O metaverso ainda é um assunto novo. E porque as palavras ganham sentido primeiro pelo seu uso compartilhado, e não porque alguma autoridade as institui, não existe ainda consenso certeiro sobre o significado desse nome – o metaverso.

Uma maneira de compreendê-lo, que considero adequada, é percebendo que aquilo que mais convencionalmente chamamos de “mundo digital” está adquirindo uma autonomia cada vez maior – em certa medida quase deixando de estar a serviço daquilo que vivemos no nosso “mundo material” (ou, poderíamos dizer, nosso “mundo analógico”), para constituir todo um outro universo existencial.

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Isso é resultado de um conjunto complexo de elementos, dos quais podemos listar, como exemplos: o desenvolvimento tecnológico; o crescimento das dinâmicas de investimento por meios digitais; a proliferação de moedas e produtos eletrônicos, assim como de mecanismos de dinamização de suas circulações, como a blockchain, a Web3 ou os NFTs; o enriquecimento das experiências virtuais de entretenimento; o envolvimento crescente das pessoas com as redes sociais; o envelhecimento de gerações que cresceram com acesso a videogames e agora impactam o mercado de jogos para adultos; o surgimento de gerações que cresceram com acesso à internet e parecem ter o psicológico adaptado a um tipo singular de envolvimento com as dinâmicas digitais; os interesses comerciais que veem um território de exploração a se abrir; a demanda por novidade num mundo gerido pela cultura do consumo; etc.

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O fato é que as dinâmicas que se dão no ambiente digital parecem ser cada vez menos um instrumento para a nossa vida cotidiana, e cada vez mais um espaço à parte, uma outra instância, para essa mesma vida. E isso justificaria que lhe atribuíssemos um nome novo, mais instigante do que aqueles que vínhamos utilizando, marcando assim uma espécie de ruptura com o nosso antigo entendimento do ambiente digital.

No entanto, a empolgação que o metaverso gera às vezes acaba extrapolando seu verdadeiro sentido. Porque, por mais didático que seja pensá-lo como um universo paralelo ao material, dificilmente se pode dizer que ele seja capaz de constituir (mesmo no longo prazo, ainda que no longuíssimo já não se saiba) uma espécie de sociedade paralela. Do ponto de vista empresarial, por exemplo, é importante entender que o metaverso é, sim, um mundo de oportunidades, mas ele não vai substituir o mundo analógico. E nem o desenvolvimento de uma economia largamente digital, com moedas, produtos e serviços puramente eletrônicos, vai substituir os movimentos da economia como um todo, cindindo-a em duas.

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Isso significa ao menos duas coisas – que são parecidas e se complementam, mas que é importante saber diferenciar:

1) Não é necessariamente verdade que todo tipo de empresa, produto e serviço precisa se adaptar ao metaverso, planejar uma migração para esse ambiente, preocupar-se com ele, como se participar dele fosse imprescindível para o mundo corporativo em geral. Continua sendo verdade que a comunicação alcança mais público e, muitas vezes, de uma maneira mais personalizada, no meio digital, o que faz dele um recurso essencial para o crescimento das marcas. Mas para muitos produtos e serviços, o espaço digital nunca precisará passar do que já é: um instrumento de comunicação, divulgação e inserção mais larga na sociedade.

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Dito de outro modo, aquilo que faz do metaverso algo diferente do que o mundo digital vinha sendo até agora abre um campo novo de exploração de experiências humanas, de produtos e serviços, mas são experiências, produtos e serviços que nem substituem os que existiam anteriormente, nem são necessariamente a sua nova forma. Ou seja, o metaverso abre um campo de exploração para investidores e para novas formas de comunicação social, mas não é uma questão que afeta todos os negócios, nem demanda atualizações de todas as áreas produtivas.

2) Ao mesmo tempo, uma vez que a economia vai passar cada vez mais pelos movimentos internos ao metaverso, dificilmente ela poderá ser compreendida ignorando o que acontece lá dentro. Portanto, para se ter uma compreensão das dinâmicas sociais, econômicas e culturais neste século, será necessário prestar atenção aos desenvolvimentos do metaverso e às formas como nossa vida vai acontecer também nesse espaço peculiar de interação.

Em outras palavras, o metaverso não impõe uma adaptação a todas as áreas corporativas, mas demanda atenção e entendimento para que se acompanhe os movimentos da economia.

De qualquer maneira, é importante compreender que o metaverso é um território a ser não apenas desbravado, mas construído. Não é um território a ser invadido, mas um a ser criado – há muito espaço para invenção; e nós ainda não conhecemos os limites desse lugar.

Por isso, não é possível afirmar que o metaverso já está aqui. É aos poucos que ele está despontando no horizonte. As primeiras explorações estão sendo feitas, principalmente com as manobras digitais de investimentos, a indústria do entretenimento e o comércio de produtos digitais, que vão estabelecendo as primeiras habitações nessa terra.

Como acontece com todo empreendimento de exploração e de invenção em tão larga escala, a comunicação será um fator fundamental em todo esse processo. Tanto mais por se tratar de um ambiente digital: a expansão das possibilidades do metaverso é, em si mesma, a expansão dos modos que temos de nos relacionar, pois em geral é disso que se compõe o ambiente digital – da possibilidade de construir eletronicamente uma nova forma daquilo que se dá naturalmente no espaço reduzido das nossas experiências. Deve-se compreender, então, que tanto para construir esse novo território, quanto para participar do que for feito aí, e quanto, ainda, para inventar o que é possível fazer nele, tudo será atravessado pela nossa capacidade de nos comunicar e desenvolver novas formas de o fazer.
Assim como o nome – metaverso – ganhará seu verdadeiro sentido no seu uso compartilhado, o universo que esse nome assinala vai depender daquilo que seu uso coletivo lhe conceder. Deve-se esperar um desenvolvimento das formas e da importância da comunicação organizacional que seja paralelo à invenção e crescimento (já inevitável) do metaverso.

*Hamilton dos Santos é diretor executivo da Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial)

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