A produção “O Mundo Depois de Nós” estreou na Netflix na última sexta-feira, 8, e conquistou a atenção do público por seu enredo com suspense apocalíptico e pela narrativa que desencadeia diferentes possibilidades sobre o fim dos EUA. Dentre as possíveis causas para o armagedom, a hipótese sobre uma ‘guerra cibernética’ é a mais discutida pelos personagens ao longo da trama.

Mas qual a possibilidade de um ataque digital massivo acontecer? E como as consequências desse evento, na vida real, se assemelhariam com aquelas apresentadas no longa? Quais ataques cibernéticos poderiam, de fato, desestabilizar a vida em sociedade e parar uma nação inteira? Conversamos com Lucas Gilbert e Arthur Igreja, especialistas em tecnologia, para entendermos melhor sobre essas hipóteses e contaremos tudo para você a seguir.

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Quais os ataques cibernéticos tratados no filme “O Mundo Depois de Nós” e como isso se assemelha a nossa realidade?

Imagem: Divulgação/Netflix

O longa-metragem narra a história de uma família que deixa o centro da cidade de Nova Iorque para passar alguns dias de férias em uma casa mais afastada nos arredores da metrópole. Contudo, o que antes pareciam eventos cotidianos quando se está longe da cidade, mais tarde se tornaram sinais de alerta para um iminente cenário de isolamento.

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Isso porque celulares sem sinal, internet que não funciona e GPS com defeito podem acontecer em determinados momentos, mas aviões caírem e navios atracarem pela incapacidade de comunicação e erros no funcionamento de software não são episódios que vemos todos os dias.

É desta forma que o filme introduz, a um ritmo muito lento, como estamos dependentes da tecnologia e o que poderia acontecer à vida humana caso todos os apetrechos digitais (e até veículos) fossem afetados por um ataque hacker massivo e começassem a desmontar tudo aquilo que consideramos normal em nossa rotina.

O Olhar Digital já publicou inúmeras matérias sobre diferentes tipos de invasões digitais e como elas podem afetar os usuários, contudo, com o avanço constante da tecnologia e a sua implementação cada vez mais essencial nas sociedades, chegou a hora de entender se é possível que todo este mundo digital também possa representar uma ameaça a civilizações inteiras, caso seja manipulado por terceiros.

Uma guerra cibernética pode acontecer de verdade?

guerra cibernética
Reprodução: Andy Manoske/Quora

No filme, é discutida a premissa de uma guerra cibernética ser a causadora dos problemas que acometeram os Estados Unidos. Desta forma, ao contrário de conflitos que exigem exércitos e armamento militar, uma guerra digital não apenas está em pé de igualdade com o avanço tecnológico hodierno, mas confere uma nova forma de desestabilizar uma nação remotamente.

Conversando com Lucas Gilbert, especialista em tecnologia e economista, e Arthur Igreja, especialista em tecnologia e mestre em negócios internacionais, o Olhar Digital tentou entender a semelhança entre os desastres digitais narrados no filme e como isso poderia ser reproduzido na vida real.

O que a gente vê no filme é muito improvável de acontecer [exatamente do mesmo jeito na vida real], porque exige uma quantidade de ataques muito grande e coordenado em todas as formas de comunicação e orientação. Não existe um lugar central, por exemplo, em que um hacker poderia invadir e controlar várias tecnologias ao mesmo tempo, de uma só vez, e derrubar todos os canais simultaneamente… E mesmo que um ataque coordenado fosse realizado, seria muito improvável que todos os sistemas caíssem ao mesmo tempo e continuassem assim.

Lucas Gilbert, especialista em tecnologia e economista

Arthur Igreja complementa:

O filme dá uma conotação de algo numa escala e em uma coordenação que nunca aconteceu na vida real. É possível? É. Já ocorreu de forma pontual e isolada. Porém, é altamente improvável [que ocorra exatamente como no filme] mas sim, poderia acontecer –– do ponto de vista de possibilidade. Já do ponto de vista de capacidade de execução, coordenação ou conseguir ter tamanho e controle sobre tantos sistemas ao mesmo tempo é altamente improvável.

Arthur Igreja, especialista em tecnologia e mestre em negócios internacionais

Aviões e navios podem ser controlados remotamente, como no filme?

