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Um espetáculo de luzes roxas e vermelhas pintou o céu noturno de Cambará do Sul, no Rio Grande do Sul, na noite de 19 de janeiro, desafiando a compreensão científica sobre onde e como as auroras podem se formar. O fenômeno, registrado pelo fotógrafo Egon Filter, ocorreu durante uma das tempestades solares mais intensas das últimas duas décadas e em uma localização única: o coração da Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS), uma “brecha” no campo magnético terrestre centrada sobre o Brasil.
“Estávamos olhando para o sul quando essa estranha faixa roxa apareceu”, relatou Filter ao Spaceweather, que divulgou a imagem. No momento do registro, o índice que mede a perturbação geomagnética global (índice Kp) marcava 7.6, em uma escala que vai até 9, indicando uma tempestade forte (G4). Em contato com o Olhar Digital, Filter confirmou que, apesar de ser algo raro, “é possível a formação de auroras nestas latitudes”.

A AMAS é uma região onde o campo magnético protetor da Terra é significativamente mais fraco, permitindo que partículas carregadas dos cinturões de radiação de Van Allen se aproximem mais da atmosfera. Segundo Filter, isso “facilita a entrada de prótons de vento solar em tempestades solares muito intensas”.
Outra possibilidade levantada pelo Spaceweather é que tenha sido um Arco SAR (Stable Auroral Red arc). Trata-se de um fenômeno diferente, causado pelo aquecimento da alta atmosfera pela liberação de energia do sistema de correntes elétricas globais da Terra durante tempestades intensas. No entanto, esse tipo de evento não deveria ocorrer dentro da anomalia.

Tempestade de radiação solar mais forte desde 2003
O evento luminoso foi apenas a face visível de uma perturbação solar profunda. Enquanto as auroras brilhavam nos polos, a Terra era atingida pela tempestade de radiação solar mais forte desde 2003, classificada como S4 (Severa) em uma escala que vai até S5. Diferente da tempestade geomagnética (que causa auroras), a de radiação é um bombardeio de prótons de alta velocidade lançados por explosões solares.
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Essa radiação não chega à superfície, protegida pela atmosfera, mas representa risco para astronautas, tripulações de voos polares e pode causar mal funcionamento em satélites, como o reportado por meteorologistas durante o evento.

A aparição de uma estrutura auroral tão definida dentro da AMAS é um evento raro e valioso para a ciência. O episódio reforça que, sob a combinação certa de violência solar e peculiaridades do nosso próprio campo magnético, até mesmo os céus das latitudes médias do Brasil podem, em condições extremas, se acender com as cores do espaço.
Egon Filter tem mais de 15 anos de experiência em astrofotografia e participou de seis expedições para fotografar a Aurora boreal no norte da Escandinávia entre 2012 e 2018. Filter ainda criou o trabalho fotográfico autoral “Caminho das Estrelas”, um projeto com foco local e divulgação global, tornando-se referência no Brasil neste tipo de astrofotografia.