Luta Por Justiça

Baseado em uma história real, drama de Destin Daniel Cretton estreou em 20 de fevereiro, mas ainda está em cartaz na maioria das salas de cinema

Sergio Alpendre, editado por Liliane Nakagawa 17/03/2020 06h00
Luta por Justiça
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Em 1987, um lenhador chamado Walter McMillian (Jamie Foxx), também conhecido como Johnny D., é condenado à morte pelo assassinato de uma jovem de 18 anos. Não foi ele quem a matou, mas ele é negro, e vive numa região absurdamente racista dos EUA, o estado do Alabama. Dois anos depois, o recém-formado advogado Bryan Stevenson (Michael B. Jordan) cruza o caminho de Walter e luta para libertá-lo da sentença fatal, uma luta que se estenderá por algum tempo.


Esse é o enredo de "Luta Por Justiça", terceiro longa de ficção dirigido por Destin Daniel Cretton, e de longe o mais ambicioso de sua carreira, a começar pela duração (2h19min. contra os cerca de 90 minutos dos outros longas). O longa estreou em várias cidades brasileiras em 20 de fevereiro, e ainda está em cartaz na maioria delas.

Somos informados logo no início que trata-se de um filme baseado em uma história real. Isso, que fique bem claro, não diz nada a respeito de sua qualidade cinematográfica, apesar do aviso soar meio como uma chantagem. Sabemos que o racismo é uma das maiores doenças da humanidade, e que contamina os mais altos cargos do judiciário, mesmo no início dos anos 1990, quando surge uma possibilidade de ir a novo julgamento, mesmo hoje, quando Trump é reeleito com discurso racista.

Tudo isso nos é servido sem meias tintas. Toda a monstruosidade do sulista americano é vomitada a tal ponto que saímos do cinema revoltados, querendo lutar contra o racismo. Esse é o objetivo do filme, e quando acontece de um filme deixar tão clara uma mensagem, geralmente a força do tema (e da mensagem) sobrepõe qualquer movimento de fazer cinema. Ou seja, assume-se que não importa o modo como se filma, o tema deve carregar o filme sozinho.

Não é o que acontece com este longa. Caminhando o tempo todo na corda bamba, resvalando por vezes na mão pesada para fazer o espectador se sensibilizar, ainda assim Cretton se sai dignamente bem no balanço final, alternando um estilo mais acadêmico com alguns insights observacionais e um ou outro momento de câmera ligeira, refletindo o desespero dos convictos e familiares.

Se é difícil tratar de um grande tema com preocupação dramática e sem prejudicar os elementos cinematográficos em jogo, "Tudo Pela Justiça" é um filme que venceu o desafio. E o faz com a sabedoria de que muitas vezes só é possível fazer justiça mexendo com a consciência de homens brancos que detêm algum poder. Como diz o herói Bryan em 1993, isso precisa mudar. 17 anos depois, podemos dizer o mesmo. Isso precisa mudar.

 

* Sérgio Alpendre é crítico e professor de cinema

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