Alerta global: relatório da ONU declara entrada na era da “falência hídrica” do planeta

Instituto da ONU alerta que o esgotamento de rios, lagos e aquíferos atingiu um ponto irreversível, exigindo uma reclassificação urgente da crise mundial da água
Lucas Soares21/01/2026 14h09
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Um relatório contundente do Instituto Universitário das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH) advertiu que o mundo cruzou um limiar crítico: entrou em uma era de “falência hídrica”. O conceito, proposto pelos pesquisadores, descreve um estado permanente em que o uso da água doce supera drasticamente a capacidade de reposição natural, causando danos ambientais severos e irreversíveis aos sistemas hídricos do planeta.

De acordo com o documento, termos como “estresse hídrico” já não são suficientes para descrever a realidade atual. Décadas de consumo excessivo, poluição e destruição de ecossistemas, agravadas pela pressão das mudanças climáticas, esgotaram reservas vitais. A prova estaria no desaparecimento de aproximadamente 410 milhões de hectares de zonas úmidas – área comparável ao tamanho da União Europeia – nos últimos 50 anos, na redução de grandes lagos e no fato de que muitos dos principais rios do planeta já não alcançam o mar durante partes do ano.

“É um alerta de que uma reformulação das políticas é essencial”, disse à AFP Kaveh Madani, diretor da UNU-INWEH e autor principal do relatório. Madani defende que os governos devem “ser honestos” e “declarar falência hoje mesmo, em vez de adiar essa decisão”, para forçar uma ação imediata e transformadora.

Regiões da África do Sul que passaram por secas mais severas mostraram os aumentos mais significativos no nível do solo. Crédito: Vladimir Konstantinov – Shutterstock

Estudo da ONU mostra futuro sombrio da água no planeta

Os dados compilados no estudo pintam um quadro sombrio: cerca de 70% dos principais aquíferos usados para água potável e irrigação estão em declínio contínuo. Essa exaustão das águas subterrâneas se reflete no aumento de crises urbanas do “dia zero”, quando a demanda supera completamente a oferta. As mudanças climáticas intensificam o problema, tendo sido responsáveis pela perda de mais de 30% da massa glacial mundial desde 1970, ameaçando o abastecimento sazonal de centenas de milhões de pessoas.

Vista aérea da Hidrelétrica de Furnas, em Minas Gerais. Comparadas às hidrelétricas, que alagam e dependem de água, usinas solares centrais ocupam grandes áreas, mas preservam ecossistemas e funcionam mesmo na seca. Crédito: ByDroneVideos – Shutterstock

Alguns cientistas, embora reconhecendo a gravidade da situação, apontam para nuances. Eles alertam que um panorama global genérico pode obscurecer avanços e realidades locais distintas, onde progressos em gestão hídrica estão sendo feitos.

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A conclusão do relatório é um chamado urgente para uma nova estrutura de governança. “Vamos adotar essa estrutura. Vamos entender isso. Vamos reconhecer essa dura realidade hoje, antes que causemos danos ainda mais irreversíveis”, concluiu Madani. O conceito de “falência hídrica” busca ser o catalisador para essa mudança radical de perspectiva e ação.

Lucas Soares
Editor(a)

Lucas Soares é jornalista formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e atualmente é editor de ciência e espaço do Olhar Digital.

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