‘Aplicativos nos preocupam mais que o Chrome’, diz diretor da Mozilla

Redação24/11/2016 18h19, atualizada em 24/11/2016 19h30
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LONDRES, Inglaterra – Você pode conhecer a Mozilla apenas por causa do navegador Firefox. Mas trata-se de uma fundação muito maior que isso: numa época em que você não consegue fazer praticamente nada na internet sem abrir mão da privacidade e segurança dos seus dados, e na qual empresas gigantes ameaçam engolir a internet inteira, a Fundação Mozilla é um dos principais agentes lutando para manter a rede livre, aberta e democrática.

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A Fundação convidou o Olhar Digital para o principal evento de seu calendário, a Mozfest, que neste ano foi realizada na capital inglesa. Durante o encontro, tivemos a oportunidade de conversar com o diretor da Fundação Mozilla, Mark Surman. Dentre outras coisas, ele esclareceu que as principais preocupações da organização são muito diferentes do que as pessoas pensam, e que ainda é possível ter privacidade na internet. Mas Surman também alerta que as lutas por liberdade e segurança na internet devem se tornar muito mais intensas no futuro. Confira:

(A entrevista abaixo foi editada para maior clareza. Nas partes em que há referências a outros eventos, foram incluídos links para ajudar a contextualizar.)

Olhar Digital: A maioria das pessoas no Brasil conhece a Mozilla só pelo Firefox. A elas, como você explicaria o que a Fundação Mozilla é?

Mark Surman: A Mozilla foi fundada para proteger a internet aberta, e o Firefox foi a primeira coisa que fizemos nesse sentido. Nós criamos um produto que as pessoas adoraram, e criamos ele de forma que as pessoas que também compartilhassem os valores que ele representa pudessem falar para os seus parentes e amigos: “Instalem isso.” E ele realmente funcionava de uma maneira popular, relevante e importante para muitas pessoas, e cresceu daí. Nós ainda tentamos fazer esse mesmo trabalho hoje em dia, em parte continuando a fazer do Firefox algo que defende os valores de privacidade e segurança e internet aberta para pessoas no dia-a-dia, mas cada vez mais estamos nos dando conta de que também há um trabalho de mobilizar e educar o público em torno do que é uma internet saudável, e deixá-lo consciente e engajado nisso e, em muitos casos, tomando atitudes políticas também.

OD: A missão pode ter permanecido a mesma, mas a internet mudou muito desde que a Mozilla foi fundada [2003]. Como vocês sentiram essa mudança? Como foi para vocês?

MS: Uma das mudanças é que a internet cresceu. Há cerca de 3 bilhões de pessoas que têm acesso à internet, isso é quase metade do mundo inteiro. Isso é uma mudança muito positiva. Ainda que o Firefox tenha uma fatia menor do mercado de navegadores, ele tem mais usuários. Mas o mais importante é que mais pessoas no planeta têm acesso a essas coisas maravilhosas que, há 25 anos, quase ninguém sabia que existia. Por outro lado, o que era um sistema muito descentralizado em suas raízes (e ainda é em sua estrutura) começou a ser cercado e centralizado por alguns poucos agentes enormes. E esse tipo de controle centralizado nunca é algo bom, especialmente no caso da internet, que foi feita para ser um recurso compartilhado que pertence a todos nós. Seja o Facebook, o WeChat ou o Google, eles são um número pequeno de agentes que acabam escrevendo as regras de como tudo isso funciona. E isso realmente não é o que a internet deveria ser.

OD: Isso afetou a Mozilla de uma maneira negativa? Porque, pelo menos no Brasil, o Chrome acabou pegando uma grande fatia do mercado de navegadores que pertencia ao Firefox.

MS: Isso é algo meio neutro. Eu acho que algumas mudanças que nos afetam negativamente são diferentes do que as pessoas imaginam. O sucesso do Firefox não é só o número de usuários, mas os padrões da rede que ele ajudou a estebelecer: o JavaScript, os aplicativos de múltiplas plataformas como o Google Docs, a ideia da rede como uma única plataforma que funciona em todos os dispositivos de computação… Esse é o sucesso do Firefox. Uma mudança que nós achamos que deu errado foi a mudança da internet para os aplicativos. Isso é um fator muito mais importante do que o Firefox ganhar ou perder alguns pontos percentuais de mercado para o Chrome.

