O corpo de organismos vivos ficam mais suscetíveis a serem contaminados por outros patógenos quando já tiveram suas respectivas imunidades afetadas por outras infecções anteriormente. Em estudos iniciais, biocientistas das universidades de Michigan e Rice mostraram que as interações entre patógenos em hospedeiros individuais podem prever a gravidade de uma epidemia multipatogênica.

Os pesquisadores analisaram em laboratório como o momento das infecções fúngicas e bacterianas no zooplâncton individual afetava a gravidade das epidemias em uma população. Publicado no Proceedings of the Royal Society B, o estudo mostrou que a ordem de hospedeiros infectados pode mudar o curso de uma epidemia.

“É sabido que a maneira como os parasitas e patógenos interagem nos hospedeiros pode alterar a transmissão da doença, mas a pergunta é: ‘Quais informações você precisa reunir sobre essas interações para prever a gravidade de uma epidemia?'”, contou Patrick Clay, associado de pós-doutorado da Universidade de Michigan que conduziu a pesquisa durante seu doutorado na Universidade Rice.

Reprodução

publicidade

“O que mostramos é que você precisa entender como a ordem de infecção altera as interações dentro do hospedeiro para poder prever a gravidade das epidemias”, explicou Clay. “Precisamos particularmente dessas informações para prever como as mudanças no tempo de uma epidemia em relação às epidemias coocorrentes alteram a gravidade da epidemia”.

A pesquisa, no entanto, não se aplica ao coronavírus. “Isso se aplica a situações nas quais várias epidemias ocorrem simultaneamente e onde os patógenos concorrentes interagem com os hospedeiros”, afirmou o coautor do estudo, Volker Rudolf, orientador de Clay na Rice. “Não há dados que sugiram que esse seja o caso da Covid-19”.

Contudo, por mais que as coinfecções sejam comuns em humanos e animais selvagens, ainda não se sabe muito a respeito, porque é um tema difícil de se estudar. A pesquisa combinou testes em laboratório com modelos de epidemiologia e simulações de computador.

A espécie de zooplâncton usada na pesquisa, Daphnia dentifera, é um pequeno crustáceo abundante e importante para a ecologia dos lagos do meio-oeste americano. O animal é transparente, então os cientistas usaram microscópios para detectar e monitorar o crescimento dos patógenos no interior dos organismos. Ao examinar milhares de indivíduos e ao alterar a ordem da infecção, foi possível documentar diferenças cruciais na maneira como os patógenos interagiam dentro dos hospedeiros.

Reprodução

Para estudar a progressão das doenças, Clay criou modelos epidemiológicos que previam a dinâmica das epidemias em zooplâncton os quais possuíam uma ou ambas as infecções. Ele também passou meses monitorando o desenvolvimento das epidemias ao longo de várias gerações de organismos infectados.

Ao comparar dados de simulações em computador e epidemias experimentais, os pesquisadores puderam determinar quais informações eram cruciais para prever seguramente como as doenças se espalhariam pelas populações.

Clay reafirmou a importância do trabalho pois as mudanças climáticas afetarão o tempo de epidemias sazonais em muitas espécies, e compreender os impactos do tempo nessas situações é crucial para os ecologistas. No entanto, dados sobre a ordem da infecção, em geral, são desconhecidos. 

“Espero que isso influencie as pessoas a ver o que acontece quando você altera a ordem da infecção nos hospedeiros coinfectados”, afirmou o cientista. “Porque mostramos que essa informação é vital para prever epidemias, e se as pessoas começarem a coletar essas informações agora, elas estarão mais preparadas para prever a severidade de epidemias futuras”.

Via: Phys.org