Europa, União Europeia

Brasileiros contam como é trabalhar em empresas de tecnologia na Europa

Leonardo Pereira 02/12/2017 11h00
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Manuela Magalhães, que, assim como Munhoz, atende brasileiros mesmo estando do outro lado do oceano, disse algo parecido. Ela atua como gerente sênior na área comercial da Taboola e mora em Londres, na Inglaterra. "O bom de estar aqui (…) é esse fato de ser bastante multicultural. Você poder estar sentado na hora do almoço na empresa trocando ideias com o colega que é francês, com o colega que trabalha para o mercado da Espanha, com o colega que trabalha para o mercado italiano…", acrescentou ela. "Eu acho que [se] ganha muito trabalhando com pessoas de vários lugares do mundo, com experiências de vida diferentes. E eu acho que isso também te faz crescer bastante (…), a sua área de conhecimento aumenta."


"Antes de me mudar, eu achei que as diferenças seriam bem maiores, mas depois de um ano por aqui posso dizer que o trabalho em si não é tão diferente no sentido do que se tem para fazer no dia-a-dia", relata André Michi, que é system engineer na OLX da Alemanha. "A maior diferença na minha opinião é conviver com pessoas de outras culturas e nacionalidades. Eu particularmente prefiro trabalhar aqui porque posso conhecer pessoas de diferentes partes do mundo. A escala do que faço hoje tem impacto global, sinto que o trabalho técnico aqui é mais valorizado do que no Brasil."

Mas é claro que não é só isso. O segundo destaque daqui para os entrevistados é a qualidade de vida de uma forma geral. Como destaca Leonardo Bandeira, que trabalha como formador no Airbnb, treinando os funcionários, "trabalhar na Europa garante que o rendimento médio seja suficiente para alimentação, moradia e lazer, [enquanto] no Brasil muitas vezes é preciso buscar complementos de renda". "Também há a vantagem de trabalhar em cidades menores, com melhor infraestrutura, sem o estresse das grandes metrópoles no Brasil", acrescentou ele, que mora no Porto, em Portugal.

Essa questão também foi levantada por Virgilio Afonso Jr., que está em Hamburgo, na Alemanha, trabalhando como frontend engineer na eSailors: "Estava acostumado com São Paulo, dirigindo três horas por dia no trânsito", lembrou. "Hoje não tenho carro, demoro 10 minutos de metrô. Com certeza o meu dia rende muito mais." Eduardo Giansante, do Dropbox, ressaltou ainda que o europeu, em geral, não costuma ter sua vida organizada em torno do trabalho, então, quando deu o horário de ir embora, "a caneta cai". Mas isso, claro, vale para empresas que não importaram o jeito americano de se trabalhar, já que, assim como o Brasil, os EUA cultivam uma cultura em que funcionário e empresa muitas vezes parecem incapazes de se manter distantes. Isso significa que a cultura local nem sempre se aplica ao mercado de tecnologia, porque ele tem justamente o norte-americano como modelo.

MAS EU TERIA CHANCE?

Sim. Com a ressalva de que é impossível prever o sucesso ou insucesso de alguém; quem se prepara tem boas chances de dar certo no mercado europeu, e parte disso se deve ao simples fato de você ter nascido e crescido no Brasil.

"O brasileiro é muito bem visto aqui na Europa, em Londres principalmente, porque o brasileiro é um povo muito criativo", afirma Manuela Magalhães, da Taboola. Ela analisa ainda que, talvez porque a experiência internacional é gratificante para os profissionais do nosso país, eles acabam sendo mais esforçados que a média. Opinião semelhante foi expressa por todos os entrevistados. "O brasileiro no geral é conhecido por ser uma pessoa apaixonada pelo que faz, que dá o sangue", acrescentou André Munhoz, da Avast. André Michi, da OLX, disse algo parecido: "Lógico que nem todos os países têm a mesma percepção, mas no geral somos reconhecidos como disciplinados e focados."

"Há muitas oportunidades, principalmente para os profissionais de tecnologia. Tem muita possibilidade aqui porque as empresas realmente necessitam de pessoas com habilidades específicas, com certificações específicas para que elas possam desenvolver projetos", comenta Priscylla Finneran, que é recrutadora sênior na Origin Multilingual. Eduardo Giansante, do Dropbox, acrescentou que o brasileiro tem uma qualidade que o europeu não costuma apresentar: a flexibilidade de mudança, algo que combina muito bem com o perfil das startups. "E a gente não vê isso como uma coisa ruim, e sim algo que faz parte do todo", disse ele.

A PARTE NEGATIVA

A abertura deste texto resume o que se enfrenta durante um processo migratório, mas na vida real a situação pode ser ainda mais dramática. Há inúmeros cenários negativos, e muitas vezes eles independem de quão preparada a pessoa estava quando tomou a sua decisão. Talvez por isso uma das coisas mais repetidas durante as entrevistas tenha sido alguma variante de "pense bem".

É preciso, em primeiro lugar, levar em conta as coisas óbvias, como diferenças de clima, culturais e de legislação — inclusive a trabalhista. Porque constantemente essas diferenças vão parecer esquisitas. Por exemplo, há cidades na Europa em que o dono da casa pode proibir o inquilino de fumar dentro da sua propriedade, e onde motorista com criança como passageira não pode acender um cigarro dentro do próprio carro, enquanto que, em outros lugares, ainda é permitido fumar até em bares e restaurantes.

A atenção às normas pode ser determinante para o sucesso da sua empreitada. Até porque nem todo povo tem margens de tolerância tão largas quanto o brasileiro, e isso pode surpreender quem desembarca num país europeu onde as pessoas pagam passagem de trem mesmo que a estação não tenha catracas. Para evitar problemas, Leonardo Bandeira, do Airbnb, tem uma dica curta e direta: "Tenha todos os documentos em dia, faça tudo certo; sem jeitinho."

Ele também destacou a importância sobre se preparar: "Antes de migrar, certifique-se que tem uma reserva financeira que permita ultrapassar o período de adaptação, pois podem acontecer muitas surpresas e gastos inesperados. Há muita gente que, por falta de planejamento, se vê forçado a dormir em quartos compartilhados sem nenhum conforto, e a pagar caro."

Quem mora fora do país ainda precisa manter o olho aberto para um fenômeno conhecido como "homesickness", que para nós poderia ser traduzido simplesmente para "saudade de casa", o que traz uma definição bem explícita. Esse tal fenômeno pode ser engatilhado por qualquer coisa, como falta de legendas em português na Netflix ou o fato de que sua banda preferida não disponibilizou suas músicas no Spotify do país onde você está. Mais do que isso, a pessoa que tem um oceano de distância entre sua casa atual e todos os amigos e familiares pode acabar se sentindo isolada, ainda mais porque o brasileiro é mundialmente reconhecido como um povo aberto e comunicativo, o que não é regra na Europa.

"Eu gosto bastante de trabalhar com o mercado brasileiro", disse Manuela Magalhães, da Taboola. "É diferente, o povo do Brasil é diferente. É mais receptivo, mais amigável até na hora de fazer negócio. O inglês é mais fechado, mais direto… não é tão receptivo." É importante ter esse tipo de relato em mente; mais uma vez, cabe o "pense bem".


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