Lógico que é importante que um número suficiente de pessoas use o Firefox para que possamos influenciar os rumos da rede, mas o mais importante é chegarmos ao ponto em que a rede se torne, novamente, a plataforma universal de computação em smartphones. Acho que não daria para imaginar que páginas da internet substituiriam o Microsoft Office. Ou que páginas da internet substituiriam o Outlook, ou o Eudora, ou o Thunderbird [clientes de e-mail]. Então, no caso dos smartphones, será que a internet não pode um dia substituir os aplicativos? Está começando a fazer isso.

OD: Foi esse o motivo pelo qual vocês deixaram o FirefoxOS para trás? Vocês sentiam que era uma batalha que não valia mais a pena lutar?

MS: Eu acho que era a batalha errada na guerra certa, ou talvez uma batalha boa na guerra certa, mas uma batalha que nós não íamos ganhar. Acho que o FirefoxOS teve um sucesso razoável em influenciar quais tecnologias entravam nos padrões da rede. Antes do FirefoxOS, você não tinha acesso a câmeras em páginas da internet, ou acesso ao acelerômetro em páginas da internet, e isso se espalhou pelos navegadores. Isso saiu do FirefoxOS. Agora a questão é: será que o navegador, ou algo parecido com ele, consegue fazer a internet ser novamente a plataforma única entre todos os dispositivos? Se isso acontecer, não importa se as pessoas usam Firefox, Chrome ou Safari em seus smartphones. O que importa mais agora é se as pessoas usam a rede ou se elas usam aplicativos.

OD: Ao “enfrentar” o Google ou o Facebook, você “enfrenta” empresas que juntam muitos dados de seus usuários, que podem usar esses dados para melhorar sua experiência. Mantendo padrões rígidos de privacidade, é possível fazer frente a essas empresas? Ou seria o caso de incentivar as pessoas a ver mais valor na privacidade?

MS: Acho que uma das coisas que ainda precisamos descobrir é como ter um mundo onde juntamos mais do que chamamos de “dados enxutos”. Ou seja, dar às pessoas escolhas reais sobre compartilhar dados, e fazê-las entender o que elas estão ganhando ao compartilhar esses dados. Nós lançamos os “princípios dos dados enxutos” e incentivamos as empresas a se inscrever, para juntar apenas o mínimo de dados necessários para otimizar o serviço e fazê-lo melhor. E nós também estamos começando a pensar em qual papel nós temos ao pedir às pessoas que compartilhem seus dados para melhorar a experiência com o Firefox. A Mozilla sempre está em sua melhor forma quando podemos olhar os problemas difíceis que a internet ou a indústria enfrentam, dar o exemplo e chamar os outros a nos seguir. Então achamos que nessa abordagem de “dados enxutos”, e pensando nas inovações das próximas versões do Firefox, talvez nós possamos ajudar a indústria toda a pensar de maneira diferente sobre dados dos usuários.

OD: Recentemente, a Apple falou sobre uma tecnologia chamada “privacidade diferencial“, que permite que algoritmos de aprendizado de máquina sejam usados com dados dos usuários, mas retendo o anonimato dos usuários. Isso lhes parece um desenvolvimento positivo para a indústria?

MS: Sim. Acho que qualquer situação em que a indústria esteja fazendo coisas para ajudar as pessoas a escolher quanta privacidade elas querem é boa. A Apple obviamente despontou como um forte proponente de privacidade por conta do ocorrido com o FBI, e nós somos muito cooperativos quando eles ou qualquer outra empresa se manifesta dessa maneira. É ótimo que o protocolo do Whisper Systems tenha sido acrescentado ao WhatsApp também. Se você me perguntar se eu acho que o Facebook tem uma fatia excessiva do mercado de mensagens instantâneas, com o WhatsApp, o Messenger e o Instagram, eu vou dizer: sim. Mas também achamos que eles estão fazendo uma coisa ótima ao colocar criptografia ponta-a-ponta em um aplicativo extremamente popular.

OD: Nas próximas “frentes de batalha” da internet temos aparelhos domésticos conectados (IoT), realidade virtual etc. Como vocês veem esse futuro?

