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Durante os anos 1960, a disputa espacial entre União Soviética e Estados Unidos tinha um objetivo “simples”: chegar primeiro à Lua, gastando o que fosse preciso e correndo os riscos que fossem necessários para plantar sua bandeira, tirar umas selfies e voltar para casa. Mas os tempos mudaram. A nova corrida espacial tem mais competidores e desafios ainda mais ousados. Não queremos apenas visitar nossa vizinha cósmica — queremos ficar. E ficar na Lua muda tudo. Afinal, viver fora da Terra não é como um acampamento de verão: cada parafuso, cada grama de alimento e, principalmente, cada gota de água precisa ser levada até lá. E esse frete custa uma fortuna, algumas dezenas de milhares de dólares por litro.

Por isso, um dos maiores desafios para o próximo grande salto da humanidade fora da Terra é: como abastecer nossas futuras colônias lunares com uma água “made in Lua”!?
Para que nosso satélite natural se torne uma base permanente e um trampolim rumo a Marte, precisamos aprender a usar os recursos disponíveis no próprio local. E nenhum recurso é mais valioso do que a água. Mas ela não serve apenas para matar a sede dos astronautas. Podemos quebrar as moléculas da água, gerando oxigênio, para respirar, e hidrogênio, para abastecer foguetes. Só que produzir água na Lua não é tão simples. Enquanto aqui na Terra, ela brota do solo, corre em rios, forma oceanos e ainda cai do céu, na Lua… bem, na Lua não chove. Ou será que chove?
Por décadas, acreditamos que a Lua era um deserto absoluto. As amostras trazidas pelas missões Apollo pareciam confirmar essa ideia: rochas secas, poeira estéril, um mundo morto e sem umidade. Mas a ciência adora contrariar certezas. A partir dos anos 2000, missões como a indiana Chandrayaan-1, a americana LCROSS e observações de diversas sondas começaram a contar uma história bem diferente. Assinaturas químicas de hidroxila, depósitos de gelo nos pólos e sinais de hidratação espalhados pela superfície indicaram que a Lua não é tão seca assim. Mais do que isso: a água lunar não é apenas um resquício congelado do passado. Ela faz parte de um ciclo ativo, sutil e fascinante.

Mas de onde vem essa água? Parte dela está presa nos grãos do regolito — o solo lunar — como moléculas grudadas em partículas de poeira. Outra parte vem do espaço. Minúsculos fragmentos de cometas e rochas espaciais, ricas em água, bombardeiam constantemente a superfície lunar. E aqui entra um detalhe curioso revelado por missões como a LADEE: quando atravessamos uma trilha de detritos deixada por cometas e asteroides, a Lua também é atingida. As mesmas partículas que geram as melhores chuvas de meteoros por aqui, também caem na Lua. Ou seja, na Lua também chove. Uma chuva diferente, mas chove!
Sem a proteção atmosférica que temos na Terra, esses grãos microscópicos atingem diretamente o solo lunar a dezenas de quilômetros por segundo. Quando isso ocorre, a energia do impacto libera moléculas de água que estavam presas ali, lançando-as temporariamente na exosfera lunar.
Além disso, estudos indicam que existe uma camada superficial extremamente seca, com alguns centímetros de espessura, funcionando como um “escudo” contra o Sol. Abaixo dela, o regolito pode conter quantidades um pouco maiores de água, protegidas da radiação solar intensa. Não é um aquífero lunar com água corrente — infelizmente — mas é um reservatório que pode ser explorado com tecnologia adequada.

Agora, antes que alguém separe a roupa de banho para as férias de verão no Mar da Tranquilidade, é importante entender que, para os padrões terrestres, a Lua continua absurdamente seca. A concentração de água no solo lunar varia entre 200 e 500 partes por milhão. Traduzindo: para extrair uma garrafinha de 500 mililitros de água, seria preciso processar quase duas toneladas de solo lunar. É como tentar encher um copo espremendo areia. Funciona? Em tese, sim. Fácil? Nem um pouco.
Mas por que tanto esforço? Porque essa água vale mais do que ouro. Ela é essencial para manter bases humanas permanentes, garantindo água potável para consumo e para produção de alimentos. Mais do que isso, podemos usar eletrólise para quebrar as moléculas de água em hidrogênio e oxigênio, transformando a Lua em um potencial posto de gasolina espacial. Produzir combustível por lá reduziria drasticamente os custos e abriria caminho para missões mais longas e ambiciosas, incluindo viagens tripuladas a Marte e além. Em vez de lançar foguetes cheios de combustível desde a Terra, podemos parar para abastecê-los na Lua, e ainda pedir uma pizza, antes de seguir caminho!

Construir a estrutura para extrair água em grandes quantidades a partir do solo lunar ainda é uma tarefa bem complicada, mas agora podemos entender porque tantas missões de Índia, China, Rússia, Estados Unidos, entre outros, procuram os melhores locais e as melhores tecnologias para dominar a produção de água por lá.
Além disso, a água “Made in Lua” é muito mais do que um recurso prático. Ela é um laboratório natural para entendermos a história do Sistema Solar, o transporte de voláteis entre mundos e os processos que moldaram planetas e luas. Mas, acima de tudo, ela pode ser a chave para o próximo capítulo da aventura humana no espaço. Tendo água, a Lua deixa de ser apenas um destino e passa a ser um ponto de partida.
Transformar poeira lunar em água potável, ar respirável e combustível pode soar como ficção científica, mas é exatamente assim que o futuro costuma começar: com uma ideia improvável, que inspira tecnologias inovadoras e soluções geniais. Se quisermos nos tornar uma espécie verdadeiramente multiplanetária, talvez tudo comece com algo simples, transparente e essencial: Um copo d’água… genuinamente, “made in Lua”.