O entusiasmo com a inteligência artificial, que motivou aportes bilionários em empresas de tecnologia em 2025, pode estar deixando de lado um risco relevante: a possibilidade de um novo avanço da inflação, impulsionado justamente pelo volume crescente de investimentos no setor.
Analistas e gestores consultados pela agência Reutersalertaram que esse cenário pode interromper o ciclo de otimismo que sustenta as ações ligadas à IA. E as quedas já começaram a afetar algumas big techs.
Boom da IA levou a recordes em investimentos em 2025, mas pode enfrentar desafios em 2026 (Imagem: DVC Designer/Shutterstock)
Boom de IA aqueceu o mercado em 2025
Nos Estados Unidos, lar das big techs, um pequeno grupo de gigantes de tecnologia respondeu por cerca de metade dos lucros do mercado no último ano. O número de investimentos chegou a recordes históricos, impulsionado principalmente pelo entusiasmo em relação à inteligência artificial.
A tendência se repetiu em outros locais, como na Ásia, onde as bolsas também se aproximaram de recordes.
No caso dos EUA, um dos fatores que ajudou nos investimentos foi o corte nas taxas de juros, que fizeram a inflação recuar no país e criaram um ambiente propício para apostar na bolsa.
Para 2026, espera-se que estímulos governamentais nos EUA, Europa e Japão sigam alimentando o crescimento global – mais uma vez, graças ao boom da IA.
Analistas alertam para a ‘bolha de IA’ que pode estourar (Imagem: royyimzy / iStock)
Inflação se tornou preocupação em 2026
Os mesmos fatores que criaram um ambiente favorável para investimentos em 2025 agora levam gestores a se posicionarem de forma mais cautelosa. A avaliação dos investidores consultados pela Reuters é que uma retomada das pressões inflacionárias pode forçar bancos centrais a encerrar ou até reverter os cortes de juros, restringindo o fluxo de capital que hoje alimenta investimentos de maior risco, especialmente no setor de tecnologia.
Para alguns estrategistas, uma política monetária mais rígida seria o fator capaz de estourar a atual ‘bolha de IA’. Isso reduziria a procura por ações no mercado de tecnologia, que costumam ser mais especulativas. A consequência: elevação no custo de financiamento de projetos de IA e pressão nas empresas do setor tech.
O impacto seria ainda maior para companhias envolvidas na expansão acelerada da infraestrutura digital. Os chamados hiperescaladores, como Microsoft, Meta e Alphabet, lideram uma corrida bilionária para construir data centers e ampliar sua capacidade computacional. Segundo analistas, essa expansão tem efeito inflacionário direto, dada a elevada demanda por energia e chips avançados.
Ainda, bancos de investimento avaliam que os custos associados à IA tendem a subir, não a cair, pressionados pelo encarecimento de semicondutores e eletricidade.
Andrew Sheets, estrategista do Morgan Stanley, prevê que a inflação ao consumidor nos Estados Unidos fique acima da média do Federal Reserve até o final de 2027, um período considerado longo.
Mesma bolha de IA que animou investidores em 2025 pode ser revertida em 2026 (Imagem: Pedro Spadoni via ChatGPT/Olhar Digital)
Bolha de IA vai estourar?
Sinais iniciais de preocupação já começaram a aparecer nos mercados:
Recentemente, ações de empresas de tecnologia recuaram após alertas sobre aumento de gastos e baixas margens de lucro. Uma delas foi a Oracle, que aumentou gastos em IA e data centers, mas não arrecadou o esperado;
Fabricantes de hardware, como a Intel e a HP, também indicaram que devem sentir o impacto nos preços – e nos lucros – à medida que os custos de componentes, como chips de memória, sobem com a demanda de data centers;
Projeções de longo prazo reforçam o alerta para a inflação. Estimativas do Deutsche Bank apontam que os investimentos globais em data centers podem chegar a US$ 4 trilhões até 2030;
No entanto, a rápida implementação desses projetos e os altos custos vão criar gargalos no fornecimento de chips e energia, elevando ainda mais os custos da tecnologia.
Para os analistas, esse ambiente pode reduzir o retorno esperado dos investimentos em IA e levar o mercado a recalibrar o entusiasmo que marcou os últimos anos.