MS: Com realidade virtual, estamos numa encruzilhada em que temos que decidir se essa tecnologia será restrita a uma série de plataformas proprietárias, ou se teremos realidade virtual funcionando entre diversos dispositivos e experiências. E obviamente o que mais queremos é que a realidade virtual funcione como a internet: entre múltiplas plataformas, se conectando a tudo, funcionando com links, ou seja: mantendo um padrão ético de abertura e open source. Para fazer isso, porém, temos que criar tecnologias com as quais as pessoas queiram desenvolver novas experiências e usar também como usuários finais.

Em IoT, nós queremos as mesmas coisas. Mas é mais complicado com relação à privacidade, com relação às questões de segurança (como vimos nas últimas semanas, com os ataques DDoS das CCTVs), e também com relação à escala: serão 20 bilhões de dispositivos até 2020, segundo algumas estimativas. Isso é enorme. Então acho que é necessário colocar essas questões para debate, tanto com relação a IoT quanto com relação a aprendizagem de máquina, que serão relacionados. A gente já vê pessoas desenvolvendo muitas soluções open source para esses dispositivos. Mas ainda há casos espalhados em que é fechado. Quanto a aprendizagem de maquina, o código não é fechado, mas o banco de dados de treinamento ainda é. E é nele que ficam os desvios e o enviesamento do sistema.

OD: E como esses novos mercados podem mudar a maneira como encaramos questões de segurança virtual?

MS: Essas questões são imensas e críticas, porque a internet não está apenas se tornando um ecossistema mais complexo: ela está ficando ainda mais enroscada nas nossas vidas. Estamos passando de usar o computador, ou usar o smartphone, para quase viver dentro da internet, num mundo em que a rede nos envolve completamente. Da mesma forma que o planeta Terra pode ficar saudável ou doente, a internet também pode.

E isso muda o que está em jogo. Agora, a internet é tão enroscada na nossa vida que questões de segurança virtual podem matar, permitir roubos imensos de dados e ameaças à integridade física são extremamente graves. Há alguns aspectos da internet que são extremamente saudáveis, como o fato de que ainda usamos uma rede que tem open source “debaixo do capô”, usando Linux, Apache, Wikipedia, Firefox. Por outro lado, você tem essa centralização que está acontecendo, você tem essa fragilidade que vem com IoT. Então o que eu mais penso com relação a IoT, VR, inteligência artificial é: como isso muda o que está em jogo, e como precisamos começar a pensar na saúde desse ecossistema como empresas, como cidadãos, como governos quando há tanta coisa em jogo.

OD: Com a internet se tornando cada vez mais exigente, com relação a infraestrutura e tráfego, não pode haver um aumento na divisão social entre quem tem e quem não tem acesso? Isso não pode deixar a internet mais excludente e desigual?

MS: Não me preocupo com acesso no longo prazo. Acho que todo mundo eventualmente vai ter acesso, essa é a tendência que estamos vendo. O que me preocupa é qual tipo de acesso elas terão, e com a possibilidade de que tenhamos uma internet “dos ricos” e uma internet “dos pobres”. Acho que isso é um risco muito real, e isso não seria nada bom. O problema, eu acho, vai ser que a “internet dos ricos” será privada e segura e não terá tanto rastreamento e publicidade, e a “internet dos pobres” será limitada, terá menos conteúdo, mais rastreamento, mais publicidade.

OD: Meio como o mundo é hoje, não?

MS: Sim! E eu acho que você trocará a sua liberdade por acesso se não puder pagar por ela com dinheiro. É aquela coisa: se você não sabe o que é o produto, o produto é você. E acho que vemos muito concretamente os primeiros indícios disso com o Free Basics, o Internet.org e o Facebook. Claro que nós queremos que mais pessoas tenham acesso. Mas para ter esse acesso, elas estão entrando em um lugar muito limitado, com muitos poucos sites, que não está aberto a competição para o resto da internet, no qual apenas algumas empresas e alguns serviços governamentais podem aparecer. E isso começa a ser a diferença entre a “internet dos ricos” e a “internet dos pobres”.

OD: No Brasil, o Marco Civil foi aprovado no começo de 2014 para proteger a neutralidade da rede e dos dados. Mas operadoras de telecomunicações atualmente ainda oferecem planos como “500MB de internet mais WhatsApp à vontade”. Como você vê essa situação?

