Airbus anuncia recall massivo da família A320 após incidente

Medida afeta mais da metade da frota global do modelo e ameaça provocar fortes impactos
Rodrigo Mozelli28/11/2025 18h39, atualizada em 28/11/2025 21h04
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A Airbus determinou reparos imediatos em cerca de seis mil aeronaves da família A320, em uma das maiores ações de recall da fabricante europeia em seus 55 anos de história. A medida, divulgada nesta sexta-feira (28), afeta mais da metade da frota global do modelo e ameaça provocar fortes impactos durante um dos fins de semana de viagem mais movimentados nos Estados Unidos.

Segundo a Airbus, a decisão foi motivada pela análise de um “evento recente” que revelou que intensa radiação solar pode corromper dados críticos ao funcionamento dos controles de voo.

Logo da Airbus na fachada de um prédio com um avião voando acima da edificação
Esse é o maior recall da história da Airbus (Imagem: Coby Wayne/Shutterstock)

A companhia afirmou ter identificado um número significativo de aeronaves potencialmente afetadas. “A Airbus reconhece que essas recomendações levarão a interrupções operacionais para passageiros e clientes. Pedimos desculpas pelo inconveniente causado e trabalharemos de perto com os operadores, mantendo a segurança como nossa prioridade número um e absoluta”, declarou a empresa em nota.

Impacto global e possível paralisação

  • A frota mundial da família A320 conta com cerca de 11,3 mil aeronaves em operação, incluindo 6.440 unidades do modelo A320 — que voou pela primeira vez em 1987 — e que, recentemente, superou o Boeing 737 como o jato mais entregue do mundo;
  • No momento da emissão do alerta, aproximadamente três mil aviões do modelo estavam no ar;
  • A correção envolve principalmente a reversão para uma versão anterior do software, procedimento que deve ser realizado antes que as aeronaves possam voar novamente, segundo um boletim enviado às companhias aéreas e visto pela Reuters;
  • Fontes do setor afirmam que cerca de dois terços das aeronaves afetadas podem enfrentar paralisações breves para a atualização, embora mais de mil jatos também possam exigir substituição de hardware.

O maior operador mundial da família A320, a American Airlines, informou que cerca de 340 dos seus 480 aviões precisarão do reparo. A companhia estima concluir a maior parte do trabalho até sábado (29), com cerca de duas horas necessárias para cada aeronave. Outras empresas, como Lufthansa, IndiGo e easyJet, também retirarão temporariamente aeronaves de operação para realizar os ajustes.

A Avianca, da Colômbia, declarou que mais de 70% de sua frota — cerca de 100 aeronaves — foi afetada, provocando significativa interrupção em suas operações pelos próximos dez dias. A empresa chegou a suspender temporariamente as vendas de passagens para viagens até 8 de dezembro.

American Airlines anuncia investimento na Vertical Aerospace para aeronaves ‘carbono zero’. Imagem: GagliardiPhotography / Shutterstock.com
American Airlines deve ser a mais afetada, pois possui a maior frota de A320 do mundo (Imagem: GagliardiPhotography/Shutterstock)

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Origem do problema e investigação da Airbus

Fontes da indústria indicam que o incidente que motivou a ação ocorreu em 30 de outubro, envolvendo um voo da JetBlue de Cancún (México) para Newark (EUA). A aeronave sofreu uma queda brusca de altitude após um problema no controle de voo, resultando em ferimentos a vários passageiros. O jato fez um pouso de emergência em Tampa, na Flórida (EUA). O episódio desencadeou uma investigação da Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA, na sigla em inglês). JetBlue e a FAA não comentaram o caso.

O boletim interno da Airbus atribuiu o problema a um sistema responsável por transmitir comandos ao profundor, que controla o ângulo de nariz da aeronave, bem como aos ailerons, que atuam na rotação do avião em tono de seu eixo transversal, a famosa inclinação lateral.

O equipamento é fabricado pela francesa Thales, que afirmou, em resposta à Reuters, que o computador “cumpre as especificações da Airbus” e que a funcionalidade afetada é sustentada por um software que “não está sob responsabilidade da Thales“.

Autoridades aeronáuticas acionadas

A Agência de Segurança da Aviação da União Europeia (EASA, na sigla em inglês) emitiu, nesta sexta-feira (28), uma diretriz emergencial obrigando a realização dos reparos, enquanto a FAA estadunidense deverá adotar medida semelhante.

A Airbus informou ter trabalhado proativamente com autoridades de aviação para solicitar ações preventivas imediatas por meio de um Alert Operators Transmission (AOT), que incluirá proteções de software e/ou hardware.

Lançado em 1984, o A320 foi o primeiro jato comercial de grande porte a introduzir comandos computadorizados fly-by-wire. O modelo concorre diretamente com o Boeing 737 MAX, que sofreu um escrutínio global após acidentes fatais em 2018 e 2019 ligados a falhas no software de controle de voo.

Falha foi identificada primeiramente em um voo da JetBlue (Imagem: Coby Wayne/Shutterstock)

Com oficinas de manutenção já sobrecarregadas por longas filas de inspeção e reparos de motores, a nova ação da Airbus deve aumentar a pressão sobre as companhias aéreas, que tentam equilibrar segurança e operações em um período de alta demanda global por viagens.

E o Brasil?

No Brasil, duas companhias operam com o modelo: a Latam e a Azul. Em comunicados enviados ao g1, ambas afirmaram que não serão afetadas pelo recall. O Olhar Digital pediu um posicionamento oficial das empresas.

Em nota enviada ao OD, a Azul confirmou que nenhum modelo A320 da empresa terá que passar por recall e reforçou que “a operação da frota segue dentro da normalidade“.

A Latam também se posicionou, afirmando que algumas afiliadas, como a da Colômbia, poderão ter “impacto muito limitado” com o recall — mas o Brasil não está nessa lista. “As afiliadas do grupo LATAM, no contexto das medidas comunicadas pela Airbus e pela Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA), que afetam certas aeronaves da Família A320, terão até o momento um impacto muito limitado em suas operações, prevendo-se apenas o cancelamento de dois voos da afiliada da Colômbia. As demais afiliadas, incluindo o Brasil, não serão afetadas pela medida“, explicou, por meio de nota.

A seguir, leia a nota completa da Latam enviada ao OD:

As afiliadas do grupo LATAM, no contexto das medidas comunicadas pela Airbus e pela Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA), que afetam certas aeronaves da Família A320, terão até o momento um impacto muito limitado em suas operações, prevendo-se apenas o cancelamento de dois voos da afiliada da Colômbia. As demais afiliadas, incluindo o Brasil, não serão afetadas pela medida.

Os passageiros dos poucos voos impactados serão contatados diretamente e receberão alternativas de viagem para iniciar seu voo dentro de uma janela máxima de 24 horas em relação ao voo original, ou poderão optar pela mudança de data ou reembolso sem custo da passagem, na seção “Minhas Viagens” de LATAM.com.

As afiliadas do grupo LATAM lamentam os inconvenientes que essa situação, alheia à sua vontade, possa causar e agradecem a compreensão dos passageiros enquanto essas medidas — fundamentais para manter os mais altos padrões de segurança operacional — são implementadas. As afiliadas do grupo continuarão monitorando a situação e comunicarão qualquer atualização relevante.

Latam, em nota oficial enviada ao Olhar Digital

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.