Não precisa de estrela: este planeta usa belas auroras como aquecedor natural

Auroras em planeta isolado revelam segredos sobre atmosferas em mundos fora do Sistema Solar, segundo estudo publicado nesta sexta-feira (26)
Pedro Spadoni
Pedro Spadoni 26/09/2025 13:27, atualizada em 29/09/2025 21:35

Astrônomos usaram o Telescópio Espacial James Webb para observar um planeta isolado chamado SIMP-0136, localizado a cerca de 20 anos-luz da Terra. Diferente dos planetas do nosso Sistema Solar e de outros sistemas estelares, ele não orbita uma estrela e por isso é considerado um planeta solitário.

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As observações revelaram um fenômeno surpreendente: o planeta apresenta auroras tão intensas que chegam a aquecer sua atmosfera superior. Na prática, significa que a energia das auroras esquenta as camadas mais altas da atmosfera, como se fosse um aquecedor natural.

Trata-se de um efeito comparável às luzes polares da Terra e de Júpiter, mas em escala muito maior. Esse detalhe ajuda os cientistas a entender melhor como atmosferas funcionam em planetas fora do Sistema Solar.

Auroras que aquecem planetas fora do Sistema Solar

O estudo, publicado nesta sexta-feira (26) na revista Astronomy & Astrophysics, é o mais detalhado já feito sobre o SIMP-0136.

A pesquisa mostra que a variabilidade do planeta não está ligada apenas a nuvens ou à composição química de sua atmosfera, mas também a um aquecimento direto provocado pelas auroras – algo nunca observado antes em objetos desse tipo.

O que é o SIMP-0136

O SIMP-0136 é um planeta isolado, com cerca de 13 vezes a massa de Júpiter, localizado a aproximadamente 20 anos-luz da Terra.

Ilustração de conceito artístico sobre o planeta SIMP-0136
Representação artística do planeta solitário SIMP-0136 (Imagem: Joseph Olmsted/NASA, ESA, STScl)

Por não orbitar uma estrela, ele não se encaixa na definição clássica de exoplaneta. Astrônomos o classificam como uma anã marrom – um corpo mais massivo que planetas (13 a 80 vezes a massa de Júpiter), capaz de produzir energia por fusão de deutério, uma reação nuclear típica de objetos intermediários entre planetas e estrelas.

Apesar da distância, o SIMP-0136 é relativamente brilhante no céu do hemisfério norte, o que facilita seu estudo. Além disso, tem um período de rotação muito curto, de apenas 2,4 horas.

Essas características fazem dele um alvo ideal para pesquisas que buscam entender o funcionamento de atmosferas em planetas fora do Sistema Solar.

Como o James Webb fez a descoberta

O Telescópio Espacial James Webb tem instrumentos sensíveis o bastante para detectar variações sutis na luz de objetos distantes.

No caso do SIMP-0136, os cientistas acompanharam as mudanças no brilho do planeta enquanto ele completava sua rápida rotação. A partir dessas variações, foi possível medir alterações de temperatura, cobertura de nuvens e até a composição química da atmosfera.

Representação artística do Telescópio Espacial James Webb
Representação artística do Telescópio Espacial James Webb investigando o cosmos (Imagem: 24K-Production/Shutterstock)

Segundo os pesquisadores, o Webb registrou mudanças de temperatura de menos de 5°C num ambiente que ultrapassa os 1.500°C. Essa precisão inédita permitiu relacionar as variações a fenômenos atmosféricos semelhantes a tempestades gigantes, como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter.

Também foi possível observar que a cobertura de nuvens no planeta é feita de grãos de silicato – semelhantes à areia da Terra – e se mantém surpreendentemente constante.

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“Essas são algumas das medições mais precisas já feitas da atmosfera de um objeto fora do Sistema Solar”, disse Evert Nasedkin, pesquisador da Trinity College Dublin e autor principal do estudo. “Conseguimos ver mudanças sutis que nos ajudam a entender a dinâmica desse planeta isolado, num nível de detalhe nunca alcançado antes.”

Auroras que aquecem a atmosfera

Além das variações de brilho e temperatura, o James Webb revelou algo inédito: o SIMP-0136 apresenta auroras intensas, semelhantes às luzes polares da Terra e de Júpiter.

Júpiter
O planeta SIMP-0136 tem auroras intensas, semelhantes às luzes polares de Júpiter (Imagem: Artsiom P/Shutterstock) – Imagem: Artsiom P/Shutterstock

No caso desse planeta, porém, elas são tão fortes que chegam a aquecer a atmosfera superior, um efeito jamais registrado fora do Sistema Solar.

Na Terra, as auroras são fenômenos esporádicos, causados pela interação do vento solar com o campo magnético do planeta. Já em Júpiter, elas são permanentes, alimentadas tanto pelo campo magnético do gigante gasoso quanto pela interação com suas luas.

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“As auroras de Júpiter são um espetáculo contínuo, e o que vemos no SIMP-0136 sugere que processos parecidos podem estar acontecendo em outros mundos isolados”, explicou Johanna Vos, professora de Astrofísica na Trinity College Dublin.

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Por que importa

O estudo do SIMP-0136 mostra que mesmo mundos que não orbitam estrelas podem ter atmosferas dinâmicas e fenômenos complexos, como auroras capazes de alterar seu clima.

Para os cientistas, entender esses processos é essencial porque ajuda a montar um quadro mais completo do comportamento de planetas e anãs marrons espalhados pela galáxia.

Além disso, as técnicas usadas no estudo abrem caminho para análises futuras de exoplanetas. “Combinando modelos avançados e os dados do James Webb, conseguimos pela primeira vez observar a ‘meteorologia’ de um planeta isolado”, destacou Nasedkin.

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Segundo ele, compreender esses mecanismos é um passo importante para, no futuro, investigar até mesmo mundos rochosos e possivelmente habitáveis fora do Sistema Solar.

(Essa matéria usou informações de: NASA e Trinity College Dublin.)

Pedro Spadoni
Pedro Spadoni

Pedro Spadoni é jornalista formado pela Universidade Metodista de Piracicaba. Já escreveu para sites, revistas e jornal.

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