A Épica Missão do Século XVIII que Revelou a Verdadeira Forma da Terra

Uma dessas histórias nos leva de volta ao século XVIII. Bem antes da invenção do GPS, dos aplicativos de entrega e até mesmo dos motoboys,
Por Marcelo Zurita, editado por Lucas Soares 10/07/2024 12h49
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Hoje, quando usufruímos de um GPS para nos guiar durante uma viagem, para localizar um restaurante por perto, ou mesmo para esperar confortavelmente em casa enquanto um entregador nos traz uma pizza, não fazemos ideia das histórias épicas que fundamentaram o nosso desenvolvimento científico e tecnológico. 

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Uma dessas histórias nos leva de volta ao século XVIII. Bem antes da invenção do GPS, dos aplicativos de entrega e até mesmo dos motoboys, uma expedição francesa levou uma comitiva de cientistas ao outro lado do planeta para uma missão épica: revelar a verdadeira forma da Terra. E isso foi feito utilizando os mais precisos instrumentos de medição existentes na época: as estrelas. 

A Missão Geodésica Francesa, realizada entre 1735 e 1743, foi uma das primeiras grandes expedições científicas do planeta e que marcou a história da ciência. Naquela época, a discussão sobre a verdadeira forma da Terra era muito mais que uma polêmica pseudocientífica na Internet. Conhecer a geometria do nosso planeta poderia ajudar a melhorar nossas técnicas de localização durante as navegações, aprimorar nossos mapas e resolver uma disputa entre dois grandes gênios da Ciência. 

Desde o final do Século XVII, duas teorias competiam para explicar a força da gravidade. De um lado, tínhamos o modelo do francês René Descartes, que defendia que a gravidade era causada por vórtices em um fluido universal chamado éter. Do outro lado, o inglês Isaac Newton defendia que a gravidade era uma força de atração que agia à distância entre corpos com massa. 

[ As teorias de René Descartes, à esquerda, e Isaac Newton, à esquerda, para a gravitação era uma disputa que poderia ser resolvida pela medição da forma da Terra ]
[ As teorias de René Descartes, à esquerda, e Isaac Newton, à esquerda, para a gravitação era uma disputa que poderia ser resolvida pela medição da forma da Terra ]

Se Descartes estivesse correto, a pressão dos turbilhões nos pólos seria menor, o que tornaria a Terra alongada como um melão. Já pela teoria de Newton a força gravitacional seria igual, mas a rotação do planeta tornaria a Terra achatada como uma tangerina. E foi por isso que a Acadêmia de Ciências de Paris resolveu decidir essa parada medindo a forma da Terra.

Para realizar esse feito, foram formadas duas expedições: uma para a Lapônia, a Terra do Papai Noel, e outra que cruzou o Oceano até o Equador na América do Sul. Tudo isso, utilizando os mais modernos recursos disponíveis na época: um navio fedorento, lombo de burro e sapatos franceses finíssimos para longas caminhadas na selva. 

Claro, dá pra imaginar que foi uma aventura cheia de contratempos. Mas foi mais que isso… 

A Missão Geodésica Francesa que embarcou para a América do Sul, contou com a participação de cientistas jovens, mas renomados, como Louis Godin, Pierre Bouguer e Charles Marie de La Condamine. A equipe partiu de navio em uma aventura épica, navegando da Europa até a América Central. Os cientistas cruzaram o Panamá no lombo de burros até chegar ao Oceano Pacífico onde embarcaram novamente para a América do Sul, mais precisamente para a região da Audiência de Quito, terras sob o domínio da coroa espanhola, e onde hoje é o Equador.

