As séries americanas, pelo menos as melhores delas, resgataram a arte da elipse, mola mestra do melhor cinema clássico americano.

Elipse é um recurso narrativo em que algo que sabemos ter acontecido não nos é mostrado. Esse recurso é usado em praticamente todos os filmes e séries, mas ultimamente a arte de saber o que mostrar e o que esconder não tem sido muito bem pensada. Mostra-se o que era para esconder, esconde-se o que era para mostrar. Ou seja, o cinema e as séries recentes têm usado mal as elipses na maior parte das vezes.

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Mas há uma série, mais que qualquer outra que eu conheço, que usou elipses em profusão no período em que foi ao ar. É Mad Men, já comentada brevemente em texto anterior desta seção. 

Temos, no final do 10º episódio da 3ª temporada, um dos melhores exemplos de uso bem pensado da elipse. Don Draper (Jon Hamm) é o famoso diretor de criação da Sterling Cooper, a agência de publicidade onde se passa boa parte da série. Ele deve fazer o discurso mais esperado da comemoração de 40º aniversário da agência. Roger Sterling (John Slattery), sócio majoritário da empresa, passa a palavra a Draper, mas os aplausos não cessam, deixando-o lisonjeado. 

O episódio então acaba, no meio dos aplausos. No episódio seguinte, o 11º, passaram-se já alguns dias e nem se fala mais do esperado discurso. Sabemos que aconteceu, imaginamos que foi inspirador, porque já havíamos visto Draper em ação vendendo ideias aos clientes, mas não temos a menor ideia do que ele falou. E não importa. O que interessa foi passado: seu prestígio, os aplausos, o reconhecimento de seus companheiros de trabalho, e a missão cumprida no final.

Se nove entre dez críticos consideram Mad Men a grande série do século 21 é por momentos como esse e muitos outros, em que a elipse e outros recursos, dos quais falarei em textos futuros, são usados de forma inteligente e muito bem concatenada na narrativa. E isso não acontece nesse único episódio. Os trunfos estão espalhados por toda a série, deixando-nos presos a ela. É uma arte, afinal.