Ilustração de hacker
(Imagem: Sergey Nivens/Shutterstock)

Na teoria, qualquer sistema online pode ser invadido e manipulado, mas quanto mais famosa e maior for a companhia responsável por ele, mais difícil será acessá-lo e permanecer online. Isso acontece porque em uma única rede há inúmeras camadas de segurança, então mesmo que uma destas camadas seja violada, haverá várias outras para penetrar. E enquanto os invasores tentariam derrubar a próxima parede de segurança, os técnicos da empresa fariam o possível para bloquear o acesso do cibercriminoso, pois não adianta invadir um sistema se você não consegue se manter ativo nele.

Dito isso, é possível notar que o filme tomou algumas licenças poéticas para refletir a atmosfera apocalíptica com muito suspense, no entanto, alguns acontecimentos descritos no longa ainda não podem ser realizados. É possível citar os aviões caindo como principal exemplo: as aeronaves tripuladas não podem ser completamente controladas de forma remota, o que significa que não é possível assumir o controle de um avião apenas para derrubá-lo; e o mesmo vale para os navios.

1 - O Mundo Depois de Nós_ quais ataques cibernéticos são possíveis na vida real
Divulgação: Netflix

Apesar disso, no caso dos aviões, as aeronaves possuem, sim, sistemas online que podem ser manipulados. Essa manipulação não pode controlar diretamente o curso do veículo aéreo, mas é possível interferir em um sistema chamado de telemetria: uma ferramenta online que capta dados em tempo real e os distribui para a torre de comando.

Dentre os dados disponíveis, estão presentes o rastreio do avião, percurso realizado, velocidade, temperatura, pressão, etc. Se estas informações forem interceptadas por terceiros, desligadas da torre de comando, e alteradas, isso pode confundir o piloto e dificultar sua orientação; além, é claro, de derrubar a comunicação dele. Isso não faria o avião cair, necessariamente, mas complicaria (e muito!) o trabalho do piloto, dificultando a aterrissagem.

Já para os carros elétricos, é verdade que os mais modernos disponibilizam algumas funções que podem ser controladas à distância. No entanto, tais funções correspondem a um funcionamento muito básico nos veículos, de maneira que ainda não é possível dirigir um Tesla pelo computador.

Então, não seria possível dirigir os carros de terceiros e fazê-los bloquear todas as estradas de uma cidade, como vimos no filme. Em contrapartida, os hackers podem realizar funções mais simples, como ligar e desligar o motor, abrir e fechar portas, e ligar os faróis.

A comunicação de todo o país pode cair ao mesmo tempo?

2 - O Mundo Depois de Nós quais ataques cibernéticos são possíveis na vida real
Reprodução: Fran Jacquier/Unsplash

Quanto à internet, sistemas de transmissão de rádio e TV, acesso ao GPS e sinal de telefonia, Lucas diz o seguinte:

Pontualmente, um jornal ou empresa telefônica, pode, sim, ser hackeado. O problema é realizar isso em todas as empresas ao mesmo tempo, o que é improvável, mesmo para um grande grupo de hackers. Isso também vale para satélites que fornecem orientação de GPS ou internet: mesmo que um caísse, haveria muitos outros ainda.

Lucas Gilbert, especialista em tecnologia e economista

De acordo com Arthur, esses ataques pontuais e isolados seriam possíveis porque, praticamente, qualquer dispositivo que “esteja online, conectado, que seja alcançável, rastreável, ele pode ter alguma brecha” e, por meio desta, é provável que qualquer dispositivo conectado seja hackeado. Apesar das invasões pontuais, atacar todos os sistemas de um país é improvável.

Imagem: BeeBright/Shutterstoc

O longa também deixa no ar a impressão de que o ataque cibernético foi causado por várias nações, como aquelas em que é falado o árabe e o chinês. Ou seja, como se os inimigos em comum dos EUA tivessem se unido em uma grande operação cibercriminosa para desestabilizar a nação norte-americana remotamente.

Segundo Lucas, uma pessoa jamais conseguiria fazer tudo isso sozinha, por isso que o filme mostra uma operação conjunta de várias nações. No entanto, invadir e manipular “absolutamente todos os serviços de um país e continuar online é algo que beira o impossível.”

Além disso, “para quebrar certos níveis de criptografia, é preciso uma capacidade computacional extraordinária”, Arthur continua. Também vale destacar que esses mesmos sistemas possuem uma vigilância constante, então, mesmo que um sistema fosse invadido, o cibercriminoso não ficaria fora do radar por muito tempo. Arthur também declara o seguinte:

Seria requerido um conhecimento muito profundo e diria que inédito, porque teria que explorar alguma brecha que até então não teria sido mapeada em muitos lugares ao mesmo tempo, e que desse essa condição de acesso quase irrestrito.

