Com poucos impostos, Irlanda atrai gigantes da tecnologia

Olhar Digital estreia seção especial com reportagens produzidas pelo mundo. A primeira delas retrata o interesse das empresas de tecnologia pela Irlanda, o 'Vale do Silício' da Europa

O 'DUPLO IRLANDÊS'

A Irlanda cobra 12,5% de imposto sobre o lucro de quem quiser se estabelecer no país e praticamente ignora operações de venda realizadas internacionalmente mesmo que tais operações tenham a sede irlandesa como representante. O país também concede outros incentivos fiscais que servem como chamariz.

É um tanto complexo, então vamos por partes: os 12,5% colocam a Irlanda entre os lugares que têm taxas de imposto corporativo mais baixas do mundo. De acordo com o Trading Economics, se descontadas regiões com zero cobrança sobre lucro (como Maldívias e Ilhas Cayman), ela é o 13º país que menos taxa empresas. No material que usa para atrair investimento estrangeiro, o IDA Ireland diz que esse cenário tem sido "um dos principais elementos do ambiente corporativo favorável na Irlanda por mais de três décadas". O Brasil, com sua taxa de 34%, está na outra ponta, pertinho dos Estados Unidos, que cobra 35% — um estudo da KPMG publicado em 2016 apontava o nosso país como dono da quinta maior alíquota de imposto corporativo do mundo.

O governo da Irlanda também oferece crédito de até 25% nos impostos para empresas que estabelecerem operações de pesquisa e desenvolvimento em seu território, o que derruba ainda mais a quantidade de dinheiro que é diretamente revertido para o país.

A parte mais complicada, entretanto, envolve a movimentação da receita da companhia através de um esquema apelidado de "Double Irish with a Dutch Sandwich". Primeiro, a multinacional estabelecia duas filiais europeias, uma aqui e outra na Holanda; a Irlanda não cobraria imposto sobre lucros obtidos por subsidiárias fora de seu território, então uma companhia como Google poderia redirecionar a sua receita com vendas internacionais para essa empresa holandesa pagando poucas taxas por isso, já que ambas são membros da União Europeia. Da Holanda, o dinheiro ia para um paraíso fiscal, onde poderia simplesmente não ser taxado. A Holanda tinha que entrar na história porque o país também tem um sistema de imposto corporativo agradável para certas situações (nessa do "Double Irish", por exemplo).

A Apple, que aportou na Irlanda nos anos 1980, foi uma das primeiras a tirar proveito disso, e seu modelo ficou tão bem feito que acabou copiado por várias outras empresas. Já a Alphabet (que controla o Google) evitou pagar US$ 3,6 bilhões em impostos internacionais em 2015 porque moveu US$ 15,5 bilhões da sua receita para uma empresa nas Bermudas. Nada disso era ilegal, mas o governo vetou a prática a partir de 1 de janeiro de 2015 para evitar que a Irlanda ganhasse fama de veículo para evasão fiscal — mas centenas de empresas já aproveitaram o esquema ao longo dos últimos anos, e elas poderão continuar até 2020.

Sede do Airbnb em Dublin - Leonardo Pereira/Olhar Digital

Mas, embora seja o principal, como admite o próprio IDA Ireland, o sistema fiscal não é o único fator levado em conta por empresas que escolhem a Irlanda como casa na Europa. Quando estabeleceu sua companhia por aqui, em 2013, Brian Chesky, cofundador e CEO do Airbnb, lembrou que um dos estereótipos locais pinta o irlandês como um povo receptivo e acolhedor, o que combinaria com o serviço que Chesky e sua equipe oferecem. Mas tem mais: "Dublin também é um epicentro de tecnologia emergente na Europa, e uma das suas cidades mais internacionais, com quase todos os idiomas representados", escreveu ele.

O que não deixa de ser verdade. A Irlanda é um dos poucos países da UE que têm o inglês como idioma oficial — algo que tende a ficar ainda mais evidente após o Brexit —, tanto que o país é hoje a meca do intercâmbio. Isso facilita operações internacionais e a afluência de gente, como destaca o Complete University Guide: "Tecnicamente, o gaélico é a primeira língua oficial e ela é falada diariamente por uma pequena minoria da população", lembra a instituição, ressaltando, porém, que praticamente todos os cursos universitários do país são ministrados em inglês.

A maioria das instituições de ensino superior da Irlanda conta com cursos direcionados ao mercado de tecnologia. Um exemplo da força que o setor vem exercendo na cultura local é o fato de que, neste ano, pela primeira vez uma universidade foi ultrapassada por dois institutos de tecnologia no tradicional ranking Good University Guide, elaborado pelo Sunday Times: o Dublin Institute of Technology (DIT) e o Athlone Institute of Technology (AIT), que ocupam as sétima e oitava posições, respectivamente, deixando a Maynooth University para trás. E pode ser que esteja se formando uma tendência, porque no ano passado o DIT já tinha ficado na frente, e logo atrás da Maynooth University apareciam mais de 10 institutos de tecnologia em sequência.

"O setor de tecnologia cobre um campo grande de atividades, de fabricação de hardware a desenvolvimento de software, passando por criação de conteúdo digital, segurança de tecnologia da informação, computação em nuvem, serviços de suporte de telecomunicações e técnico", concluiu o IDA Ireland ao Olhar Digital. "Isso garante que a Irlanda tenha uma base ampla de habilidades, o que torna o país uma oportunidade de investimento atrativa para firmas multinacionais."

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