MPT quer que Volkswagen pague multa milionária por trabalho escravo

Prática teria ocorrido durante as décadas de 1970 e 1980 em fazenda da montadora alemã
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli 05/12/2024 21:55, atualizada em 05/12/2024 23:01
Logo da Volkswagen molhado em um carro
(Imagem: J.K2507/Shutterstock)

Na última quarta-feira (4), a Volkswagen do Brasil foi processada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) por suposto trabalho escravo realizado em uma fazenda da montadora alemã.

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A propriedade localiza-se em Santana do Araguaia (PA) e a prática teria ocorrido durante as décadas de 1970 e 1980. Por conta disso, o órgão exige que a empresa assuma a responsabilidade e pague R$ 165 milhões por danos morais coletivos.

Fachada da fábrica da Volkswagen em Wolfsburg (Alemanha)
Subsidiária da montadora alemã mantinha fazenda onde abusos eram cometidos com trabalhadores (Imagem: geogif/Shutterstock)

Detalhes sobre a acusação contra a Volkswagen

  • Segundo investigações do MPT, a Fazenda Vale do Rio Cristalino, conhecida como Fazenda Volkswagen, foi o palco do suposto trabalho escravo;
  • A propriedade é da Companhia Vale do Rio Cristalino Agropecuária Comércio e Indústria (CVRC), subsidiária da VW;
  • Foram realizadas, entre 2022 e 2023, cinco audiências entre o órgão e representantes da montadora, visando chegar a um acordo quanto à reparação pelo ocorrido e assinatura de Termo de Ajuste de Conduta (TAC);
  • Segundo o MPT, a empresa alemã deixou as negociações em março do ano passado, não demonstrando interesse em firmar um acordo.

Na ação, ainda há um pedido para que a Volkswagen implemente medidas de combate ao trabalho escravo, tráfico de pessoas e demais violações de direitos humanos de seus trabalhadores em toda a sua cadeia de suprimentos.

Ha também um pedido de criação de mecanismos de coleta e apuração de denúncias para colaboradores da empresa e prestadores de serviços. Segundo a instituição, “não há dúvidas de que os responsáveis pelos ilícitos cometidos agiram deliberadamente, com motivação discriminatória, atacando sistematicamente um grupo social vulnerabilizado da população civil brasileira”.

O procurador do Trabalho Rafael Garcia Rodrigues foi o responsável pela coordenação das investigações conduzidas pelo Grupo Especial de Atuação Finalística (GEAF) do MPT, intitulada “Fazenda Volkswagen”.

Rodrigues afirmou que o órgão promoveu profunda e exaustiva análise acerca do ocorrido na fazenda entre 1970 e 1980. “Os documentos e depoimentos obtidos pela instituição comprovaram as gravíssimas violações aos direitos humanos na fazenda naquele período. Foi constatada a submissão dos trabalhadores à condição semelhante à escravidão por meio de jornadas exaustivas, condições degradantes de trabalho e servidão por dívida”, explicou.

Logo da Volkswagen em um salão de automóveis em Xangai (China)
Fatos ocorreram entre as décadas de 1970 e 1980 (Imagem: THINK A/Shutterstock)

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Entenda o caso

Em 2019, o MPT recebeu documentação que trazia dados de trabalhadores submetidos a condições degradantes de trabalho na propriedade. O material foi compilado pelo padre Ricardo Rezende Figueira, que, na época dos fatos, coordenava a Comissão Pastoral da Terra (CPT) para a região do Araguaia e Tocantins da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Assim, nasceu a GEAF “Fazenda Volkswagen”, na qual vários depoimentos indicaram que os trabalhadores da fazenda, que possui 140 hectares (do tamanho da cidade de São Paulo [SP]), viviam em situação degradante de trabalho, sofrendo violência e violações de direitos humanos.

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As investigações apontam que, entre tais violações, estavam falta de tratamento médico para malária, cárcere privado em razão de vigilância armada ou dívidas contraídas (servidão por dívidas) e alojamentos com condições insalubres, sem água potável e alimentação precária.

Os autos do processo mostram que, entre 1974 e 1986, a Volkswagen buscava funcionários em regiões distantes e com baixo desenvolvimento econômico via empreiteiros, conhecidos como “gatos”.

