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Na Zona de Exclusão de 30 km ao norte da Ucrânia, em torno da usina nuclear de Chernobyl, milhares de animais circulam por florestas, cidades abandonadas e áreas industriais degradadas. Entre eles, cerca de 900 cães descendentes de animais de estimação deixados para trás após o desastre nuclear vivem hoje num ecossistema moldado por um dos piores acidentes da história.
O caso dos “cães azuis” de Chernobyl
- Recentemente, três cães foram vistos com a pelagem azulada, o que gerou especulações sobre mutações genéticas ou efeitos diretos da radiação;
- A investigação do Dogs of Chornobyl, programa do Clean Futures Fund que, desde 2017, fornece alimentação, cuidados veterinários e apoio científico, esclareceu o episódio;
- “O corante azul provavelmente veio de uma cabine sanitária [banheiro químico] tombada, onde os cães rolaram nas fezes, como eles costumam fazer”, disse Timothy A. Mousseau, conselheiro científico do Dogs of Chornobyl e biólogo da Universidade da Carolina do Sul, em publicação nas redes sociais. “A coloração era apenas um sinal de comportamento anti-higiênico”;
- Exames veterinários posteriores não encontraram doença relacionada à radiação, anomalias estruturais nem indícios de dano genético nos animais.

O que os estudos genéticos encontraram
Equipes lideradas por Mousseau analisaram a estrutura genética de 302 cães — três grupos que vivem dentro do complexo da usina e outros a 15 km e 45 km do local. Em comparação com populações domésticas da Ucrânia e da Europa, os cães da Zona de Exclusão se mostraram geneticamente distintos, resultado do isolamento.
Os pesquisadores identificaram 391 “loci fora do padrão” (regiões do genoma) onde as diferenças entre os grupos foram maiores do que o esperado ao acaso e mapearam mais de 50 genes candidatos nas proximidades, relacionados a reparo de DNA, função imune e resposta ao estresse.
No entanto, um estudo subsequente da mesma equipe não encontrou aumento da taxa geral de mutações nos cães do entorno da usina em relação aos de áreas mais externas da zona, indicando que não há evidência de adaptação genética impulsionada pela radiação nas áreas mais contaminadas.
Ancestralidade e estrutura familiar
Houve diferenças claras de ancestralidade entre os cães do complexo industrial e os da cidade. Perto da usina, 9% dos cromossomos foram associados a linhagens de pastores e cães de trabalho.
Mais da metade dos marcadores genéticos “tipo pastor” aparece ali em frequências mais altas (5% a 10% dos cromossomos), contra 1% a 5% na população urbana. Já os marcadores “pinscher” (ligados a dobermann e mini pinscher) surgem em níveis baixos e semelhantes nos dois grupos, sugerindo mistura recente ou ancestralidade compartilhada.
Os resultados são compatíveis com o uso, na era soviética, de pastores alemães e pastores do leste europeu como cães de guarda, militares e de segurança em instalações industriais — animais que provavelmente ficaram na região após a evacuação.
O levantamento identificou 15 famílias geneticamente distintas entre os 302 cães, de pares aparentados (como mãe e filhote) a agrupamentos com mais de dez indivíduos. Algumas famílias se estendem por diversos pontos da zona, o que indica deslocamento para acasalamento e ajuda a manter alguma diversidade genética em uma população isolada.

Cientistas não observaram novas adições relevantes à comunidade canina desde 1986. Desde 2022, o Dogs of Chornobyl conduz campanhas amplas de esterilização e vacinação, o que sugere que a população atual esteja próxima do limite sustentável.
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Radiação, adaptação e efeitos na fauna de Chernobyl
Embora os “cães azuis” tenham chamado atenção, o conjunto de pesquisas indica um quadro mais amplo e complexo.
Estudos com pequenos mamíferos (como arganazes e diferentes espécies de camundongos) não detectaram redução populacional em áreas mais contaminadas; impactos individuais da radiação parecem ser compensados pela ausência de humanos, predadores e perturbações agrícolas.
Análises de microbioma intestinal, em 2021, mostraram que o ambiente local influencia mais do que a radiação, com alterações relacionadas à radiação sendo sutis e inconsistentes entre espécies.
Há evidências pontuais de efeitos negativos, como o aumento de catarata em aves relatado por Mousseau em 2015. Porém, a maior parte dos trabalhos não encontra sinais de evolução adaptativa ampla em plantas, animais e microrganismos da zona.
Uma exceção possível diz respeito a bactérias em asas de aves — organismos com ciclos reprodutivos muito rápidos, que permitem milhares de gerações desde o acidente, ao contrário de cães e mamíferos de maior porte.
Segundo Mousseau, as áreas mais radioativas mostram impactos negativos significativos em vários organismos, enquanto regiões relativamente “frias” são pouco afetadas. Dentro dos 2.600 km² da Zona de Exclusão de Chernobyl, apenas cerca de 30% do território é considerada perigosa; o restante forma um mosaico de níveis de radiação, resultado dos ventos e da chuva no momento do acidente.
Na ausência de presença humana intensa, a região abriga hoje uma vida selvagem abundante, com lobos, linces, javalis, alces, cervos, raposas, bisões-europeus e até o cavalo-de-Przewalski.
E os lobos?
A ideia, divulgada em 2024 a partir de um resumo de conferência, de que lobos da região seriam “imunes” ao câncer, não encontra suporte científico consolidado.

Mousseau ressalta que não há publicação revisada por pares que comprove a hipótese e que o tamanho reduzido da população inviabiliza estudos epidemiológicos robustos. O aumento no número de lobos parece estar ligado principalmente à ausência de humanos e de caça — o que não exclui impactos negativos da contaminação radioativa.