IA é a esperança de caçadores de OVNIs nos EUA

Projeto de Harvard e Pentágono contam com a ajuda da IA para identificar OVNIs (e, quem sabe, extraterrestres)
Pedro Spadoni
Pedro Spadoni, editado por Bruno Capozzi 20/05/2025 11:38, atualizada em 21/05/2025 21:00

Determinada a aplicar rigor científico em sua busca por fenômenos anômalos não identificados (UAP, na sigla em inglês), a equipe do Projeto Galileo se comprometeu a vasculhar dados do céu inteiro, 24 horas por dia. E isso só é possível graças aos avanços recentes da inteligência artificial (IA).

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Vamos por partes. Primeiro, UAP. Nós, meros mortais, chamamos isso de objetos voadores não-identificados (OVNIs). Segundo, Projeto Galileo. Criado por Avi Loeb (astrofísico teórico e professor de Harvard), o projeto faz parte do Centro de Astrofísica Harvard & Smithsonian. Agora, a caça aos OVNIs.

Projeto de Harvard conta com a ajuda da IA para identificar OVNIs (e, quem sabe, extraterrestres)

O Projeto Galileo constrói uma espécie de detector de UAP/OVNIs. Para você ter ideia, o conjunto de equipamentos do projeto inclui:

  • Sensores acústicos;
  • Analisador de espectro de radiofrequência;
  • Contador de partículas carregadas;
  • Estação meteorológica com magnetômetro;
  • Várias câmeras (incluindo oito infravermelhas instaladas numa cúpula de 50 centímetros de diâmetro).
Montagem com fotos de equipamento do Projeto Galileo, de Harvard
(Imagem: Avi Loeb/Medium)

Laura Dominé e seus colegas pesquisadores estão dispostos a considerar todas as explicações para as anomalias que possam descobrir. Para eles, isso significa estar aberto à possibilidade de encontrar OVNIs com sinais de vida extraterrestre inteligente.

Mesmo pesquisas bem-intencionadas sobre UAPs ainda lidam com poucos dados. Ufólogos atuam mais como detetives do que como cientistas, examinando relatos fragmentados de testemunhas que muitas vezes não compreendem bem o que viram. O observatório do Projeto Galileo pretende mudar isso.

  • Como? Ampliando radicalmente a quantidade de dados sobre possíveis UAPs. E estabelecendo uma base científica para estudá-los.

Por dentro do Projeto Galileo

Os instrumentos do observatório coletam informações do céu sem parar. Mas nada interessante acontece na maior parte do tempo.

Por isso, o plano é que o software cumpra duas funções: 1) filtrar os fenômenos aéreos facilmente identificáveis; e 2) se concentrar nas anomalias, enviando-as para humanos analisarem.

Montagem com fotos de equipamento do Projeto Galileo, de Harvard
(Imagem: Avi Loeb/Medium)

Laura Dominé e Richard Cloete, o primeiro pós-doutorando contratado por Avi Loeb para o Projeto Galileo, usam programas de visão computacional de código aberto. É o mesmo tipo usado em carros autônomos. Mas o projeto traz obstáculos bem diferentes.

Obstáculos ao deixar IA ajudar na caça a OVNIs

Na abordagem tradicional de aprendizado de máquina, um modelo de IA aprende a reconhecer um gato após “ver” muitas imagens de gatos, por exemplo. Mas um UAP não é algo definido por características específicas. Isto é, pode ser algo jamais visto por alguém antes.

“Não sabemos o que estamos procurando”, resume Cloete, em entrevista à Bloomberg. “Não sabemos nada sobre seus movimentos. Esse é exatamente o objetivo do projeto – definir o que é um UAP.”

Foto estilo retrato de Avi Loeb, fundador do Projeto Galileo, de Harvard, com mãos em volta de maquete pequena do planeta Terra
(Imagem: Wikimedia Commons)

Qual foi a solução encontrada? Dominé, Cloete e o restante da equipe – três outros membros fixos no observatório e cerca de uma dúzia de voluntários – treinam o software para reconhecer o que é normal no céu. Ou seja, os modelos saberão o que é um gato ao aprender tudo o que não é um gato.

  • Cloete lidera a construção de bancos de dados abissais de imagens reais e geradas por computador de todos os objetos aéreos conhecidos.
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Esse acervo inclui imagens aéreas capturadas pelo observatório. Para complementar, Cloete usa um programa de animação de código aberto chamado Blender (sim, o mesmo usado em Flow, animação vencedora do Oscar). Para quê? Gerar milhares de imagens de aviões, drones, dirigíveis, pássaros.

