção não terão muitos motivos para ver o filme.

Isto porque há nele uma falta de tato e uma mão pesada que torna impossível aparecerem nuances, ambiguidades que façam o espectador pensar. O fato de ser um filme baseado numa história real, a de Harriet Tubman (seu nome de mulher livre), nascida Araminta Ross em uma família de escravos, não o absolve de ter soluções narrativas pobres e uma dramaturgia igualmente sem nuances (exceto em um ou outro momento, graças à interpretação de Eviro).

Harriet consegue uma fuga milagrosa para a Filadélfia, onde entra em contato com a associação antiescravista chamada Underground Railroad. Estamos na véspera da Guerra Civil Americana, quando a escravidão já era vista por muitos como um dos pontos mais baixos da humanidade.

Claro que a história de Harriet/Araminta é muito bonita. Claro que há paisagens americanas belíssimas nos caminhos da protagonista para salvar mais escravos. Obviamente, por vezes, há momentos que podem nos emocionar. Mas tudo isso acontece apesar da direção pouco imaginativa e do roteiro cheio de obviedades na construção (escrito pela própria Lemmons e por Gregory Allen Howard).

Mesmo com a indicação de Eviro, maior motivo para ver o filme, e pelo tema nobre, que se sustenta sozinho, sem precisar de uma direção mais digna, o filme permanece sem data de estreia marcada para o Brasil. Com a apresentação de Eviro no Oscar, talvez chegue rapidamente a alguma plataforma de streaming. 

* Sérgio Alpendre é crítico e professor de cinema

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