Pesquisa estuda se canetas emagrecedoras podem causar câncer

Estudos com roedores mostraram que doses elevadas de medicamentos GLP-1 causaram tumores na glândula, embora isso não tenha sido comprovado em humanos
Por Rodrigo Mozelli, editado por Vitoria Lopes Gomez 08/08/2025 21h26, atualizada em 11/08/2025 10h47
Canetas emagrecedoras Ozempic entrelaçadas em uma fita métrica
Produtos, como o Ozempic, viraram febre mundial; mas eles são mesmo seguros?(Imagem: Edugrafo/Shutterstock)
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O uso crescente de medicamentos para perda de peso, como Wegovy/Ozempic e Mounjaro (as chamadas canetas emagrecedoras), tem levantado preocupações que vão além do abastecimento.

Esses fármacos, conhecidos como agonistas do receptor GLP-1, são associados a efeitos colaterais gastrointestinais comuns, como náusea, vômito e constipação, além do chamado “Ozempic face” — uma aparência abatida e envelhecida decorrente de perda rápida de peso.

Preocupações mais graves incluem possíveis relações com doenças oculares, redução da libido e risco aumentado de certos tipos de câncer. Entre eles, o de tireoide é o mais citado.

Segundo Nadine Wehida, professora sênior em Genética e Biologia Molecular na Kingston University, e Ahmed Elbediwy, professor sênior em Bioquímica Clínica/Biologia do Câncer na Kingston University, em artigo publicado na The Conversation, estudos com roedores mostraram que doses elevadas de medicamentos GLP-1 causaram tumores na glândula, embora isso não tenha sido comprovado em humanos.

Caneta de Wegovy
Wegovy e Ozempic são fabricadas pela Novo Nordisk (Imagem: KK Stock/Shutterstock)

Além disso, uma pesquisa francesa de larga escala encontrou um possível vínculo, especialmente em pacientes que usaram o fármaco por mais de um ano. Por precaução, esses medicamentos não são recomendados para pessoas com histórico pessoal ou familiar de câncer de tireoide, ou condições genéticas que aumentem esse risco.

Também houve suspeitas de relação com câncer de pâncreas, motivadas por relatos iniciais de pancreatite — inflamação potencialmente fatal. Estudos atuais, contudo, não confirmaram um vínculo direto, segundo os autores.

Canetas emagrecedoras levantam debate: elas podem causar câncer?

  • O Wegovy e o Ozempic, cujo princípio ativo é a semaglutida, foram desenvolvidos originalmente para tratar diabetes tipo 2. Eles reduzem o apetite atuando em receptores no cérebro, além de influenciar células do intestino e tecido adiposo;
  • O Mounjaro, por sua vez, tem como princípio ativo a tirzepatida, que age também em outro receptor, o GIP, aumentando ainda mais a produção de insulina e melhorando a sensibilidade à hormona. Isso proporciona maior perda de peso que a semaglutida isoladamente;
  • Embora não haja, até o momento, associação confirmada entre a tirzepatida e risco elevado de câncer, ela também carrega o alerta para tumores de tireoide com base em estudos em animais;
  • Curiosamente, estudos preliminares em animais sugerem que a tirzepatida pode reduzir certos tumores, incluindo o de mama, mas as evidências ainda são iniciais e não aplicáveis a humanos.

Leia mais:

O que dizem as farmacêuticas dos medicamentos

O Olhar Digital procurou as assessorias de imprensa de Novo Nordisk (fabricante de Wegovy e Ozempic) e Eli Lilly (fabricante do Mounjaro).

Em nota ao OD, a Novo Nordisk reforçou que as possíveis reações adversas estão incluídas na bula dos medicamentos, e que uma combinação de fatores que vai além do uso dos fármacos pode causar as doenças associadas.

A farmacêutica também cita estudos realizados com milhares de pacientes que permitiram a conclusão de que as doenças não têm relação causal com a semaglutida. Já na Europa, o Comitê de Avaliação de Risco em Farmacovigilância (PRAC), vinculado à Agência Europeia de Medicamentos (EMA), recomendou a adição da Neuropatia Óptica Isquêmica Anterior não Arterítica como uma “reação adversa medicamentosa muito rara” – e a empresa vai atualizar as bulas.

Ainda assim, a Novo Nordisk afirma que, de acordo com os dados, o “perfil de risco-benefício da semaglutida continua favorável”.

Ao fundo, embalagem de Mounjaro desfocada; à frente, caneta de Mounjaro em pé
Mounjaro tem fabricação da Eli Lilly (Imagem: oleschwander/Shutterstock)

Obesidade já é um fator de risco conhecido

Por outro lado, a obesidade é um fator de risco conhecido para vários cânceres, como os de mama, cólon, fígado e útero. Medicamentos GLP-1, ao promoverem perda de peso significativa e melhora metabólica, podem reduzir, indiretamente, essas chances.

Os autores apontam que estudos populacionais apontaram taxas menores de cânceres relacionados à obesidade entre usuários desses medicamentos em comparação a outras terapias, embora ainda não esteja claro se o efeito vem da ação do fármaco ou da perda de peso.

O quadro atual é considerado “tranquilizador, mas com ressalvas“. O risco geral de câncer associado aos GLP-1 e à tirzepatida parece baixo, dizem os autores. Ainda assim, não são recomendados para pessoas com determinadas condições endócrinas ou histórico de tumores relacionados a hormônios.

A dupla de professores conclui o artigo reiterando que as injeções para emagrecimento não são isentas de risco, mas “oferecem potencial significativo”. “Resta saber se são uma solução duradoura ou apenas mais um capítulo na longa história das tentativas de perder peso”, finalizou.

Pessoa obesa transpassando uma fita métrica por sua barriga
Autores do artigo relembram: obesidade é grande fator de risco para desenvolvimento de câncer (Imagem: kwanchai.c/Shutterstock)

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

Vitória Lopes Gomez é jornalista formada pela UNESP e redatora no Olhar Digital.