[ Pierre Bouguer (esquerda), Louis Godin (centro) e Charles Marie de La Condamine (direita) - Imagens: wikimedia.org
[ Pierre Bouguer (esquerda), Louis Godin (centro) e Charles Marie de La Condamine (direita) – Imagens: wikimedia.org

A ideia era simples: os astrônomos já conseguiam medir, com boa precisão, a latitude do local a partir das estrelas. Se conseguissem medir a distância equivalente a um grau de latitude, e repetissem essa medida tanto no equador quanto no pólo, poderiam determinar a forma da Terra. Se a distância fosse maior no Equador, nosso planeta seria alongado e se fosse menor, seria achatado nos pólos. E a região de Quito foi escolhida para a medida equatorial porque entre as opções disponíveis na América do Sul e na África, aquela é a que tinha a melhor estrutura. Mas não era tão boa assim…

Os destemidos cientistas deixaram as boulevards parisienses para se aventurarem num terreno montanhoso, sob a densa vegetação da selva, enfrentando um clima imprevisível, doenças desconhecidas e falta de recursos. Pra complicar ainda mais, as medições deveriam ser feitas a partir dos picos mais elevados da Cordilheira dos Andes. Os cientistas e seus assistentes passavam horas a fio realizando medições e observações astronômicas, muitas vezes em condições extremamente adversas. Seus instrumentos eram quadrantes, teodolitos e as estrelas, observadas com seus telescópios para determinar suas latitudes precisas. 

[ Mapa das triangulações realizadas pelos cientistas para medição da distância exata entre Quito e Cuenca - Imagem: Biblioteca Nacional da França ]
[ Mapa das triangulações realizadas pelos cientistas para medição da distância exata entre Quito e Cuenca – Imagem: Biblioteca Nacional da França ]

As medições de distância eram feitas por triangulação. A partir de uma distância conhecida e dos ângulos medidos entre 3 diferentes pontos de observação, era possível calcular as distâncias dos outros lados do triângulo. Dessa forma, partindo de uma primeira medição, era possível calcular todas as outras medidas por triangulação. O problema era que, para cada medida, era necessária uma aventura pela selva, subidas íngremes e escaladas geladas até o ponto de observação. E assim, o trabalho que planejaram concluir em um ano, levou levou longos sete anos para ser realizado. 

Depois de medir uma distância de quase 400 km sobre a Cordilheira dos Andes entre Quito e Cuenca, e de calcular com precisão as latitudes dos pontos de referência, os cientistas aventureiros franceses puderam enfim voltar para casa. Mas com seus recursos totalmente esgotados, apenas Bouguer retornou à Paris pela rota normal, pelo Panamá. Godin ficou por lá mesmo e La Condamine resolveu enfrentar mais uma aventura épica. Cruzou o Brasil navegando pelas águas do Rio Amazonas até o Atlântico, onde embarcou para a Europa a partir de Caiena. 

[ Mapa com a trajeto percorrido pela comitiva, da França ao Equador (na época, parte da Colônia Espanhola de Perou), e do retorno de La Condamine através da Amazônia - Créditos: Jean-Baptiste Bourguignon d'Anville e Delahaye Guillaume-Nicolas ]
[ Mapa com a trajeto percorrido pela comitiva, da França ao Equador (na época, parte da Colônia Espanhola de Perou), e do retorno de La Condamine através da Amazônia – Créditos: Jean-Baptiste Bourguignon d’Anville e Delahaye Guillaume-Nicolas ]

Apesar de todos os contratempos, a perseverança da equipe foi recompensada. Ao comparar as medidas da curvatura da Terra na região do Equador com as da expedição à Lapônia, os cientistas chegaram a uma conclusão: a Terra era levemente achatada nos pólos, confirmando a gravitação de Newton.

Os resultados daquela aventura científica à América do Sul tiveram um impacto profundo na ciência. A confirmação da teoria newtoniana revolucionou a Física e a Astronomia, abrindo caminho para novas descobertas sobre a força da gravidade e a dinâmica do Sistema Solar.

Aquela missão nos mostra como a Astronomia sempre esteve presente na história da humanidade, ajudando a responder algumas das questões fundamentais sobre o nosso lugar no Universo. A Missão Geodésica Francesa se mostrou uma incrível saga desses “jovens nerds” do século XVIII, que saíram de Paris deixando o conforto de seus lares e o aconchego de suas famílias, cruzaram o oceano e enfrentaram inúmeros desafios para revelar à humanidade a verdadeira forma da Terra.

Marcelo Zurita
Colunista

Pres. Associação Paraibana de Astronomia; membro da Sociedade Astronômica Brasileira; diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros – e coordenador regional do Asteroid Day Brasil

Lucas Soares
Editor(a)

Lucas Soares é jornalista formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e atualmente é editor de ciência e espaço do Olhar Digital.