Eles prometiam falsos salários, com valores acima do que realmente seria pago ao trabalhador. Quando chegavam à fazenda, se deparavam com condições de trabalho precárias e sofriam redução salarial sem consentimento.

Por lá, eles eram obrigados a comprar produtos na cantina do local a preços altíssimos, com essa dívida interna sendo descontado do salário, fazendo com que muitos se endividassem e passassem a sofrer com o cárcere privado, pois não podiam deixar a fazenda com dívidas.

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E não era só assim que a empresa, supostamente, aumentava a dívida dos contratados: havia, ainda, contabilização incorreta do trabalho realizado, fraude no valor das mercadorias e adulteração de outros cálculos.

Além disso, quaisquer viagens, hospedagens, alimentações, ferramentas, de trabalho, utensílios domésticos e medicamentos utilizados pelos trabalhadores eram cobrados pela companhia.

Eles também eram informados que suas famílias recebiam um “abono”, aumentando ainda mais as dívidas que detinham e esticando sua permanência na propriedade da VW.

A entrada e saída da fazenda era controlada por escolta armada. Eles revistavam cada colaborador e confiscavam seus pertences. Quem tentava fugir era perseguido, capturado e, em alguns casos, até amarrados e espancados.

Testemunhas e vítimas alegam que havia tortura, assassinato e desaparecimentos, bem como ameaças e agressões diversas, no caso do funcionário não trabalhasse ou se o trabalho fosse considerado de má qualidade.

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Pernas de gado
Além de gado, Fazenda Volkswagen explorava madeira de forma ilegal (Imagem: Alexandre Costa Marques/Shutterstock)

Quanto aos alojamentos, os documentos indicam que eles não passavam de barracos precários, sem paredes e expostos ao mau tempo, animais selvagens e peçonhentos.

Não havia saneamento básico, tampouco higiene. Para se hidratarem, cozinharem e tomarem banho, eles precisavam recorrer à água de córregos contaminados.

Entre suas atividades, estavam, sobretudo, roçagem e derrubada da mata amazônica para formar pastos e exploração de madeira. Também eram obrigados a construir alojamentos, cozinhar, realizar tarefas domésticas e matar onças.

Essas péssimas condições de trabalho fizeram com que a maioria dessas pessoas contraíssem malária, sem serem submetidos ao tratamento médico adequado.

Durante os anos em que o trabalho escravo ocorreu, a Fazenda Volkswagen obteve recursos públicos e benefícios fiscais responsáveis por alavancar seu negócio de criação de gado, permitindo que se tornasse um dos maiores polos de atuação do setor. O MPT entende que isso acentua a necessidade de reparação à sociedade brasileira.

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Além disso, outros pontos que fazem o órgão entender que a montadora tem responsabilidade são que ela definia as áreas de trabalho, fiscalizava os serviços, aprovava os pagamentos aos “gatos” e controlava a entrada e saída de pessoas.

Também exigia que os “gatos” tivesses um livro de ocorrências, sempre checado e assinado por um fiscal da VW, o que mostra que a empresa sabia do que acontecia em sua fazenda.

Nessa linha, ex-trabalhadores afirmaram, durante a investigação, que a gerência da fazenda tinha ciência das condições degradantes de trabalho e da escravidão e cárcere privado em caso de dívida.

Relatórios de visitas e entrevistas com diretores da CVRC, também expuseram as situações degradantes. A empresa se omitiu ante as denúncias, negando o ocorrido e tentando encobrir sua responsabilidade.

Ainda nas investigações, a Volkswagen negou que sabia dos abusos e afirmou que eles eram de exclusividade dos “gatos”. Para tanto, a montadora baseou-se em argumentos técnicos para tentar se eximir de sua responsabilidade, alegando impossibilidade de resgatar documentos da época e prescrição dos crimes.

Mãos presas a uma corrente com cadeado
Segundo relatos e documentos, quem ficava devendo a empresa, não podia sair, configurando trabalho escravo (Imagem: woff/Shutterstock)

O que diz a Volkswagen

Em nota ao Olhar Digital, a Volkswagen afirmou o seguinte: “A Volkswagen do Brasil informa que ainda não foi formalmente notificada, razão pela qual não teve acesso ao teor da ação iniciada pelo Ministério Público Federal do Trabalho e não comenta processos em andamento.”

Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

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