Regulamentar a IA na saúde é urgente e o Brasil já começou escrever esse capítulo

Descubra como o Brasil quer investir em IA para transformar a saúde pública — promessa de revolução ou risco de desigualdade?
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(Imagem: khunkornStudio/Shutterstock)

Por Michel Goya, diretor da ABSS e CEO da OPME Log

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Nos últimos anos, testemunhamos o surgimento de soluções de inteligência artificial (IA)
que revolucionam a forma como vivemos, trabalhamos e cuidamos da saúde.

No entanto, o avanço acelerado dessa tecnologia também traz a necessidade de criar salvaguardas,
marcos regulatórios e diretrizes éticas que garantam o uso responsável — especialmente em áreas sensíveis como a saúde. É nesse cenário que o recém-lançado Plano Brasileiro de
Inteligência Artificial (PBIA) representa um divisor de águas.

Aprovado em março de 2024 e com implementação projetada até 2028, o PBIA propõe um
investimento de R$ 23 bilhões para estruturar uma IA centrada no ser humano, com foco
na inclusão, soberania tecnológica e bem-estar social. É uma iniciativa ambiciosa que
coloca o Brasil na rota de países que reconhecem a urgência de um uso regulado e ético da
IA. Mas será que ela conseguirá, de fato, atender aos gargalos do Sistema Único de Saúde
(SUS) e da saúde suplementar?

A saúde é um dos eixos prioritários do plano. Com base na capilaridade do SUS e na
enorme quantidade de dados que ele gera, o PBIA prevê o uso da IA para diagnosticar
doenças com mais agilidade, interpretar exames de imagem, prever surtos
epidemiológicos e até personalizar tratamentos com base no perfil genético da população
brasileira.

Plano nacional de IA prevê investimentos na saúde para diagnósticos rápidos e tratamentos personalizados com base em dados do SUS (Imagem: khunkornStudio/Shutterstock)

Mas para que esse potencial se torne realidade, é preciso enfrentar desafios complexos:
interoperabilidade entre sistemas, fragmentação de dados, formação de profissionais
capacitados e um histórico de subfinanciamento crônico no setor público. Além disso, o
uso de IA no diagnóstico e no atendimento remoto esbarra em dilemas éticos: quem
responde por um erro cometido por uma IA? Até onde vai a autonomia do algoritmo
diante de uma decisão médica?

Marco ético e soberania digital

A ausência de regulamentação específica para IA em saúde sempre foi uma lacuna
preocupante. O PBIA propõe agora o desenvolvimento de marcos éticos e regulatórios que
garantam segurança aos usuários e transparência aos sistemas — aspectos cruciais para
preservar direitos fundamentais como a privacidade de dados sensíveis e a equidade no
acesso a tecnologias emergentes.

O plano nacional propõe regras éticas e uma “nuvem soberana” para garantir segurança, transparência e autonomia no uso da inteligência artificial na saúde. (Imagem: bixstock/Shutterstock)

Um dos pontos mais promissores é a criação de uma “nuvem soberana”, ou seja, uma
infraestrutura nacional de dados, protegida por padrões brasileiros de governança. Em um
mundo em que a maior parte das ferramentas de IA vem de empresas estrangeiras,
garantir soberania digital é também garantir autonomia clínica, científica e econômica.

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Ainda que o plano proponha uma abordagem ética e inclusiva, é necessário reconhecer os
riscos. Países com grandes desigualdades educacionais e territoriais, como o Brasil,
correm o risco de ver a IA aprofundar desigualdades em vez de reduzi-las. Em regiões
remotas onde faltam até conexões estáveis à internet, como garantir acesso à
telemedicina com suporte de IA?

Novo plano brasileiro de IA prevê diretrizes para uso seguro da tecnologia na saúde (Imagem: raker/Shutterstock)

Por isso, o plano também inclui metas para a formação de profissionais — não apenas
desenvolvedores, mas também profissionais da saúde com competências digitais. Sem
esse preparo, algoritmos bem treinados continuarão subutilizados em um sistema ainda
analógico.

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Um plano ambicioso, mas ainda um começo

O PBIA acerta ao propor diretrizes de longo prazo, investimento robusto e coordenação
multissetorial. Mas, para que a inteligência artificial seja, de fato, uma aliada da saúde
pública e do cidadão brasileiro, será preciso mais do que boas intenções. Será preciso
vigilância constante, participação ativa da sociedade civil e coragem regulatória. Afinal, a
inteligência artificial não é neutra. O que ela aprende — e a quem ela atende — depende
diretamente das escolhas políticas que fizermos hoje.

R
Rafael Magalhães

Pai, redator, e apaixonado por viagens e fotografia.

Bruno Capozzi
Bruno Capozzi

Bruno Capozzi é jornalista, mestre em Ciências Sociais e editor executivo do OD.

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