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Desde que foi descoberto, o cometa interestelar 3I/ATLAS – apenas o terceiro objeto já confirmado vindo de outro sistema estelar – tem chamado a atenção de astrônomos profissionais e amadores ao redor do mundo.
Além do fascínio científico, a trajetória do objeto pelo Sistema Solar despertou uma onda de boatos. Enquanto o cometa brilhava em sua aproximação com o Sol, a paralisação de 43 dias do governo dos EUA impediu a NASA de divulgar novos dados, criando um terreno fértil para teorias de que seria uma espaçonave alienígena.

Com o fim da paralisação, a agência promoveu uma coletiva de imprensa muito esperada para apresentar observações reunidas por mais de 20 missões espalhadas pelo Sistema Solar. O material forneceu o panorama mais completo já obtido sobre o visitante interestelar.
Logo de início, os especialistas presentes trataram de esclarecer o ponto que mais alimentava especulações: 3I/ATLAS é um corpo natural. Não há sinais de tecnologia ou engenharia extraterrestre no objeto. “Queremos muito encontrar vida fora da Terra”, disse Amit Kshatriya, administrador associado da NASA. “Mas o 3I/ATLAS é um cometa”, garantiu.
Para os cientistas, esse “forasteiro” representa uma chance rara de analisar material formado ao redor de outra estrela. Os indícios químicos iniciais sugerem que ele pode ter origem em um sistema planetário muito mais antigo que o nosso.

A seguir, os quatro pontos principais revelados pela NASA sobre o 3I/ATLAS.
1) 3I/ATLAS é um cometa, não uma nave alienígena
Pouco depois da descoberta, um trio de pesquisadores – incluindo o polêmico astrofísico de Harvard Avi Loeb – publicou um artigo preliminar sugerindo que as características do objeto poderiam indicar tecnologia alienígena. Como o estudo não havia passado por revisão científica e tocava em controvérsias anteriores ligadas ao objeto ’Oumuamua, a discussão rapidamente se espalhou pelas redes sociais.
A repercussão cresceu após Elon Musk comentar, em um podcast, sobre algo além da gravidade estar influenciando o movimento do cometa. Embora o empresário tenha sido claro na explicação do fenômeno (saiba mais aqui), não demorou para cortes do vídeo viralizarem nas redes sociais dando a entender que ele estaria concordando com a hipótese de espaçonave alienígena.
Por falar na força das redes, a situação ganhou ainda mais visibilidade com um vídeo de Kim Kardashian pedindo à NASA que “revelasse tudo”. Com tantas especulações circulando, a agência tratou de desmenti-las diretamente.
“Este objeto é um cometa”, afirmou Kshatriya na coletiva. “Todas as evidências apontam para isso.” Nicky Fox, administradora associada da Diretoria de Missões Científicas da NASA, reforçou que nenhuma assinatura tecnológica foi detectada em nenhuma observação realizada.

Ela também destacou que o 3I/ATLAS não oferece qualquer ameaça à Terra. A menor distância prevista entre nós e o cometa será de cerca de 270 milhões de quilômetros, em 19 de dezembro. O objeto também não se aproximará significativamente de outros planetas, mesmo ao cruzar a órbita de Júpiter em 2026. Segundo Fox, todos os corpos do Sistema Solar estão seguros.
2) Um esforço de observação distribuído por todo o Sistema Solar
Por estar do lado oposto do Sol em relação à Terra no momento em que foi descoberto, o 3I/ATLAS era difícil de observar a partir do nosso planeta. Para contornar essa limitação, a NASA organizou, em agosto, uma coordenação inédita reunindo equipes de mais de 20 missões. O objetivo era rastrear o cometa a partir de múltiplos pontos do Sistema Solar. A estratégia também foi adotada pela Agência Espacial Europeia (ESA).
Tom Statler, cientista-chefe da NASA para pequenos corpos, comparou o esforço a assistir a um jogo de beisebol de vários pontos do estádio. Cada espaçonave, telescópio ou instrumento fornecia um ângulo complementar, já que nenhum tinha a visão completa do objeto.

Por coincidência, Marte estava bem posicionado. Em outubro, a sonda Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) registrou a coma do cometa a 145 milhões de quilômetros. Quase simultaneamente, a sonda MAVEN detectou gás hidrogênio produzido pela vaporização do gelo de água, permitindo estimar a taxa de liberação desse material. Esses dados foram combinados com informações do telescópio Swift e do Telescópio Espacial James Webb (JWST).
Outras missões acrescentaram detalhes importantes. A espaçonave Psyche captou o cometa como uma mancha distante a 53 milhões de quilômetros. A sonda Lucy observou a coma e a cauda por outro ângulo, ajudando a reconstruir sua estrutura tridimensional. Surpreendentemente, até o Observatório Solar e Heliosférico (SOHO) conseguiu detectá-lo, embora acreditassem que ele seria fraco demais.
O Telescópio Espacial Hubble observou o 3I/ATLAS a 446 milhões de quilômetros e registrou uma coma em formato de pera. Os dados permitiram estimar que o núcleo mede entre 427 metros e 5,6 quilômetros. O JWST, por sua vez, fotografou o objeto no infravermelho e identificou uma proporção elevada de dióxido de carbono, muito acima da encontrada em cometas do Sistema Solar.
3) Um mensageiro de sistemas estelares antigos
A velocidade de entrada do 3I/ATLAS no Sistema Solar indica que ele viaja pelo espaço interestelar há eras. Para Statler, isso sugere origem em um sistema planetário extremamente antigo, possivelmente anterior ao próprio Sol. O cometa pode carregar pistas de processos que ocorreram antes da formação da Terra.
“Só de pensar nisso, já me dá arrepios”, brincou o pesquisador. Isso porque o objeto oferece uma janela inédita para a composição e a evolução de sistemas estelares remotos que já não existem mais ou passaram por mudanças profundas.

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4) Composição química do cometa 3I/ATLAS é intrigante
Embora se comporte como um cometa típico ao se aproximar do Sol, o 3I/ATLAS apresenta alguns detalhes incomuns. A proporção de dióxido de carbono em relação à água é mais alta que a encontrada em cometas locais. Além disso, o gás liberado exibe quantidades relativamente elevadas de níquel em comparação ao ferro, algo pouco comum.
A poeira ao redor do cometa também chama atenção. O tamanho dos grãos parece diferente do padrão observado em objetos próximos da Terra. Outro comportamento curioso foi a direção inicial da poeira, que primeiramente se moveu para o lado iluminado pelo Sol antes de ser empurrada na direção oposta pela radiação – um processo mais longo e raro.
Para Statler, essas descobertas mostram que ainda há muito a perguntar e a investigar. “Isso é o processo científico em ação”, afirmou. “Estamos apenas começando a entender o que esse visitante pode nos revelar.”