O passado dos gatos estava errado: DNA revela como esses felinos realmente chegaram à Europa

Estudo internacional desmonta teoria clássica e mostra que rotas comerciais do norte da África levaram os primeiros gatos domésticos ao continente
Layse Ventura29/11/2025 10h38
O homem acaricia o rosto do gato
O homem acaricia o rosto do gato. / Crédito: LL_studio (Shutterstock)
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Um novo estudo internacional, publicado na revista Science, acaba de reescrever a história dos gatos. Pesquisadores analisaram genomas de felinos modernos e antigos e concluíram que os primeiros gatos domésticos só chegaram à Europa há cerca de 2 mil anos, trazidos do norte da África por rotas de comércio no Mediterrâneo.

A descoberta contraria teorias de décadas, baseadas em DNA mitocondrial, que sugeriam a presença de gatos domesticados no continente desde o período Neolítico, entre 6 e 7 mil anos atrás.

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  • Gatos domésticos só aparecem na Europa com o Império Romano.
  • Amostras mais antigas do continente eram de gatos selvagens, não domesticados.
  • Houve duas ondas de introdução vindas do norte da África.
  • Comércio marítimo e rotas militares facilitaram a dispersão.
  • Egito e outras regiões norte-africanas tiveram vários “berços” de domesticação.

Gatos viajantes: como eles cruzaram o Mediterrâneo e chegaram à Europa

A equipe liderada pelo paleogeneticista Claudio Ottoni, da Universidade de Roma Tor Vergata, analisou DNA nuclear – muito mais preciso para rastrear linhagens – de restos felinos de 97 sítios arqueológicos. A reconstrução genética mostrou que gatos pré-históricos encontrados na Europa eram, na verdade, gatos selvagens europeus ou híbridos, e não antecessores dos gatos domésticos atuais.

Em vez de acompanhar os primeiros agricultores do Oriente Próximo, como sugeriam estudos antigos, os gatos que deram origem às populações domésticas europeias vieram de populações norte-africanas, chegadas ao continente por volta do século I d.C. “Mostramos que os primeiros genomas de gatos domésticos na Europa surgem apenas no período imperial romano”, disse Ottoni.

Crânio e ossos de gato encontrados no sítio arqueológico Parking 58, em Bruxelas, utilizados na pesquisa
Crânio e ossos de gato encontrados no sítio arqueológico Parking 58, em Bruxelas, utilizados na pesquisa. Imagem: Instituto de Ciências Naturais / Divulgação

A pesquisa também revela uma primeira onda migratória: cerca de 2.200 anos atrás, gatos selvagens do noroeste da África foram levados para a Sardenha, originando a atual população selvagem da ilha. Porém, essa linhagem não está ligada aos gatos domésticos modernos, que chegaram em uma segunda onda, distinta e posterior.

A arqueozoologista Bea De Cupere, do Royal Belgian Institute of Natural Sciences – responsável por parte dos ossos analisados – resume a mudança histórica:

“Temos que reescrever a narrativa clássica. Não foram os primeiros agricultores do Oriente Próximo que trouxeram gatos para a Europa, mas sim redes de comércio muito posteriores.”

Egito, cultos sagrados e navios cheios de grãos e ratos

O estudo reforça o papel central do Egito faraônico, onde gatos eram venerados, mumificados e associados à deusa Bastet. Essa relação simbólica ajudou a aproximar felinos e humanos muito antes de sua chegada à Europa.

Mas o Mediterrâneo foi o verdadeiro acelerador da expansão. Navios carregados de grãos – um paraíso para ratos – precisavam de bons caçadores a bordo. “Os gatos provavelmente viajavam em navios graneleiros como eficientes caçadores de ratos, mas também como animais valorizados pela simbologia religiosa”, afirmou De Cupere.

gato filhote dormindo abraçado em uma coberta
Da próxima vez que você olhar para o seu gato, lembre-se: os antepassados dele cruzaram o Mediterrâneo há só 2 mil anos. (Imagem: freepik/Freepik)

De acordo com a agência de notícias Reuters, restos felinos encontrados em antigos acampamentos militares romanos confirmam que o Exército romano ajudou a espalhar gatos pelo continente, levando-os a fortes, portos e entrepostos comerciais.

Uma história mais complexa — e ainda em construção

O trabalho sugere que não houve um único centro de domesticação, mas múltiplos núcleos no norte da África. Fatores como rituais religiosos, comércio intenso e necessidades práticas formaram uma combinação que permitiu ao gato se espalhar pelo mundo.

“Queremos entender melhor como ecologia, religiosidade e comércio atuaram juntos para o sucesso extraordinário dos gatos”, disse De Cupere.

A conclusão é clara: a história dos gatos domésticos na Europa não começa em aldeias neolíticas, mas muito depois, impulsionada por rotas marítimas e pela profunda relação entre humanos e felinos no norte da África.

Layse Ventura
Editor(a) SEO

Layse Ventura é jornalista (Uerj), mestre em Engenharia e Gestão do Conhecimento (Ufsc) e pós-graduada em BI (Conquer). Acumula quase 20 anos de experiência como repórter, copywriter e SEO.