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Reduzir a jornada de trabalho é viável, mas difícil, dizem especialistas

Leonardo Pereira 11/07/2014 15h32
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Larry Page, um dos criadores do Google, trouxe à tona uma ideia que deixou funcionários pelo mundo sonhando: por que, ao invés de trabalhar por oito horas, as pessoas não trabalham só por quatro? "Essa ideia de que todos precisam trabalhar freneticamente para suprir as necessidades das pessoas simplesmente não é verdade", disse ele. Mas será que a proposta vingaria no Brasil?

O brasileiro, em média, segue uma jornada de oito horas diárias, com um intervalo para almoço que eleva o tempo reservado para o trabalho para um total de nove horas. Pelo que imaginou o executivo do Google, o tempo todo seria dividido entre duas pessoas, sendo que cada uma faria apenas metade do trabalho.

Burocracia

O primeiro grande obstáculo a se enfrentar para importar o modelo proposto por Page seria o formato de contratação. No setor de tecnologia norte-americano é comum haver contrato por projeto: ao invés de horas diárias, o profissional tem de cumprir uma meta específica. Aqui no Brasil a CLT é o padrão; mesmo na área de tech, ela ainda predomina - embora haja casos de contratação diferenciada.

"[Dobrar o contingente] aumentaria custo para a empresa: quando somos contratados pela CLT, o valor para a empresa geralmente é o dobro do que a gente recebe. Mesmo diminuindo o valor das duas pessoas, haveria um acréscimo no total", esclarece a consultora de Recursos Humanos Natassia Araujo, da Randstad Technologies.

Outro problema, até mais óbvio, é o fato de que cortar o tempo de trabalho também significa cortar o salário pela metade, o que geraria uma dor de cabeça para o profissional. "O custo de vida no Brasil é muito alto", lembra a consultora. Isso significa que se essa pessoa não tivesse um salário alto, teria de arranjar outro emprego de quatro horas.

Ideia velha vs. problemas novos

Na verdade, a ideia de reduzir drasticamente o tempo de trabalho não é nova. O especialista João Xavier, que dirige a Ricardo Xavier Recursos Humanos, lembra que no século passado o britânico Bertrand Russel propôs exatamente a mesma coisa em seu livro "Elogio ao Ócio". O sociólogo italiano Domenico De Masi também explora o tema com o conceito de "ócio criativo".

"Eu acho que esse é o futuro, mas estamos longe dele", opina Xavier. "Não é só aqui, no mundo inteiro há uma distância grande para se chegar neste ponto. A grande questão está no modelo econômico, porque tudo está baseado numa competição." Ele explica: há pouca gente ganhando muito e muita gente ganhando pouco ou desempregada, então as vagas disponíveis são tão disputadas que o próprio trabalhador se sobrecarrega para não ser substituído.

O mercado de tecnologia foi um dos que começaram a quebrar esse esquema. Empresas como o próprio Google entenderam que os funcionários precisam de tempo ocioso para serem mais criativos. "Cada vez mais o trabalho está sendo substituído por máquinas e tecnologia - o operacional por máquinas e o executivo por computadores. Sobra o trabalho criativo e imaterial, então a sociedade vai ter de se reorganizar, você não faz um trabalho desses ficando oito horas por dia fazendo a mesma coisa sem parar", dispara Xavier.

"É bastante a ideia do Google", concorda Natassia, "mesmo trabalhando, você consegue investir em você. Do ponto de vista do RH é totalmente favorável, porque se você trabalha oito horas vidrado naquilo sua cabeça para de funcionar, é preciso liberar a criatividade."

Vagas vs. profissionais

Por fim, há ainda a questão das vagas. A iniciativa de Larry Page dobraria a quantidade de postos de trabalho, mas como se a indústria vive reclamando que falta gente qualificada? No Brasil, 33 mil pessoas se formam a cada ano para a área, enquanto se criam 120 mil vagas, segundo a consultora da Randstad.

Tanto lá fora quanto por aqui surgem o tempo todo iniciativas que tentam ensinar programação aos leigos, há cursos gratuitos governamentais ou apoiados por gigantes como Microsoft e Facebook. Tudo porque sobra trabalho e falta gente para executá-lo, então de onde viriam essas pessoas sugeridas pelo executivo do Google?

"Uma dica é investir em capital humano: ao invés de pegar dois e quebrar em quatro horas, pega um só e investe nele", sugere Natassia.

Parece haver um consenso: a redução do tempo de trabalho é uma realidade possível e também necessária. O problema é convencer o mundo todo - não só o Brasil ou os Estados Unidos - a enxergar isso.

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