A astrofísica brasileira Duilia de Mello está estudando colisões de galáxias distantes a partir de imagens feitas por um time de astrônomos amadores no Brasil.

Duilia de Mello. Foto: alumni.usp.br/reprodução

A colisão entre galáxias é um dos mais incríveis fenômenos do Universo. São processos extremamente demorados para a escala de tempo humana, podendo durar vários milhões, ou até mesmo, alguns bilhões de anos.

Curiosamente, devido às enormes distâncias entre as estrelas de uma galáxia, dificilmente ocorrem choques de estrelas durante a colisão de duas galáxias. Entretanto, há uma enorme bagunça gerada pelas interações gravitacionais do processo. No final, as estrelas são mescladas em uma única galáxia, bastante deformada pela colisão, mas isso não é tudo.

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Simulação da colisão entre a Via Láctea e a Galáxia de Andrômeda. Créditos: Universe Sandbox

Parte da matéria que compõe essas galáxias (gases, poeira e, inclusive, algumas estrelas), é lançada para o espaço intergalático, onde podem se reagrupar formando aglomerados estelares pequenas galáxias periféricas e também algumas conchas de gás.

E são justamente essas conchas o foco da pesquisa desenvolvida pela astrofísica brasileira Duilia de Mello, pesquisadora na Universidade Católica de Washington e colaboradora do Centro Espacial Goddard, da Nasa.

Conchas da galáxia ARP 230. Créditos: DIM Team

O estudo dessas conchas de gás nos permite aprender mais sobre a evolução das galáxias e a dinâmica das suas colisões. Mas para registrá-las, é preciso fazer fotos com várias horas de exposição, e tempo, é algo cada vez mais difícil de conseguir nos grandes observatórios.

Para resolver esse problema, Mello lançou mão de um recurso em que o Brasil está muito bem servido: a astronomia amadora. Em uma iniciativa inédita, ela reuniu um time de astrônomos amadores, com experiência em Astrofotografia para contribuir com a pesquisa.

O projeto recebeu o nome de Deep Images of Merges, ou simplesmente DIM. Hoje conta inicialmente com cinco astrônomos amadores:

  • João Antônio Mattei, engenheiro e CEO de uma empresa de construção civil;
  • Marcelo Domingues, funcionário público;
  • Cristóvão Jacques, engenheiro e empresário;
  • Eduardo Oliveira, professor de Ciências Farmacêuticas da UFVJM;
  • Sérgio José Gonçalves da Silva, engenheiro de telecomunicações
Duilia de Mello e equipe de astrônomos amadores apresentando o Projeto DIM durante o Encontro Nacional de Astronomia em 2020. Créditos: YouTube

Estes astrônomos utilizam seus telescópios para fazer imagens das galáxias estudadas por Mello. Evidentemente que esses telescópios não têm a mesma qualidade e definição dos grandes telescópios profissionais. E para compensar esse problema a equipe está trabalhando para integrar as imagens de várias horas de exposição feitas por vários telescópios em diferentes locais do Brasil.

E os primeiros resultados desse trabalho foram apresentados na semana passada, no Encontro da Sociedade Astronômica Americana. Na ocasião, foi mostrada uma imagem da Galáxia Centaurus A, feita a partir da integração de fotos que somam 41 horas de exposição.

Centaurus A é uma galáxia peculiar, situada a 14 milhões de anos-luz de distância, na direção da Constelação do Centauro. Ela é o resultado de uma colisão de duas galáxias menores, e essa colisão é responsável por sua forma irregular e pelas conchas observadas agora no projeto DIM.

Imagem da Galáxia Centaurus A integrando 41 horas de exposição. Em amarelo, as conchas identificadas em 1983 e em vermelho, as novas conchas identificadas pelo time brasileiro. Foto: DIM Team

Além das conchas já observadas anteriormente nesta galáxia, o time brasileiro identificou 9 novas conchas ao redor de Centaurus A, comprovando mais uma vez, a excelência da astronomia amadora brasileira e o potencial científico de parcerias como esta, idealizada por Mello.

Texto por Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia – APA; membro da SAB – Sociedade Astronômica Brasileira; diretor técnico da Bramon – Rede Brasileira de Observação de Meteoros – e coordenador regional (Nordeste) do Asteroid Day Brasil