Muito se especula sobre, um dia, levarmos a vida humana para o espaço. Evidentemente, esse é um cenário muito distante de nós, mas estudos publicados no jornal Materials Today Bio já indicam que a construção de colônias em Marte ou na Lua será feita com sangue, urina, suor e lágrimas. Literalmente.

Entendemos se a sua primeira pergunta foi “quem teve tempo de estudar isso?”- ao que responderemos “Universidade de Manchester”, na Inglaterra. Mas a segunda pergunta obrigatoriamente teria que ser “de onde veio essa ideia?” – e, bom…na Idade Média, a massa que eles usavam como concreto tinha sangue de animais em sua composição, então isso não é exatamente novo.

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Imagem mostra o "astrocreto", um composto de concreto e fluidos humanos que pode servir como material de construção para colônias humanas em Marte
Cientistas britânicos conseguiram criar um composto quase duas vezes mais forte que o concreto comum, possivelmente descobrindo um bom material de construção para nossas colônias em Marte. Imagem: Universidade de Manchester/Divulgação

“Cientistas vêm tentando desenvolver tecnologias viáveis para produzirmos materiais similares ao concreto na superfície de Marte, mas nunca paramos para pensar que a resposta para isso poderia estar dentro de nós esse tempo todo”, disse Aled Roberts, o engenheiro de materiais que assina um dos estudos.

Basicamente, Roberts e equipe conseguiram criar um material, de certa forma, até mais poderoso que o concreto comum, usando regolitos simulados (nome dado à camada fina que cobre uma rocha) de Marte e da Lua, misturando nele uma proteína encontrada no sangue humano, além de compostos vistos na urina, lágrimas e suor. Isso porque pesquisas anteriores apontaram que os regolitos podem ser ótimos materiais de construção, mas nós ainda precisaríamos de algum material que os “colasse”.

Essa parece ser uma boa hora para ressaltarmos que a mistura não é “sangue ou urina”, mas “sangue e urina”. Ou seja, todos os ingredientes vão nessa “sopa”. Isto é, se você convencer os astronautas a serem doadores.

Apesar do tom estranho, a pesquisa tem um fundo de importância: não apenas o nosso concreto comum não se comporta bem no espaço, mas se e quando chegar a época de nos mudarmos para colônias em Marte ou na Lua, teremos que ser criativos – estimativas recentes afirmam que um simples tijolo custaria cerca de US$ 2 milhões (R$ 10,44 milhões) para ser transportado ao planeta vermelho.

Ou seja, cada grama na capacidade de carga de um foguete conta.

Imagem mostra o "astrocreto", um composto de concreto e fluidos humanos que pode servir como material de construção para colônias humanas em Marte
Usando material rochoso simulado de Marte e da Lua, mais uma combinação de plasma sanguíneo e substância vista na urina, cientistas conseguiram imprimir um bloco de concreto resistente a ambientes espaciais. Imagem: Universidade de Manchester/Divulgação

Por isso, seria bem mais conveniente e econômico se já tivéssemos os materiais em mãos (ou veias, ou canais urinários, ou no suor da pele) quando chegássemos lá.

Por exemplo, a ureia, uma enzima produzida no fígado, filtrada pelo nosso sistema excretor e eliminada na hora do “xixi”, ajuda a dar um efeito de plastificação do concreto, tornando-o menos poroso e, consequentemente, mais difícil de quebrar.

O material criado por Roberts e os outros cientistas, chamado “Astrocreto” (sim, “Astro” e “concreto”) faz uso da albumina, uma proteína encontrada no plasma sanguíneo, para “colar” os regolitos simulados, dando a eles uma resistência à compressão de até 25 megapascals – o concreto comum não passa de 22. Depois, eles adicionaram a ureia ao composto, ampliando a resistência para incríveis 39,7 megapascals.

“Essencialmente, a albumina vinda do soro humano produzido por astronautas in vivo [termo clínico para referir-se a um material dentro de um ser vivo] poderia ser extraído em uma rotina semi continuada, combinando-se com regolitos de Marte ou da Lua”, diz trecho do estudo. Trocando em números, a estimativa dos cientistas é a de que, ao longo de dois anos, seis humanos poderiam doar albumina suficiente para a criação de 500 kg de “astrocreto”.

Mas calma: não precisa começar a aliviar suas necessidades fisiológicas em um saco de cimento para vendê-lo à Nasa. Não apenas o experimento foi feito em ambiente controlado (com extrações clínicas, vale citar), ainda precisamos entender os efeitos da doação contínua de fluidos corporais em ambientes de gravidade alterada ou de alta radiação (duas características que descrevem Marte em detalhe).

Mais além, embora as pesquisas sejam promissoras, os cientistas acreditam que isso seria mais apto a alguma ação de curto prazo (por exemplo, na falta de outros materiais ou emergências). No futuro, eles esperam que tecnologias mais avançadas cumpram essa parte do estabelecimento de nossas colônias em Marte em escalas maiores.

Ainda bem.

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