A automedicação é desaconselhada para qualquer doença. Com a disseminação da Covid-19, entretanto, ela ganhou muitos adeptos e pode causar efeitos colaterais bastante perigosos. Um deles é a hepatite medicamentosa, que, em casos extremos, requer transplante de fígado.

Segundo o hepatologista Paulo Bittencourt, presidente do Instituto Brasileiro do Fígado da Sociedade Brasileira de Hepatologia, 27% das hepatites agudas graves ou fulminantes são medicamentosas. Esse mal pode estar sendo causado em brasileiros pelo uso indiscriminado do vermífugo ivermectina.

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O pneumologista Frederico Fernandes, presidente da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia (SPPT), contou no Twitter que avaliou uma paciente jovem que está prestes a precisar de um transplante. Segundo Fernandes, ela teve um quadro leve de Covid-19 e se automedicou com 18mg diárias de ivermectina por uma semana.

O resultado? Uma sobrecarga no fígado. “Muito triste ver uma pessoa jovem a ponto de precisar de um transplante por usar uma medicação que não funciona em uma situação que não precisa de remédio algum”, disse ele na publicação. Depois de expor o caso na plataforma, Fernandes passou a receber ataques virtuais. Decidiu, então, tornar seus perfis inacessíveis nas redes sociais.

Tuíte de Frederico Fernandes descreve paciente com provável hepatite medicamentosa causada por uso incorreto de ivermectina.

Droga contra parasitas

A ivermectina é segura para eliminar parasitas do corpo, desde que tomada sob supervisão médica. O problema foi sua inclusão em uma lista de medicamentos — conhecida como kit covid — que, embora não tenham eficácia comprovada no tratamento da Covid-19, foi defendida por políticos como solução para a doença.

Mauro Schechter, infectologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressalta não se sabe as consequências do uso de longa duração da ivermectina. “A droga só é segura para as indicações que estão bula”, alerta. Segundo ele, 3% dos pacientes têm efeitos colaterais associados ao sistema nervoso central. Além disso, a ivermectina provoca má formação de fetos em diferentes animais, não pode ser usada por grávidas e, em doses mais altas, é letal para camundongos e causa convulsões em cães.

Paulo Bittencourt alerta que as três medicações do kit covid (ivermectina, cloroquina e azitromicina) podem levar à hepatite aguda. Embora a ocorrência seja rara, o que preocupa é o uso em larga escala e sem prescrição para tratar uma doença que já afeta milhões de pessoas. “A complicação pode ter uma frequência maior com o uso exacerbado”, avalia.

O próprio Bittencourt teve um paciente que usava ivermectina a cada 15 dias, por decisão própria, para evitar a Covid-19. Ele passou a ter náuseas depois de adotar o medicamento. “As pessoas dizem: ‘se não faz bem, mal não fará’, mas isso não é de todo real.”

A situação ficou tão fora de controle que a MSD, farmacêutica responsável pela fabricação da ivermectina, publicou um comunicado sobre o medicamento. Segundo a empresa, não há dados que sustentem a eficácia do medicamento contra a Covid-19.

Fonte: O Globo