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A internet e rede sociais enterram de vez as campanhas políticas tradicionais

Fabiana Macedo 11/10/2018 16h00

No entanto, manipulação de dados, fake news e posts irregulares ameaçam democracia. Como fiscalizar isso?

Uma velha máxima diz que com números não se briga. Os resultados das urnas deixam claro que - depois de dois ou três pleitos em que a internet ameaçou ser a estrela das campanhas eleitorais no Brasil - agora as previsões se realizaram. As redes sociais, estreladas pelo WhatsApp, ou simplesmente Zap, como, numa raríssima concordância, se referem a ele esquerda e direita, relegou a tevê neste primeiro turno a um mero papel de figurante. Geraldo Alckmin, candidato do PSDB, partido que disputa a liderança política do país com o PT desde o evento Collor, fez acordo com o Centrão (PP, PR, DEM, PRB e Solidariedade) e conseguiu mais da metade do total de tempo de propaganda gratuita em rádio e tevê. Seus números, aqueles contra os quais nunca se briga? Menos que 5% dos votos válidos, o pior desempenho do partido numa eleição presidencial.

De outro lado, o capitão reformado Jair Bolsonaro, candidato do até poucos meses atrás desconhecido PSL, com escassos 8 segundos em cada bloco na tevê, convenceu 46% dos brasileiros de que seu projeto é o melhor para o país. E na reta final sequer precisou aparecer, convalescendo no leito de um hospital depois do ataque à faca em Juiz de Fora (MG), protegido até do contraditório. E como suas ideias seduziram tantos eleitores? Noves foras a radical rejeição ao petismo forjada nos últimos anos, foi a destreza na comunicação pelos novos meios. Frases curtas e declarações polêmicas, opiniões ligeiras que não precisam de sustentação argumentativa, muitos vídeos curtos, às vezes meio toscos, sem produção, mas que conseguem gerar a percepção de algo genuíno, verdadeiro, mesmo que seja uma declaração que ofenda minorias ou pareça ameaçar nossa balzaquiana democracia.

No campo oposto, Fernando Haddad passou ao segundo turno com 28% dos votos válidos em uma campanha relâmpago, partindo de 6% em 3 de setembro, segundo o Ibope. O candidato de seu partido era o ex-presidente Lula, líder nas intenções de voto até ser impedido de concorrer pelo TSE. O desafio neste caso foi a transferência dos votos de Lula. Com menos da metade do tempo de propaganda gratuita de Alckmin, o Zap foi a arma da militância para informar que o candidato do popular político passou a ser Haddad. “Lula é Haddad”. Uma frase simples, avalizada pela foto sorridente de Luis Inácio, circulou pelas redes e, pelo onipresente celular, chegou ao eleitor onde a tevê por vezes não chega.

Também merecem ser destacados os resultados de João Amoêdo, do Novo, e Cabo Daciolo, do Patriota. O primeiro, representante de um partido fundado em 2011, que começou a campanha no bloco dos candidatos nanicos, chegou a um expressivo quinto lugar, seguido por um desconhecido e folclórico Daciolo, aquele da “Ursal”, ambos deixando para trás nomes como Henrique Meirelles, do outrora poderoso MDB, Marina Silva, da Rede, e Álvaro Dias, do Podemos, nomes tradicionais da política.

A explicação para isso? Saber usar a internet. A página de Bolsonaro no Facebook é a que tem o maior número de seguidores entre os presidenciáveis, com cerca de 7,5 milhões de seguidores, quase 10 vezes mais que seu rival no segundo turno. Um levantamento feito pelo Datafolha antes da eleição já mostrava que mais de 80% de seus eleitores participavam de alguma rede social (contra 59% dos eleitores de Fernando Haddad, do PT). Para completar, os eleitores do candidato do PSL são os que têm a mais alta taxa de leitura de notícias sobre política no Facebook, com 61%, e no WhatsApp (57%). São internautas que defendem o candidato com unhas e dentes e que principalmente disseminam o conteúdo que fala sobre ele para todos os seus contatos em mídias como o WhatsApp. Quem participa de grupo de família sabe bem.

A campanha de Amoêdo, mais profissionalizada, tirou proveito de estratégias como o impulsionamento de posts. Em agosto, quando o TSE liberou o uso desse tipo de propaganda, que permite o pagamento para que textos e fotos sejam distribuídos a um grande número de usuários do Facebook, as pesquisas mostravam que ele tinha apenas 1% das intenções de voto. Com uma equipe de profissionais dedicados a essa tarefa e um valor estimado em 120 mil reais, o candidato conseguiu em menos de três semanas 3% de intenções nas pesquisas e fechou com 2,5% dos votos computados. Pode parecer pouco, mas o quinto lugar na disputa presidencial, com quase 2,7 milhões de votos, já o coloca em outro patamar para pleitos futuros.

Necessidade de fiscalização

Sem moderação, sem uma legislação específica, sem regulações claras, sem filtros, não é difícil entender porque há muito mais espinho do que flor nas redes. Mais do que construir reputações ou debater ideias, a internet esteve a serviço do trabalho sujo, destrutivo, tomada por uma enxurrada de fake news, montagens grosseiras e posts irregulares no primeiro turno. Só o projeto Comprova, que reúne 24 veículos de informação brasileiros (entre eles Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Veja, Exame, Band News e UOL) e dedicado à checagem de fatos, pesquisou e desmentiu cerca de 100 notícias falsas sobre a eleição, em dois meses, algumas delas encontradas em redes oficiais de políticos. São coisas como “Padre Marcelo explica voto em Bolsonaro”, publicado no canal do YouTube do candidato do PSL, e “TSE entrega código de segurança das urnas eletrônicas para venezuelanos”, boato que reinou no Zap. E no primeiro turno mais de 600 denúncias de posts irregulares de candidatos foram encaminhadas ao TSE (que criou um aplicativo, o Pardal, para que os eleitores denunciem esse tipo de comportamento). Houve casos de posts impulsionados, por exemplo, que não traziam de forma clara informações como CNPJ do responsável ou que não evidenciavam que se tratava de propaganda eleitoral, dados obrigatórios.

Nos Estados Unidos, os principais partidos (Democrata e Republicano) têm usado de forma intensa as redes sociais nas últimas eleições. Como com Obama, na eleição de Donald Trump a internet foi essencial para a vitória, já que o candidato considerava a maior parte dos veículos de imprensa como inimigos e precisava de uma forma eficiente de falar diretamente com os eleitores. O Twitter de Trump é famoso pela agressividade. Mas a eleição do candidato republicano parece não ter se baseado somente em técnicas e boas práticas de comunicação. Existe uma forte suspeita de que o Facebook teria sido o principal responsável pela vitória de Trump, com o uso inadequado de dados dos usuários da rede social e até participação de hackers russos. Em março, a imprensa norte-americana divulgou um escândalo que mostrava que dados de cerca de 50 milhões de eleitores nos Estados Unidos tinham sido obtidos irregularmente do Facebook pela empresa Cambridge Analytica e utilizados de modo indevido para fins eleitorais pelo comitê de campanha do presidente dos EUA.

A internet e as redes sociais já provaram seu potencial de comunicação e arma para o marketing das campanhas. Mas é preciso que as autoridades eleitorais, em parceria com a sociedade, criem instrumentos eficientes e ampliem a fiscalização do uso dessa ferramenta, para que a tecnologia não seja utilizada como uma ferramenta de manipulação. A democracia agradecerá.

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