Quem tem uma mangueira no quintal conhece a cena: a árvore se enche de folhas novas e fica verde e bonita, mas a florada que anunciaria as mangas não chega. Esse impasse entre crescer e florir foi o alvo de um ensaio da Embrapa Semiárido, publicado em 1995 em Petrolina (PE). Os pesquisadores combinaram o anelamento, um corte em volta da casca do tronco, com o etefon, um regulador de crescimento. O resultado: até 100% das plantas floridas em 38 dias.
Anel no tronco e etefon anteciparam a floração da mangueira
Os números estão no comunicado Floração da mangueira: efeito do Etefon combinado com o anelamento na inibição do crescimento vegetativo, da série Pesquisa em Andamento. Assinado por João Antonio Silva de Albuquerque e colegas, o trabalho testou o anel no tronco junto com aplicações de etefon que começavam em épocas diferentes em cada tratamento.
A comparação foi feita com a testemunha, um grupo de árvores que não recebeu anel nem regulador. Trinta e oito dias depois da indução com nitrato de potássio, só 53,3% dessas plantas tinham florido. Nos tratamentos combinados, o índice ficou entre 93,3% e 100% no mesmo intervalo. Segundo os autores, as árvores tratadas chegaram ao máximo de floração em menos tempo.
Por que a mangueira precisa parar de crescer para florir?
Porque, na mangueira, a floração depende de uma pausa no crescimento vegetativo, a fase em que a planta só solta ramos e folhas. A Embrapa Semiárido resume essa lógica nas instruções técnicas Floração da mangueira através do uso de reguladores de crescimento, de 1997. Segundo o documento, o clima do Semiárido permite produzir manga em qualquer época do ano, desde que haja tecnologia para paralisar esse crescimento.

É aí que entram o anel e o etefon. O corte na casca interrompe parte do fluxo de seiva pelo tronco. Já o etefon libera etileno, um hormônio vegetal. Em artigo de 1992, Albuquerque descreveu os dois como retardantes de crescimento, capazes de deixar a planta apta ao florescimento.
Na etapa seguinte vem o nitrato de potássio, que quebra a dormência das gemas e uniformiza a brotação. A Embrapa também testou o etefon sozinho: um trabalho apresentado em 1994 comparou doses de 200, 300 e 400 ppm na cultivar Tommy Atkins. Para quem quer entender melhor o que é uma estrutura floral, tem outra curiosidade botânica no site.
Ensaio de 1992 já via o anelamento como freio do crescimento
O artigo publicado em 1992 na Revista Brasileira de Fruticultura já combinava estresse hídrico, anel no tronco, etefon a 250 ppm e nitratos no Submédio São Francisco. Trinta e oito dias depois da última pulverização, todos os tratamentos chegaram a 100% de brotação, somando flores e ramos novos. A testemunha ficou em 40%.
Os melhores resultados vieram do anelamento com etefon e nitrato de potássio, ou da mesma dupla com nitrato de amônio. Esse segundo sal, porém, causou fitotoxicidade, ou seja, danificou as folhas. O nitrato de potássio teve a reação mais rápida. Nos dois estudos, o anel aparece sempre dentro de um manejo com várias etapas, nunca como truque isolado.
Dá para repetir o anelamento na mangueira do quintal?
Os números da Embrapa vêm de experimentos conduzidos por pesquisadores no Semiárido, com a indução feita em etapas e num calendário definido. O próprio comunicado de 1995 saiu como pesquisa em andamento, ou seja, um resultado parcial de campo. Não é uma receita pronta para uma árvore isolada no fundo de casa.

Cuidado também com a parte química: todo regulador de crescimento é um produto de uso agrícola, com dose, intervalo de aplicação e equipamento de proteção próprios. Um anel mal feito na casca também pode machucar a planta além da conta. Antes de cortar o tronco ou aplicar qualquer produto, peça orientação a um engenheiro agrônomo ou ao serviço de extensão rural da sua região.
A pesquisa mostra que o florescimento da mangueira pode ser conduzido, mas sempre respeitando o estágio da planta e o momento de cada etapa. Se a sua árvore se enche de folhas e quase não floresce, que tal observar em que fase ela está e conversar com um agrônomo antes de pegar o canivete?
Ainda no universo das árvores frutíferas, tem também a história de uma espécie brasileira que virou problema do outro lado do mundo.
