Três pacientes internados com Covid-19 no Hospital Nossa Senhora Aparecida (HNSA), em Camaquã, no Rio Grande do Sul, morreram na quarta-feira (24) após receberem nebulização com uma solução à base de hidroxicloroquina. Um quarto paciente também foi submetido ao procedimento, mas o hospital não deu informações sobre seu quadro de saúde até o momento.

Segundo a instituição, o procedimento foi feito pela médica Eliane Scherer. O HNSA informa que ela trabalha para uma empresa que presta serviços ao pronto-socorro da unidade e não tem vínculo com a instituição. Na denúncia, o hospital apresentou 17 infrações éticas supostamente cometidas pela médica. O caso foi denunciado ao Ministério Público e ao Conselho Regional de Medicina (CRM).

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Diversos estudos apontam que o medicamento não tem eficácia comprovada no tratamento da doença. Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou que a droga não seja usada nem como prevenção, já que pode aumentar a chance de morte dos pacientes.

A entidade afirma, no entanto, que todo país é soberano para decidir sobre seus protocolos clínicos de uso de medicamentos. Mesmo assim, reforça que as evidências sobre os benefícios de cloroquina ou hidroxicloroquina são insuficientes e que a maioria das pesquisas sugere que a fórmula tem possíveis efeitos colaterais

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Médicos em atendimento em UTI para pacientes com Covid-19. Crédito: DPE/Divulgação

O diretor técnico do HNSA, Tiago Bonilha, afirma que os pacientes que morreram tiveram taquicardia ou arritmia depois da nebulização. Segundo ele, entretanto, não há como afirmar que existe uma relação entre os óbitos e o tratamento.

Dois deles estavam em estado grave e em ventilação mecânica, enquanto o outro estava estável e recebia oxigênio por máscara. Para os especialistas, com o pulmão já frágil, contaminados com Covid-19 que recebem nebulização inadequada podem desenvolver crises de asma, inflamação de vias aéreas e chegar a uma insuficiência respiratória.

A profissional foi afastada após entrar em conflito com a equipe de plantão, que teria se negado a fazer o procedimento em pacientes internados. A medicação consistia em uma diluição de hidroxicloroquina em soro fisiológico aplicada por nebulização. A própria profissional preparava a solução, sem consentimento dos farmacêuticos da unidade.

Justiça autorizou o tratamento

No fim de semana anterior às mortes, a Justiça do Rio Grande do Sul recebeu dois pedidos para uso de cloroquina no tratamento contra a Covid-19. Um deles foi concedido com a condição de que a médica Eliane Scherer fosse responsável pelo tratamento e que a família assinasse um termo reconhecendo que o hospital não teria responsabilidade alguma.

O documento explicava que a droga e o procedimento não tinham comprovação científica de eficácia ou segurança e responsabilizava a médica e as famílias pelas consequências. O hospital estendeu as condições a outros pacientes que pediram o tratamento, mas não aderiu a ele em seu protocolo padrão para diagnosticados com Covid-19.

Se as infrações forem confirmadas, a médica pode sofrer punições. Entre elas estão a advertência confidencial, a censura confidencial ou pública, a suspensão por 30 dias e a cassação definitiva do registro.

Fonte: G1