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Por Marcelo Zurita*

No início da noite dessa terça (16), uma bola de fogo cruzou os céus no norte do país e foi vista de diversas localidades do Pará e do Ceará. A Rede Brasileira de Observação de Meteoros (BRAMON) analisou o caso e informou tratar-se da reentrada de lixo espacial.

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A BRAMON coletou diversos relatos a partir das redes sociais e da sua ferramenta de reporte de bólidos, dando conta do avistamento de uma bola de fogo nos céus do Pará. Diversas imagens publicadas nas redes sociais registraram o fenômeno, além de dois vídeos em câmeras do Clima ao Vivo, uma em Belém do Pará, e outra em Fortaleza, no Ceará. Os testemunhos se concentraram na região metropolitana de Belém, onde boa parte do objeto se desintegrou. Porém, houveram também relatos vindos do estado do Ceará, a mais de 800 quilômetros de distância. Confira algumas imagens:

Baseado nos relatos e nas imagens, a BRAMON concluiu tratar-se da reentrada de lixo espacial e identificou um objeto que possivelmente é o que causou a bola de fogo observada no norte do país. Trata-se de um corpo de foguete, de identificação NORAD 22032. Inicialmente acreditava-se se tratar de uma Sylda do Ariane 5, mas depois de pesquisas mais detalhadas, foi identificado o corpo de um foguete que não é observado desde o dia 11 e cuja reentrada estava prevista para o domingo, dia 14, de acordo com os cálculos de Joseph Remis, especialista em reentradas.

Lixo espacial é parte de foguete francês

Reentrada do Corpo do Foguete Ariane 44L prevista para o dia 14 de março, às 18:40 (21:40 UT) – Créditos: Joseph Remis
Reentrada do Corpo do Foguete Ariane 44L prevista para o dia 14 de março, às 18:40 (21:40 UT) – Créditos: Joseph Remis

O objeto em questão é o corpo do terceiro estágio do foguete Ariane 44L (NORAD 22032) lançado em 9 de julho de 1992 a partir do Centro Espacial Guyanais, na Guiana Francesa. O terceiro estágio é o responsável por inserir a carga útil (satélite, por exemplo) em sua órbita. Depois de cumprida a missão, o corpo do foguete executa operações de segurança, como o esvaziamento dos seus tanques de combustível e permanece como lixo espacial em órbita da Terra. Se em sua órbita, ele se aproximar suficientemente da Terra para que sofra arrasto atmosférico, ele vai, aos poucos, perdendo altitude até reentrar na atmosfera terrestre, gerando um bola de fogo como a que foi vista no norte do país nessa terça.

Foguete Ariane 44L – Créditos: Arianespace/ESO

Em suas análises preliminares a BRAMON mediu um trecho de 845 km em que o objeto levou 118 segundos para percorrer, indicando uma velocidade de 7,16 km/s, o que é compatível com a velocidade de reentrada de um objeto em órbita da Terra.

Trajetória preliminar da bola de fogo – Créditos: BRAMON

Por que reentrada teria ocorrido 48 horas depois do previsto?

Todos os objetos em órbita da Terra são monitorados por órgãos internacionais e por observadores de satélites amadores. A cada passagem observada de um objeto, eles medem a posição e o horário exato da passagem e o conjunto das observações feitas em vários dias permite o cálculo dos parâmetros orbitais do satélite.

Com esses parâmetros, é possível calcular onde ele está em cada momento e suas próximas passagens sobre um determinado local. Mas quando um objeto está próximo da reentrada, conforme ele vai perdendo altitude, vai alterando significativamente seus parâmetros orbitais. Isso torna muito complicado determinar a data, hora e local exato de queda, principalmente se não existem observações recentes.

Com isso, o calculo que indicou a reentrada no dia 14 devia estar com uma margem de erro muito alta. E nesse caso, seria bem possível que sua reentrada tenha ocorrido nessa terça (16) e seja essa observada do Pará ao Ceará.

Assustador, mas seguro

Apesar do fenômeno ser assustador para muitas pessoas, reentradas de lixo espacial como essa não geram risco significativo para a população. A maioria dos objetos são completamente vaporizados durante a reentrada. Apenas os grandes satélites e alguns corpos de foguete tem partes suficientemente resistentes para sobreviver à reentrada e chegar ao solo. Mas nesse caso, considerando a trajetória da bola de fogo, mesmo que resistisse, teria caído no mar.

Corpos de foguete tem tanques de combustível bastante resistentes ao calor. Existem várias ocorrências de quedas desses tanques em solo, mas sempre sem causar grandes danos, pois já caem com velocidade bastante reduzida.

Caso caísse em solo, a União Europeia, responsável pelo foguete, seria proprietária e responsável por recolher os detritos e indenizar sobre qualquer dano causado.

Lixo da Estação Espacial Internacional?

Algumas pessoas sugeriram que poderia ser a reentrada de lixo vindo da Estação Espacial Internacional, já que recentemente eles liberaram mais de 2 toneladas de detritos no espaço. Porém, esse lixo todo ficará orbitando o planeta por alguns anos ainda, e em uma trajetória bem diferente da bola de fogo observada nessa terça feira. Então, não há possibilidade de que os detritos descartados da Estação Espacial Internacional tenham causado esse evento. A maior possibilidade no momento é que tenha sido realmente o corpo do foguete Ariane 44L.

*Marcelo Zurita é presidente da Associação Paraibana de Astronomia – APA; membro da SAB – Sociedade Astronômica Brasileira; diretor técnico da Bramon – Rede Brasileira de Observação de Meteoros – e coordenador regional (Nordeste) do Asteroid Day Brasil

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