Arthur Igreja, especialista em tecnologia e mestre em negócios internacionais

E é possível se defender de um ataque poderoso, capaz de derrubar os serviços de uma empresa? Para Arthur, é possível se prevenir, “tanto que, não por acaso, a indústria da cibersegurança é uma das mais promissoras e uma das maiores áreas dentro do mundo da tecnologia.” Há diferentes técnicas que um time especializado de segurança pode implementar para mitigar uma invasão hacker e eliminá-la, porém, não há garantia de que um sistema seja totalmente imune.

E qual a razão por trás de uma guerra cibernética?

Imagem: trambler58/Shutterstock

Os motivos são vários e podem formar uma lista extensa. Contudo, é fácil perceber que da mesma forma como nações invadem umas às outras com armamento militar, um país pode fazer o mesmo, só que de maneira remota e digital. Isso pode ocorrer por retaliação a nações rivais, como vingança por acontecimentos passados, e até para lucrar com a desestabilização governamental alheia. É possível citar, por exemplo, os ataques cibernéticos que foram atribuídos à Coreia do Norte.

No ano de 2014, a empresa Sony Pictures planejava lançar um filme de comédia que satirizava o regime de governo de Kim Jong-un, o líder político e ditador da Coreia do Norte. Em censura, o grupo “Guardians of Peace” (Guardiões da Paz) hackeou os sistemas da Sony, abduziu e compartilhou centenas de dados confidenciais da empresa, como e-mails comprometedores, filmes e projetos não lançados, e informações sensíveis de atores que já trabalharam para o estúdio.

Convenientemente, o ataque foi atribuído ao país asiático, e pode ser considerado um exemplo de como os softwares podem ser utilizados, mesmo do outro lado do mundo, para desestabilizar uma empresa. Então, fica claro que mesmo companhias famosas podem ser vítimas e que se um ataque massivo for direcionado a um país, pode, sim, instalar um caos.

Como ficariam as cidades com a queda geral da internet?

3 - O Mundo Depois de Nós quais ataques cibernéticos são possíveis na vida real
Reprodução: FOX

Nesta hipótese, os eventos destacados no filme se comportam de maneira mais verossímil: os cidadãos seriam impossibilitados de adquirir informações em tempo real pelas redes sociais, os jornais não poderiam mais informar os seus leitores, e as ligações (por voz e vídeo) impediriam que as pessoas se comunicassem. Isso não apenas contribuiria para a construção de uma bolha, onde os cidadãos estariam imersos em incertezas e desinformações, como também eliminaria as chances de pedir por socorro em situações de emergências médicas.

Para além da comunicação, a queda da internet também afetaria o mercado de ações do país atingido. Isso implicaria na queda de credibilidade internacional, já que as outras nações não veriam esses acontecimentos com bons olhos; impossibilitaria que acionistas e correntistas visualizem seus ativos e pudessem movimentá-los; e ainda poderia desmantelar o capital financeiro de inúmeras empresas, o que contribuiria para problemas profundos na economia da nação –– algo que, posteriormente, também atingiria até mesmo as pessoas com vidas mais simples que não eram empresárias.

Se todos esses problemas forem somados e provocados em uma única cidade ou em um país inteiro, está claro que os cidadãos e os líderes políticos ficariam desnorteados em meio a ausência de controle sobre as catástrofes digitais.

Cena do filme O Mundo Depois de Nós com carros da Tesla
(Imagem: Reprodução/Netflix)

No entanto, diferente do filme, as pessoas ainda conseguiriam sair de suas casas e, posteriormente, de seu país. Isso porque, mesmo que os aviões não fossem seguros para pilotar devido à instabilidade dos dados na telemetria, ainda seria viável usar os carros convencionais para viajar até outras regiões e conseguir apoio de outras pessoas. Embora, os sistemas de saúde poderiam sofrer com a superlotação de emergências médicas, e o pânico generalizado na população certamente comprometeria a sua organização.

Mas, como os especialistas discutiram anteriormente, embora o impacto de ficar totalmente isolado do mundo, sem sistemas de comunicação e orientação, seja aterrorizante, é altamente improvável de acontecer. É possível hackear grandes empresas, mas, como Lucas Gilbert falou anteriormente, “beira o impossível” destruir de forma simultânea e imediata todo sistema de transmissão de um país inteiro.