MS: Bem, a questão com a neutralidade da rede será como ela vai ser interpretada, ou como ela vai ser assegurada. Leis são assim. Nesse caso, em que você tem 500MB e WhatsApp à vontade, é meio que um truque para contornar a lei. Mas no final, se você for realista, isso provavelmente é um resultado positivo da lei. A lei está forçando o mercado a pensar de maneira criativa. E então as cortes vão decidir se isso está no espírito da lei ou não. Talvez hoje em dia isso seja suficiente, porque o usuário médio de WhatsApp só consome 25MB e a promoção acaba sendo mais um gancho de marketing que qualquer outra coisa. Mas quem sabe como será na era da realidade virtual, quando 500MB lhe derem apenas três minutos de realidade virtual; e então, você teria realidade virtual do YouTube à vontade? Isso já não seria o espírito da lei. Então isso é uma situação em que nós, como pessoas preocupadas com a saúde da internet, precisamos pressionar nossos governos e prestadores de serviço a continuar agindo no espírito dessas leis. Acho que o Brasil será um lugar para se ficar de olho, porque você tem leis excelentes de internet.

OD: Mesmo tendo o Marco Civil, muitas pessoas ainda acham que essas leis são negativas. Por que essa discussão ainda é tão difícil? Será que as pessoas preferem ter seu conteúdo digital filtrado e pré-selecionado para elas?

MS: No final, acho que a questão da saúde da internet depende da “alfabetização digital”, do entendimento das pessoas sobre como a internet funciona. Nós precisamos, como sociedade e como indústria, ter isso como prioridade principal. É tão importante quanto ensinar as crianças a ler, escrever e fazer contas. Se nós vamos passar tanto tempo de nossas vidas em um mundo digital, entendê-lo ou não entendê-lo será a diferença entre tomar decisões bem ou mal fundamentadas. E isso terá um grande impacto no desenvolvimento da rede, para cada um de nós e para a sociedade como um todo. Mas eu acho que parte disso é o fato de que as pessoas não estão bem informadas. E isso é um problema social muito sério que nós precisamos resolver.

OD: Como você imagina a internet daqui a 20 anos? Como você gostaria que ela fosse?

MS: Bem, a internet acaba de fazer 25 anos, então seria como que o dobro da idade dela! É tão difícil prever o que pode mudar. Acho que a minha esperança é que o ecossistema da internet ainda existirá e estará ainda mais envolvido com as nossas vidas, e então eu espero que ele esteja mais saudável do que está hoje. Com isso, quero dizer que espero que ele seja seguro, acessível a todos, e que as novas áreas, como Internet das Coisas, realidade virtual e aprendizagem de máquina, tenham uma competição aberta e real. E que as pessoas entendam o que está acontecendo e consigam tomar decisões informadas sobre quais informações querem ou não querem compartilhar. E que realmente haja uma chance real para que cada um possa moldar como a internet é. Que cada pessoa possa abrir sua empresa, mostrar sua arte, escolher qual trabalho quer fazer – e poder trabalhar. Todas essas coisas estão em jogo.

Uma versão negativa seria nós simplesmente entrarmos num cercado construído por alguns poucos impérios, em que algumas empresas – ainda que sejam dez empresas – controlam como tudo funciona. E nós, como pessoas, seríamos apenas engrenagens em um sistema. Isso não é o que eu quero ver, mas nós temos, sim, a escolha para seguir por um desses dois caminhos digitais.

OD: Vocês parecem ter muita fé na liberdade e democracia da internet, apesar das situações complicadas.

MS: Nós entendemos que o lado comercial da internet é importante. Mas a questão não é comercial ou não comercial, mas sim mercados abertos ou mercados fechados. E o que nós vemos é que as coisas vão se consolidando e o resultado são essas empresas gigantes que, efetivamente, estão fechando mercados. E se os mercados estão fechados, as pessoas nem têm escolha. É por isso que a maioria dos países tem leis contra monopólios. Por isso que a Microsoft teve que parar de pré-instalar seu navegador para começo de história. Então talvez nós estejamos chegando a esse ponto com algumas dessas questões.

Redator(a)

Redação é redator(a) no Olhar Digital