Funcionários da Microsoft organizaram um protesto contra a decisão da empresa de manter contrato com a agência de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) em meio a uma crise de política migratória no país.

Em maio, o governo dos EUA deu início a uma política de “tolerância zero” a imigrantes ilegais. Nos últimos dias, surgiram relatos de que essa política levou a 2.000 crianças sendo separadas de seus pais na fronteira com o México.

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A Microsoft tem um contrato no valor de US$ 19,4 milhões (mais de R$ 72 milhões em conversão direta) com a ICE para fornecer soluções de processamento de dados e de inteligência artificial para os escritórios do órgão federal norte-americano.

Um grupo de funcionários na sede da empresa em Redmond, na Califórnia, encaminhou uma carta com 100 assinaturas para o CEO da Microsoft, Satya Nadella, na última terça-feira, 19, como protesto, informou o jornal The New York Times.

Eles pedem que a Microsoft “tome um posicionamento ético” diante da política de imigração do governo, que “coloque crianças e suas famílias acima de lucros” e que cancele seus contratos com a ICE ou órgãos ligados à agência.

“Como as pessoas que criam as tecnologias com as quais a Microsoft lucra, nos recusamos a ser cúmplices. Somos parte de um movimento crescente, composto de muitos em toda a indústria, que reconhecem a responsabilidade que aqueles que criam tecnologias têm de garantir que o que eles constróem é usado para o bem, e não para o mal”, diz a carta.

Em comunicado divulgado após o recebimento da carta, Satya Nadella criticou a nova política de separar famílias na fronteira, chamando-a de “cruel e abusiva”, mas não falou sobre cancelar contratos com a ICE como pediam os funcionários.

“A Microsoft não está trabalhando com o governo dos EUA em projetos relacionados à separação de crianças de suas famílias na fronteira. Nosso engajamento atual com a ICE tem a ver com e-mail, calendário, mensagens e gerenciamento de documentos de trabalho na nuvem”, disse o CEO.

Contexto

Outros líderes no setor da tecnologia também se manifestaram contra a nova política de imigração dos EUA, incluindo Tim Cook, CEO da Apple; Sundar Pichai, CEO do Google; Dara Khosrowshahi, da Uber; e Elon Musk, da Tesla e da SpaceX.

Dois ex-funcionários do Facebook também deram início a uma campanha de arrecadação de fundos para doar às famílias na fronteira que precisam de apoio legal. Mark Zuckerberg, o CEO e fundador da rede social, é um dos doadores.

E por falar em pressão de funcionários, vale lembrar o recente caso do Google e seus contratos com as forças armadas dos EUA. Após protestos de boa parte da equipe, a empresa decidiu não renovar seu contrato com o Departamento de Defesa do país num programa que usa inteligência artificial para processar imagens obtidas por drones do exército.

Depois disso, a empresa divulgou uma nova política de desenvolvimento de soluções de inteligência artificial, incluindo a promessa de não usar essa tecnologia na criação de armas. Mas disse que continuará trabalhando com o exército em outras áreas.

Histórico

Em janeiro do ano passado, empresas de tecnologia também se manifestaram contra uma ordem executiva do presidente dos EUA, Donald Trump, barrando a entrada de imigrantes que viessem de países de maioria muçulmana no Oriente Médio.

Na época, além de manifestações públicas de repúdio de seus líderes, funcionários de muitas empresas do Vale do Silício fizeram protestos em vias públicas. Algumas companhias até foram à Justiça para reverter a ordem de Trump.