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Por Marcelo Zurita*

 

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Após ser ocultado pela Lua, Marte surge por trás do limbo escuro do nosso satélite natural. O Planeta Vermelho exibe fantásticas feições de sua superfície que inspirou astrônomos e escritores de ficção científica no século XX. E a Lua, suas belas crateras iluminadas lateralmente pela luz do sol, destacando toda profundidade do próprio relevo.

Tudo isso com incrível nitidez e definição de cores que nos faz indagar: qual telescópio espacial teria feito essa foto? A resposta parece ser ainda mais surpreendente. A foto foi feita por dois astrônomos amadores brasileiros, de Maceió (AL).

 Reprodução

Área de visibilidade da ocultação de Marte pela Lua. Fonte: Iota

Para os aficcionados por astronomia de boa parte do Brasil, a noite de 5 para 6 de setembro de 2020 foi especial. Nessa noite ocorreu um fenômeno astronômico raro, a ocultação do planeta Marte pela Lua. Tal fato só ocorre quando os dois astros estão em perfeito alinhamento com a Terra, o que é raro. Quando acontece, é visível apenas em uma parte do planeta. E apesar do fenômeno se repetir outras quatro vezes em 2020, apenas uma dessas ocultações poderia ser vista a partir de Alagoas.

Foi por isso, David Duarte e Romualdo Caldas, do Centro de Estudos Astronômicos de Alagoas, prepararam seus equipamentos com bastante antecedência para tentar registrar esse momento único. E como resultado, conseguiram fazer uma foto simplesmente fantástica do momento em que Marte surgiu por trás da Lua, no momento final da ocultação.

Na noite da Ocultação, David e Romualdo participaram também de uma transmissão ao vivo organizada pelo Observatório Nacional. No exato momento em que a Lua entrava em frente ao Planeta Vermelho, espessas nuvens encobriram a cidade de Maceió, onde eles estavam. Felizmente o tempo abriu e permitiu, não só que eles registrassem a imagem, mas também transmitissem ao vivo o momento, com toda a emoção que se tem direito. 

No vídeo abaixo, é possível vê-lo a partir das 2h33min. Notem também que, diante daquela maravilhosa visão, um dos convidados sugere que eles deveriam enviar a foto para o APOD.


APOD – Foto Astronômica do Dia 

O Astronomy Picture Of Day (APOD), ou Foto Astronômica do Dia em tradução livre, trata-se de uma das seções mais acessadas do site da Nasa, que desde 1995 publica, a cada dia, uma foto diferente do universo, com uma breve descrição feita por um astrônomo profissional da agência espacial.

As fotos publicadas no APOD são encontradas na web e/ou enviadas por fotógrafos de todo o mundo. A escolha também fica por conta dos astrônomos e especialistas da agência. 

No último dia 11, a Nasa publicou como Foto Astronômica do Dia, o incrível registro feito por Duarte e Caldas, com o título “O Reaparecimento de Marte” e acompanhado da seguinte descrição:

“Marte reaparece logo além do limbo escuro da Lua nesse empilhamento de nítidos quadros de vídeo capturados em 6 de setembro. É claro que, para reaparecer, primeiramente ele teve que desaparecer. Isso aconteceu mais de uma hora antes, quando a borda iluminada sul da Lua minguante passou em frente ao Planeta Vermelho, para observadores de Maceió, Brasil. A ocultação lunar ocorreu quando a Lua estava perto do apogeu, a cerca de 400 mil quilômetros de distância. Marte estava quase 180 vezes mais distante. Foi a quarta ocultação lunar de Marte visível a partir da Terra em 2020. Foi visível de algumas latitudes ao sul, a quinta ocultação lunar de Marte em 2020 ocorrerá em 3 de outubro, quando a Lua e Marte estão ambos quase opostos ao Sol no céu do planeta Terra”, dizia o texto. 

Reprodução

Foto Astronômica do Dia em 11 de setembro de 2020. Fonte: APOD/Nasa 

O “empilhamento de quadros de vídeo” citados na explanação, diz respeito à técnica utilizada por Duarte e Caldas para captação de imagens lunares e planetárias, que consiste na gravação de um vídeo curto da cena e posterior empilhamento dos quadros para obtenção de uma imagem de maior qualidade e definição.

A técnica permite descartar os quadros com menor qualidade, reduzir significativamente o ruído e obter imagens finais com maior nitidez, além de, eventualmente, conquistar o reconhecimento dos astrônomos da maior agência espacial do planeta.

 

Marcelo Zurita é presidente da Associação Paraibana de Astronomia – APA; membro da SAB – Sociedade Astronômica Brasileira; diretor técnico da Bramon – Rede Brasileira de Observação de Meteoros – e coordenador regional (Nordeste) do Asteroid Day Brasil