Vale do Silício
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O Brasil e o Vale do Silício

Andre L. Miceli 13/12/2018 14h00

É curioso pensar que, apesar de terem subsidiárias, nenhuma gigante da tecnologia nem mesmo cogita de ter sua sede por aqui.

Durante anos a Califórnia tem abrigado as maiores e mais importantes empresas de tecnologia do mundo. Estão as sedes de organizações como Apple, Google e das startups de maior sucesso da história. Empresas como o YouTube, Wikipedia, Facebook, Twitter e uma quase infinita lista de empresas que, em sua maior parte, são lucrativas, além socialmente engajadas. Existe uma mudança importante em curso. Uma razões é que, claramente, o pico da bolha tecnológica do unicórnio (as empresas que valem mais de 1 bilhão de dólares) já foi atingido e tudo indica que os próximos passos serão bem mais complexos. Quedas maciças estão se apresentando para start-ups financiadas por capital de risco que, em muitos casos, estão mais de 50% supervalorizadas.

Se por um lado, as declarações de muitos jornalistas e comentaristas de tecnologia sobre o Vale do Silício estar morto me parecerem exageradas, por outro, há uma curiosa tendência se confirmando: parece haver uma nuvem negra sobre as gigantes de tecnologia. Os problemas recentes, com inúmeros casos de violações de dados, abuso no uso de informações pessoais e fraudes com os investidores são bons exemplos para validar essa hipótese.

Como isso se já não fosse um problema suficientemente grande, basta uma pequena pesquisa por apartamentos e escritórios na região do Vale, para que você encontre alguns dos imóveis mais caros do mundo, impostos estaduais bastante altos, e uma força de trabalho que tem cargos de nível de entrada que demandam mais de US$ 100.000 por ano. Imagine se você fosse iniciar uma empresa a partir do zero e tivesse que lidar com todas essas despesas. Não só seria difícil sustentar-se, mas quase impossível recrutar funcionários.

Dado que algumas cidades já estão lucrando bastante com presença das tech-giants, muitas outras resolveram entrar nessa briga. Tulsa e Oklahoma, por exemplo, querem pagar para receber a gigantes. O plano parece fazer sentido pois ao lado dessas empresas costumam aparecer prestadores de serviços, integradores e desenvolvedores que contribuem para o desenvolvimento do ecossistema tecnológico e, consequentemente, para as receitas que nascem de lá. Internacionalmente, a tendência é ainda mais clara. Grandes unicórnios estão saindo de cidades de todo o mundo e se espalhando por lugares mais atraentes.

É curioso pensar que, apesar de terem subsidiárias, nenhuma gigante da tecnologia nem mesmo cogita de ter sua sede por aqui. Pouca cultura local para empreender por opção, baixo ecossistema de inovação, taxas de juros que tiram investimentos do mercado e praticamente obrigam investidores a olhar para opções com melhores composições de risco e retorno, leis confusas, além de um sistema de tributos praticamente incompreesível, impedem que qualquer coisa próxima do Vale aconteça no Brasil.

As lições do Vale mostram que empreendedores de sucesso constroem redes de suporte com as empresas existentes. Essas redes podem estar ao redor de qualquer área de interesse e

costumam ser mutuamente benéficas - você aprende e contribui para o desenvolvimento de outros. Um ponto curioso é o fato de uma das principais lições do Vale é que seus habitants parecem sobre prontos a ajudar, conhecer e conectar estranhos. É uma cultura não-dita. A cultura do Pay-It-Forward. Se essa onda transformar o Vale num mundo de silício, corremos sérios riscos de virarmos extra-terrestres.

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