As sessões de treinamento ocorreram em blocos de 12 a 24 horas no Cannon Compute Cluster de Harvard. É um conjunto de centenas de servidores interconectados e unidades de processamento gráfico (GPUs) otimizadas para IA, espalhados por três data centers na região.

Próximos passos

O objetivo é desenvolver software semelhante para todos os instrumentos. E, depois, sincronizá-los. Assim, o observatório inteiro iria reagir em tempo real ao detectar OVNIs e demais tipos de anomalia.

Seria assim: quando um dos sensores captasse algo interessante, uma câmera especial com zoom seria direcionada para aquele ponto do céu e o restante do observatório começaria a salvar dados.

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Montagem com fotos de equipe do Projeto Galileo, de Harvard
(Imagem: Avi Loeb/Medium)

Em janeiro, Laura publicou um artigo, coautorado por Cloete, Loeb, Biswas e outros, com base nos dados do conjunto de câmeras infravermelhas do observatório. O software conseguiu identificar 36% dos aviões captados pelas câmeras.

A pesquisadora prevê que o observatório Galileo deverá ser capaz de detectar anomalias com confiança, a partir de todos os seus sensores, dentro de um ou dois anos.

Contexto e outros projetos

Historicamente, procurar evidências de que alienígenas enviam algum tipo de tecnologia avançada para a Terra envolvia examinar fotos borradas ou levar a sério relatos de testemunhas sobre humanoides estranhos. Ou seja, é uma área infestada de fraudes e aberta a pensamentos ocultistas.

No entanto, em 16 de dezembro de 2017, uma reportagem do New York Times revelou que o Departamento de Defesa estudava secretamente os UAPs.

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(Imagem: PeopleImages.com – Yuri A/Shutterstock) – Imagem: PeopleImages.com – Yuri A/Shutterstock

Além disso, a disponibilidade de ferramentas de IA cada vez mais avançadas coincidiu com uma mudança cultural mais profunda. A guinada ocorreu por conta de uma série de divulgações do Departamento de Defesa dos EUA sobre suas próprias pesquisas em ufologia.

Com isso, a comunidade de acadêmicos respeitáveis caçadores de alienígenas, embora ainda pequena, não ficou mais confinada às margens da ciência.

  • Programas de pesquisa semelhantes ao Projeto Galileo surgiram no Wellesley College, na Universidade de Würzburg, na Alemanha, no Instituto Nórdico de Física Teórica e até no Pentágono.

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Governo dos EUA está de olho nos caçadores (sérios) de OVNIs enquanto… caça OVNIs também

O Pentágono acompanha de perto o Projeto Galileo. Até agora, o Escritório de Resolução de Anomalias em Todos os Domínios (AARO, na sigla em inglês) examinou mais de 1,8 mil relatos de avistamentos de UAPs, a maioria feita por membros das forças armadas.

Ao cruzar informações dos avistamentos com outras fontes de dados do governo, como registros meteorológicos e de voo, os pesquisadores determinaram que centenas desses casos têm explicações simples. Por exemplo: balões, nuvens, drones.

Ilustração de um disco voador
(Imagem: New Africa/Shutterstock)

O AARO colaborou com pesquisadores do Instituto de Pesquisa da Georgia Tech para desenvolver seu próprio conjunto de sensores e software, chamado Government Radar Multispectral Interrogator (ou só Gremlin, para facilitar).

A maioria dos detalhes do projeto permanece em segredo. Mas as poucas informações divulgadas mostram que o sistema consiste em equipamentos semelhantes aos do Projeto Galileo, de Harvard. São:

  • Radar;
  • Antenas de rádio e telescópios (coletam imagens visuais e infravermelhas, além de radiação eletromagnética).

Assim como a equipe de Harvard, o AARO desenvolve um software personalizado de aprendizado de máquina para detectar OVNIs. A ver quem será o primeiro a gritar: “já chegou o disco voador!”

Pedro Spadoni
Pedro Spadoni

Pedro Spadoni é jornalista formado pela Universidade Metodista de Piracicaba. Já escreveu para sites, revistas e jornal.

Bruno Capozzi
Bruno Capozzi

Bruno Capozzi é jornalista, mestre em Ciências Sociais e editor executivo do OD.

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